terça-feira, 14 de abril de 2026

FEITO DE LUZ, ÁGUA E AR

Sabe aquele tipo de exercício no qual você tem que preencher os pontinhos, pontinhos? Nesse a resposta era: fotossíntese, energia solar, vegetais verdes, água, gás carbônico e glicose. Até aí tudo bem. Mas sabe quando me sinto atropelado por um bonde? Quando vejo isso em um livro do primeiro segmento do ensino fundamental.

Vamos aos fatos. A tal da fotossíntese só pôde ser minimamente compreendida com o advento da física moderna. Sabe essa palavrinha que os gurus do youtube cansam de usar, pois é. Para entender isso é necessário saber um pouquinho de física quântica e efeito fotoelétrico.

Ou seja, se você não é um iniciado em ciência básica como a maioria dos seres humanos que povoam esse planeta o texto certinho, completinho, bonitinho e corretamente preenchido vai ser na melhor das hipóteses apenas memorizado. É isso que exigimos de qualquer criança de 10 anos na maioria esmagadora das escolas.

Sabe aquele cara odiado por uma imensa galera, um tal de Paulo Freire? Ele dizia que não se pode alfabetizar um adulto nordestino no espaço tempo que ele viveu usando frases do tipo “vovô viu a uva” e sim começar com palavras como tijolo.

Em síntese não se pode aprender realmente algo que não faz sentido para você. Já estive aqui defendendo a ideia de que não deveríamos fazer provas escritas de inglês nessa fase, evitando ter que explicar que o H de cavalo tem som de erre e do de hora é mudo. Enfim, na ânsia de criarmos escolas com ensino “forte” estamos condenando uma geração inteira ao tédio e a noção que estudar não faz sentido algum.

Quem teve a chance de plantar um feijão em um copo com algodão na infância, experiencia que tristemente me faltou, provavelmente tem uma intuição muito melhor de como funcionam os tais vegetais fotossintetizantes.

Aprender é um ato profundamente humano. Algo que nos afasta do intuito animal de poupar energia de uma parte do nosso corpo que gasta muito mais que todo o resto em termos proporcionais, ou seja o cérebro. Talvez a resposta seja o afeto, ou seja, de alguma forma temos que aprender a gostar de aprender. O que não deveria ser difícil para um menino cercado por plantas em sua própria casa.

Se mesmo adulto você ainda se sente perdido nos processos de obtenção de energia procedido pelos tais vegetais verdes talvez a poesia possa lhe ajudar um bocado. Para isso ouça o Caetano cantando a música tema do filme índia a filha do Sol em que ele simplesmente diz: “Luz do Sol, que a folha traga e traduz em verde novo”.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

A BANDA

 Em outras condições de pressão e temperatura sua mãe estaria junto, mas ela está tão ao norte que seria bem difícil combinar. Sua madrinha também não estava disponível, ela teve a chance de ver Carmina Burana. Eu mesmo já cheguei de costas, o que chamamos de visita de médico. Nada mais adequado. Até porque estamos um tantinho longe das tais CNTP. Nada no mundo está.

Fui pra sua casa pensado na cacofonia de vozes uma ópera pode ter, aí a metáfora associada ao dizer Opera Mundi é tão óbvia que chega a ser ridícula. Como sempre levei o violão velho de guerra. Logo lhe encontro munido de um cavaquinho.

Ultimamente temos aprendido essa tal de música de modos bem diferentes. Como ela está na sua vida desde cedo chegou a hora de abandonar as partituras e colocar os pés no chão de fábrica. Enquanto isso sigo o caminho oposto recheando meus cadernos com tablaturas. No fim das contas buscamos o mesmo. Uma certa intuição musical que as vezes corre pelos dedos e outras escorre pelas mãos.

Tocamos juntos. Tim Maia, Djavan, Marisa Monte e Noel Rosa. Quem sabe Cartola e Chico aparecem no próximo encontro? Porém o que ficou marcado foi o longo tempo necessário para ajustar os instrumentos. Quem pensa que o cavaquinho é apenas um violão pequeno não poderia estar mais errado. Esse menino nasceu com personalidade própria, e ver ele encostado em sua barriga abraçado em suas mãos comparativamente gigantes me lembrou dessa maravilhosa noção de que cada instrumento tem algo diferente a dizer sobre a mesma música.

Você comenta que leu meu livro todo e sorri quando aponto que roubei descaradamente sua frase que compara cigarros a pregos do caixão, simultaneamente me desculpo de ter errado seu nome ao lhe mencionar em uma de minhas crônicas. Isso é mais um fato que nos aproxima: ter nomes diferentes leva muitas pessoas a, no mínimo, gaguejar na tentativa de pronúncia. Concordamos que só nossas lindas esposas estão proibidas de errar nossos nomes.

Volto para casa com a missão de aprender novas músicas para tocarmos juntos, quem sabe teremos a chance de chamar seu irmão? Não sei muita coisa, porém fica claro que tudo só funciona quando estamos dispostos a nos afinar.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

HERÓI TRÁGICO

 

Ele quebrou na junta

Não uma junta qualquer

Foi tão espetacular que ela passou a ter o nome dele

Qual é seu destino?

O dele era uma encruzilhada

Paz ao lado da família

Glória eterna nos campos de batalha.


Sua mãe fez o que pôde

Uns dizem que o temperou no fogo

Todos os outros que o mergulhou no rio

Porém as próprias mãos dela impediram que as águas sagradas tocassem a junta

A que recebeu uma flexa de Apolo e como já disse seu nome.


A mãe o levou ao Centauro

O escondeu entre as meninas

Pediu que seu primo o acompanhasse

Fica quieto menino, aqui perto do mar lhe protejo.


Não teve os abraços filha do rei que o acolheu entre as suas

A guerreira que o combateu

A filha do rei vencido.


O ódio o cegou ao perder

Primeiro a honra diante de seu próprio comandante

Depois, aquele que tomou emprestada a armadura.


O adversário mais honrado pagaria a conta

Não teve chance

Teve o corpo arrastado

Três dias e três noites sob a reprovação do Deus Sol.


Lembra da encruzilhada?

A escolha já estava feita

Por isso ainda hoje lembramos seu nome.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

TEMPO VERBAL

Aprender inglês mudou um monte de perspectivas que me possuíam tal qual fantasmas. Também confirmaram outras no meu processo de autoconhecimento, por exemplo, vou errar em detalhes em qualquer língua. Não se trata de aprendizado, simplesmente sou quem sou. O mesmo goleiro do Palmeirinhas capaz de fazer defesas de orgulhar qualquer profissional logo depois de ter tomado um frango.

Dentre as coisas que mudaram ficam a vergonha de saber mais da gramática da língua dos outros do que de minha própria. A compreensão de o pouco que sei de português é derivado da comparação com outra estrutura. Ainda mais: o importante é comunicar, até porque, muitas vezes ninguém se entende mesmo. Finalmente o fato de que a tal língua culta é antes de tudo um instrumento de exclusão.

Para não ficar só na teoria, permita-me dar um exemplo. Em inglês dizemos Shakespeare wrote Romeo and Juliet, Patrick Rothfuss has written The name of the wind. Observe que a primeira frase está no passado simples e a segunda no presente perfeito. Ao traduzir vai tudo para o passado. Para poupar de uma longa explicação da diferença dos dois tempos verbais simplesmente apontava para os meus alunos que bastava saber quem ainda está vivo.

Agora me diz com sinceridade se você acha se a obra do Bardo está realmente concluída. Pega aqui na minha mão e vem. Ontem fui ao barbeiro e dei de cara com o Baruc...digo a ele:  Bicho, tinha uma coisa importante para dizer, só não lembro o que é. Se for importante mesmo digo depois. Coisa de velho que nunca lembra.

Só que agora lembro. Estou lendo o livro dele agora mesmo, no presente e é perfeito perguntar ao autor sobre qualquer dúvida. Só que sabendo muito mais de literatura ele já havia explicado que não se pergunta ao autor, sob o risco de perder as poderosas metáforas e suas infinitas interpretações ao se restringir apenas a quem escreveu.

Enquanto isso lá se vai um mês que descobri que vou ser avô. Pego o violão e tenho a ousadia de gravar O filho que eu quero ter de Toquinho e Vinicius. Quando o faço modifico a letra em dois ou três pontos, apesar de ela já ser perfeita (e muito melhor executada) bem antes de minhas interferências. Ou seja, Vinicius vive nas cordas de meu violão.

O tempo seja ele verbal ou essa coisa indecifrável que a física tenta, inutilmente, aprisionar em um espaço é simplesmente luz.

Escrever é um ato coletivo.

sexta-feira, 27 de março de 2026

THE POWER OF LOVE

Enquanto o carro estava sendo revisado decidi almoçar ali pertinho, o nome do restaurante é SIR JOE, com muita coisa boa, principalmente o ambinete.Ou seja, sei bem onde estava e com um pequeno esforço poderia até precisar a hora e o minuto em que me sentei naquela mesa. Em frente vejo uma tv antiga, dessas em que a imagem mal mantém as cores originais, então fui arremessado de volta ao passado vendo um trecho de “De volta para o futuro”.

Sei bem de um monte de problemas técnicos e científicos de viajar no tempo de um jeito diferente do que já o fazemos em cada salto para o milésimo de segundo seguinte. Penso em tempo como uma expressão da entropia, o que mal explicado diz que não dá pra consertar espelho quebrado. Há ainda a questão da continuidade do espaço com o tempo, ou seja, quem garante que o DeLorean vai votar certinho no mesmo lugar? Ou ainda, se o mesmo local em outra referência está justo no centro de uma estrela?

Entretanto, a viagem ocorria dentro da minha cabeça. Essa chegou a um momento bem específico. Era 16 de junho de 1984, 16:30h, em uma festa de São João. Tendo como referencial o próprio planeta com o qual navegamos através do universo sou capaz ainda de dizer o local com precisão de uns 10 metros: Av. Ministro Edgar Romero 492, Colégio Normal Carmela Dutra, encostado na parede do pátio. Foi lá que ela me deu o primeiro beijo.

O curioso foi que assim, meio sem graça, apesar de continuar abraçada comigo começou a observar as formigas que estavam passeando pela parede. Assumo que fiquei bem confuso, será que realmente começamos a namorar? Essa certeza precisou de algumas semanas, andar de mãos dadas comendo minipastéis de queijo. Mesmo assim se há algum momento específico para voltar, sei bem para quando.

De volta para o futuro digo que criamos um casal, construímos duas casas e trabalhamos de montão, passamos por festas e tempestades. Só agora entendo as formigas. Bem diferente de mim, ela vê beleza em cada detalhe, enfim a graça concedida pelas Graças. É a benção que é quase uma dor. Precisei aprender a tocar “Todo o sentimento” para finalmente entender, mesmo que só um pouquinho.

Hoje posso até dizer que não acredito que signo dela combina com o meu. Dizem que quem é de libra tem beleza, elegância e visão para os detalhes como nenhum outro signo. Então ela roubou tudo de mim. Não reclamo, pois junto roubou inteiro todos átrios e ventrículos de meu coração.

quarta-feira, 18 de março de 2026

NÓS 4

 Tenho um amigo que escreve, outro que revisa, outro ainda que lê. De um modo absurdo os três me deram um tiro de canhão, e todos no mesmo dia. Sabe aquela canção de Teresinha de Jesus, pois éFui a queda, e ao chão. A vantagem é que do chão a gente não passa. Pelo menos até Dante inventar o inferno. 

Você acredita que um cara que revisou não menos que Drummond teve a pachorra de comparar um texto de Machado com meus versos e reversosPara tudo e vai lá pegar meu ego que está quicando no teto. 

Mais cedo um amigo que tem mais intimidade com Jesus vem me dizer respeitosamente que entende meu coração agnóstico. A canção que toca no fundo é “se todos fossem iguais a você”. Aqui cabe lembrar de uma referência do passado, torcedor do Olaria, que sempre dizia são onze contra onze, em nenhum outro lugar do mundo um oprimido tem tamanha oportunidade de vencer. Seu Omar, sempre tinha uma palavra ou outra de sabedoria, pois entendia os malucos de verdade. Ele mesmo era maluco antes de se encontrar com sua espiritualidade. Assim compreendia que não cabia a ele julgar os caminhos dos outros.  

Logo de manhã quando vinha o Sol e as gotas de chuva que ontem caiu leio o texto fresquinho de um poeta que tem a gentileza de compartilhar seus escritos comigo, sugiro que recite com “todo sentimento” ou “O céu de Santo Amaro” como pano de fundo. Aqui percebo que ele sorrateiramente roubou minhas palavras 

Como expressar o amor por quem vê beleza no pouco, no detalhe, até mesmo no invisível?

Meu coração ateu quase acreditou nas suas (seis) mãos. Isso não foi um breve adeus. Foi um venha aqui. Você não está sozinho. 

quinta-feira, 12 de março de 2026

VIDA QUE SEGUE

Ele me liga e quando entro na chamada de vídeo percebo que ela é compartilhada. Nela junto de meu filho está minha nora, aquém do oceano minha esposa e os pais de minha nora. Estamos como que em casa. Há alguns anos este tipo de reunião ocorreria ao vivo e a cores. Hoje nem o Atlântico pode nos afastar.

Na mão de meu molequinho está sendo exibido algo que demorei um bocado para entender do que se tratava, só não digo que a ficha demorou a cair por temer que essa expressão denuncie a minha idade, o que de imediato me transformaria em uma espécie de vovô.

Finalmente entendo o que está ocorrendo. Outra coisa determina que finalmente sou progenitor (além do uso dessa palavra que só velho entende), e não é o cartão de estacionamento que permite usar algumas vagas preferenciais. Se trata, de fato, do resultado de uma ultrassonografia.

Em minha vida já presenciei alguns atos de coragem, coisa de bombeiro. Então cabe ressaltar o que é coragem de verdade: não a ausência do medo – que em última análise é o instinto de preservação evitando que sejamos extintos. Coragem é o fazer. É compreender o necessário apesar do medo. É Arjuna não fugindo da luta para encontrar o dharma.

Dentre esses atos está lá no topo da alma humana, outro, que também é de esperança. O criar e o recriar. Nesses momentos sombrios em que o mundo diz que não, o amor se multiplica em um monte de células que juntas não passam muito de 6 cm. O que sequer pode ser significativo em uma das medidas fundamentais do sistema internacional, mas ao se juntar ao tempo e a massa trazem ao universo um brado retumbante que nos põe no meio do caminho entre o ínfimo e o infinito.

Dois de meus maiores amores se prepararam, se esforçaram, se organizaram, se amaram. Tudo isso foi feito para nos trazer uma nova vida.