sexta-feira, 24 de abril de 2026

PRA VOCÊ QUE AINDA VAI NASCER

Há uma palavra que é a resposta que você vai dar quando lhe perguntarem quem você é. Agora que você sabe ler e interpretar as palavras tenho certeza de que você gosta muito dessa palavra. Ela é uma benção. Tanto é assim que antigamente as pessoas perguntavam “qual é a sua graça” ao invés de “qual é o seu nome”.

Hoje ainda estamos cogitando um bocado. Seus avós e tias estão ansiosos para saber qual vai ser essa palavra. Isso não é uma coisa qualquer. Há um livro sagrado que diz assim: “No começo era o verbo”. Posso até estar errado, mas penso o tal verbo está sendo usado com o sentido de palavra. Ou seja, pode ser ação como sugerido, mas também é substantivo, adjetivo ou o que mais você quiser.

Ao mesmo tempo o seu nome não é você. É o que chamamos de persona. Quando usarem essa palavra será uma deixa para atuar nos palcos da vida, onde seu papel vai mudando ao longo do tempo.

Saiba também que você não vai atuar só. Ao ser protagonista de sua vida haverá um monte de atores convidados. Por exemplo, há uma cachorrinha que está curtindo cada instante em que você cresce em uma linda barriga. Tem um cara grandalhão, esperto e um tantinho desengonçado que vai ser capaz de fazer seja o que for por você. Assim que você nascer sua vó também vai estar aí para ajudar os marinheiros de primeira viagem. As cenas de profunda beleza e emoção vão ser parte de sua estrada, se tiver que a atravessar dê a mão, pois haverá alguém ao seu lado.

Voltando a tal palavra. Há uma lista composta de heróis, navegantes, atletas, estadistas, santos, amigos e até mesmo referências a lugares. Seja qual for espero que você goste muito de seu nome. Várias pessoas dirão que foram a inspiração na construção dessa lista, mas não se engane. Essa dádiva foi lhe dada por quem lhe carregou no ventre. Então espero que de todas as bençãos que estão lhe desejando saiba qual é a minha: que você tenha a mesma que eu tive e sua mãe seja sua melhor amiga. Aprenda com ela como lidar com as meninas que vão contracenar contigo. Não há melhor presente do que ser educado por uma mulher sabia.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

RELÓGIO

Há um pouco mais de três anos você me convenceu a aprender a tocar. Garota, essa é mais uma das coisas pelas quais devo lhe agradecer. Não há dia em que o violão não ensine algo novo. Ontem mesmo lembrei de uma linda música em espanhol, que de um modo incrível, já saiu quase que prontinha de meus dedos. Dedilhado de quatro tempos, acordes simples e até mesmo a língua estrangeira resolveram ajudar.

Isso nem sempre acontece. Música necessita tempo para ser precisa. Algumas até mesmo meses ou anos. Então, chega a ser um paradoxo que justo uma canção que fale sobre o implacável movimento dos ponteiros do relógio tenha resolvido chegar na nossa sala de jantar quase sem demandar minuto algum.

Você estava um tanto distraída com todos aqueles bricabraques que constroem o ritual de seu jantar. Mesmo assim pergunta “qual é essa aí?”, só respondo que é uma linda e muito triste. Ao invés de explicar penso que é melhor escrever mais tarde, justo o que faço agora, pois careço de horas suficientes para organizar minimamente o que tenho para lhe falar.

O nome dela é Relógio, e o artista conta a agonia de ver seu amor em um leito de hospital. A pergunta repetida várias vezes é porque simplesmente os ponteiros não param. Essa o Cazuza respondeu, mas isso só iria acontecer em um futuro imperfeito. O tempo não quer saber de ninguém, ele só tem uma amiga, uma tal de entropia, a que vive dizendo que deixada por si só a realidade sempre se mostra ainda mais e mais desorganizada.

Diferente dessa grandeza física você organiza minha vida e a torna melhor em cada segundo que escolhe estar ao meu lado. Até nos dias em que eu senti o mesmo que Roberto Cantoral ao compor essa maravilhosa melodia. Só discordo dele em relação a quais momentos eu pediria para o relógio parar. Certamente seria dentro de um abraço seu. O problema é a cada vez que lá me encontro vamos nos balançar como pêndulos que movimentam os braços do relógio, e voltando ao Cazuza... o tempo não para.

terça-feira, 21 de abril de 2026

UTOPIA

Dentre todas minhas qualidades inúteis há uma que se destaca. Se eu ouvisse uma música umas três vezes quando era moleque ela grudava em minha memória. Minha namorada ainda se espanta quando tiro uma canção vinda de mil novecentos e guaraná de rolha do baú e a canto bem certinha. Como se na minha caixola ela estivesse gravada em alguma fita cassete.

Canso de dizer que só conseguimos aprender algo se esse algo faz sentido. Então isso de saber canções de cor pode até parecer estranho. Talvez a resposta seja o fato de que a música faz sentido por si só.

Para mim a coisa só fica complicada se a letra fica diferente para a mesma música. Um bom exemplo disso é Construção do Chico. Para essa realmente preciso da letra para não embolar o meio de campo. Outra bem complicada era, não menos que, nosso hino (desculpa ai, qualquer um pode cometer alguma cacofonia). Entretanto nesse caso apreendi um macete: primeiro a gente sonha, depois a gente ama.

O fato é que estamos em momentos tão extremados que nos acostumamos a já chegar na conversa buscando um meio termo. Aqui a música velha que quica na cabeça deixando um galo diz sem a menor vergonha “bicho sai do lixo, baratas mostrem suas patas...” Se tornou tão comum ter que lidar com opiniões escrotas ninguém se espanta se a proposta que vem de lá aponta que a escravidão não foi tão ruim assim, que mulher tem que ganhar menos mesmo e ser submissa, prefiro ter um filho morto do que gay ou aceita que mundo é assim mesmo.

Desculpe, não ser nada pragmático. Meu ponto de partida ainda é a utopia. Meu coração ainda sabe de cor, então ainda posso andar pelas ruas cantando um novo tempo apesar dos castigos. Do jeito que a coisa vai corremos o risco de que nem isso poderei fazer em breve. Se assim o for quando eu não puder pisar mais na avenida... o meu anel de bamba entrego a quem mereça usar.

 

 

terça-feira, 14 de abril de 2026

FEITO DE LUZ, ÁGUA E AR

Sabe aquele tipo de exercício no qual você tem que preencher os pontinhos, pontinhos? Nesse a resposta era: fotossíntese, energia solar, vegetais verdes, água, gás carbônico e glicose. Até aí tudo bem. Mas sabe quando me sinto atropelado por um bonde? Quando vejo isso em um livro do primeiro segmento do ensino fundamental.

Vamos aos fatos. A tal da fotossíntese só pôde ser minimamente compreendida com o advento da física moderna. Sabe essa palavrinha que os gurus do youtube cansam de usar, pois é. Para entender isso é necessário saber um pouquinho de física quântica e efeito fotoelétrico.

Ou seja, se você não é um iniciado em ciência básica como a maioria dos seres humanos que povoam esse planeta o texto certinho, completinho, bonitinho e corretamente preenchido vai ser na melhor das hipóteses apenas memorizado. É isso que exigimos de qualquer criança de 10 anos na maioria esmagadora das escolas.

Sabe aquele cara odiado por uma imensa galera, um tal de Paulo Freire? Ele dizia que não se pode alfabetizar um adulto nordestino no espaço tempo que ele viveu usando frases do tipo “vovô viu a uva” e sim começar com palavras como tijolo.

Em síntese não se pode aprender realmente algo que não faz sentido para você. Já estive aqui defendendo a ideia de que não deveríamos fazer provas escritas de inglês nessa fase, evitando ter que explicar que o H de cavalo tem som de erre e do de hora é mudo. Enfim, na ânsia de criarmos escolas com ensino “forte” estamos condenando uma geração inteira ao tédio e a noção que estudar não faz sentido algum.

Quem teve a chance de plantar um feijão em um copo com algodão na infância, experiencia que tristemente me faltou, provavelmente tem uma intuição muito melhor de como funcionam os tais vegetais fotossintetizantes.

Aprender é um ato profundamente humano. Algo que nos afasta do intuito animal de poupar energia de uma parte do nosso corpo que gasta muito mais que todo o resto em termos proporcionais, ou seja, o cérebro. Talvez a resposta seja o afeto, quem sabe assim, de alguma forma temos que aprender a gostar de aprender. O que não deveria ser difícil para um menino cercado por plantas em sua própria casa.

Se mesmo adulto você ainda se sente perdido nos processos de obtenção de energia procedido pelos tais vegetais verdes talvez a poesia possa lhe ajudar um bocado. Para isso ouça o Caetano cantando a música tema do filme índia a filha do Sol em que ele simplesmente diz: “Luz do Sol, que a folha traga e traduz em verde novo”.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

A BANDA

 Em outras condições de pressão e temperatura sua mãe estaria junto, mas ela está tão ao norte que seria bem difícil combinar. Sua madrinha também não estava disponível, ela teve a chance de ver Carmina Burana. Eu mesmo já cheguei de costas, o que chamamos de visita de médico. Nada mais adequado. Até porque estamos um tantinho longe das tais CNTP. Nada no mundo está.

Fui pra sua casa pensado na cacofonia de vozes uma ópera pode ter, aí a metáfora associada ao dizer Opera Mundi é tão óbvia que chega a ser ridícula. Como sempre levei o violão velho de guerra. Logo lhe encontro munido de um cavaquinho.

Ultimamente temos aprendido essa tal de música de modos bem diferentes. Como ela está na sua vida desde cedo chegou a hora de abandonar as partituras e colocar os pés no chão de fábrica. Enquanto isso sigo o caminho oposto recheando meus cadernos com tablaturas. No fim das contas buscamos o mesmo. Uma certa intuição musical que as vezes corre pelos dedos e outras escorre pelas mãos.

Tocamos juntos. Tim Maia, Djavan, Marisa Monte e Noel Rosa. Quem sabe Cartola e Chico aparecem no próximo encontro? Porém o que ficou marcado foi o longo tempo necessário para ajustar os instrumentos. Quem pensa que o cavaquinho é apenas um violão pequeno não poderia estar mais errado. Esse menino nasceu com personalidade própria, e ver ele encostado em sua barriga abraçado em suas mãos comparativamente gigantes me lembrou dessa maravilhosa noção de que cada instrumento tem algo diferente a dizer sobre a mesma música.

Você comenta que leu meu livro todo e sorri quando aponto que roubei descaradamente sua frase que compara cigarros a pregos do caixão, simultaneamente me desculpo de ter errado seu nome ao lhe mencionar em uma de minhas crônicas. Isso é mais um fato que nos aproxima: ter nomes diferentes leva muitas pessoas a, no mínimo, gaguejar na tentativa de pronúncia. Concordamos que só nossas lindas esposas estão proibidas de errar nossos nomes.

Volto para casa com a missão de aprender novas músicas para tocarmos juntos, quem sabe teremos a chance de chamar seu irmão? Não sei muita coisa, porém fica claro que tudo só funciona quando estamos dispostos a nos afinar.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

HERÓI TRÁGICO

 

Ele quebrou na junta

Não uma junta qualquer

Foi tão espetacular que ela passou a ter o nome dele

Qual é seu destino?

O dele era uma encruzilhada

Paz ao lado da família

Glória eterna nos campos de batalha.


Sua mãe fez o que pôde

Uns dizem que o temperou no fogo

Todos os outros que o mergulhou no rio

Porém as próprias mãos dela impediram que as águas sagradas tocassem a junta

A que recebeu uma flexa de Apolo e como já disse seu nome.


A mãe o levou ao Centauro

O escondeu entre as meninas

Pediu que seu primo o acompanhasse

Fica quieto menino, aqui perto do mar lhe protejo.


Não teve os abraços filha do rei que o acolheu entre as suas

A guerreira que o combateu

A filha do rei vencido.


O ódio o cegou ao perder

Primeiro a honra diante de seu próprio comandante

Depois, aquele que tomou emprestada a armadura.


O adversário mais honrado pagaria a conta

Não teve chance

Teve o corpo arrastado

Três dias e três noites sob a reprovação do Deus Sol.


Lembra da encruzilhada?

A escolha já estava feita

Por isso ainda hoje lembramos seu nome.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

TEMPO VERBAL

Aprender inglês mudou um monte de perspectivas que me possuíam tal qual fantasmas. Também confirmaram outras no meu processo de autoconhecimento, por exemplo, vou errar em detalhes em qualquer língua. Não se trata de aprendizado, simplesmente sou quem sou. O mesmo goleiro do Palmeirinhas capaz de fazer defesas de orgulhar qualquer profissional logo depois de ter tomado um frango.

Dentre as coisas que mudaram ficam a vergonha de saber mais da gramática da língua dos outros do que de minha própria. A compreensão de o pouco que sei de português é derivado da comparação com outra estrutura. Ainda mais: o importante é comunicar, até porque, muitas vezes ninguém se entende mesmo. Finalmente o fato de que a tal língua culta é antes de tudo um instrumento de exclusão.

Para não ficar só na teoria, permita-me dar um exemplo. Em inglês dizemos Shakespeare wrote Romeo and Juliet, Patrick Rothfuss has written The name of the wind. Observe que a primeira frase está no passado simples e a segunda no presente perfeito. Ao traduzir vai tudo para o passado. Para poupar de uma longa explicação da diferença dos dois tempos verbais simplesmente apontava para os meus alunos que bastava saber quem ainda está vivo.

Agora me diz com sinceridade se você acha se a obra do Bardo está realmente concluída. Pega aqui na minha mão e vem. Ontem fui ao barbeiro e dei de cara com o Baruc...digo a ele:  Bicho, tinha uma coisa importante para dizer, só não lembro o que é. Se for importante mesmo digo depois. Coisa de velho que nunca lembra.

Só que agora lembro. Estou lendo o livro dele agora mesmo, no presente e é perfeito perguntar ao autor sobre qualquer dúvida. Só que sabendo muito mais de literatura ele já havia explicado que não se pergunta ao autor, sob o risco de perder as poderosas metáforas e suas infinitas interpretações ao se restringir apenas a quem escreveu.

Enquanto isso lá se vai um mês que descobri que vou ser avô. Pego o violão e tenho a ousadia de gravar O filho que eu quero ter de Toquinho e Vinicius. Quando o faço modifico a letra em dois ou três pontos, apesar de ela já ser perfeita (e muito melhor executada) bem antes de minhas interferências. Ou seja, Vinicius vive nas cordas de meu violão.

O tempo seja ele verbal ou essa coisa indecifrável que a física tenta, inutilmente, aprisionar em um espaço é simplesmente luz.

Escrever é um ato coletivo.