Aprender inglês mudou um monte de perspectivas que me possuíam tal qual fantasmas. Também confirmaram outras no meu processo de autoconhecimento, por exemplo, vou errar em detalhes em qualquer língua. Não se trata de aprendizado, simplesmente sou quem sou. O mesmo goleiro do Palmeirinhas capaz de fazer defesas de orgulhar qualquer profissional logo depois de ter tomado um frango.
Dentre as coisas que mudaram ficam a vergonha de saber mais da gramática da língua dos outros do que de minha própria. A compreensão de o pouco que sei de português é derivado da comparação com outra estrutura. Ainda mais: o importante é comunicar, até porque, muitas vezes ninguém se entende mesmo. Finalmente o fato de que a tal língua culta é antes de tudo um instrumento de exclusão.
Para não ficar só na teoria, permita-me dar um exemplo. Em inglês dizemos Shakespeare wrote Romeo and Juliet, Patrick Rothfuss has written The name of the wind. Observe que a primeira frase está no passado simples e a segunda no presente perfeito. Ao traduzir vai tudo para o passado. Para poupar de uma longa explicação da diferença dos dois tempos verbais simplesmente apontava para os meus alunos que bastava saber quem ainda está vivo.
Agora me diz com sinceridade se você acha se a obra do Bardo está realmente concluída. Pega aqui na minha mão e vem. Ontem fui ao barbeiro e dei de cara com o Baruc...digo a ele: Bicho, tinha uma coisa importante para dizer, só não lembro o que é. Se for importante mesmo digo depois. Coisa de velho que nunca lembra.
Só que agora lembro. Estou lendo o livro dele agora mesmo, no presente e é perfeito perguntar ao autor sobre qualquer dúvida. Só que sabendo muito mais de literatura ele já havia explicado que não se pergunta ao autor, sob o risco de perder as poderosas metáforas e suas infinitas interpretações ao se restringir apenas a quem escreveu.
Enquanto isso lá se vai um mês que descobri que vou ser avô. Pego o violão e tenho a ousadia de gravar O filho que eu quero ter de Toquinho e Vinicius. Quando o faço modifico a letra em dois ou três pontos, apesar de ela já ser perfeita (e muito melhor executada) bem antes de minhas interferências. Ou seja, Vinicius vive nas cordas de meu violão.
O tempo seja ele verbal ou essa coisa indecifrável que a física tenta, inutilmente, aprisionar em um espaço é simplesmente luz.
Escrever é um ato coletivo.