sexta-feira, 7 de agosto de 2026

O GRÃO DE MOSTARDA

 


Já se foi um bom tempo, mas, acredite se quiser, pratiquei caratê e cheguei à faixa roxa antes mesmo de obter um olho roxo. Aqui cabe usar aquela frase tão comum entre quem se desculpa por ter pisado na bola nas redes sociais: “quem me conhece sabe”. Sabe mesmo: assim como Carlos, nasci para ser gauche na vida. Tenho dois pés esquerdos, duas mãos não menos sinistras e tudo mais do mesmo jeito. Então, como consegui aprender minimamente os movimentos?

A resposta fica pela fé de meus mestres, que me contaminou com muita insistência. Assim como o Calvin aí da tirinha alguém deve acreditar ser capaz de aprender para (...surpresa...) aprender.

Digo mais: penso que todo professor deveria, algum dia, tentar aprender algo para o qual não tem talento nenhum. Assim, passamos a lembrar como pode ser complicado aprender. Obviamente, isso só faz sentido quando há uma relação honesta entre quem quer ensinar e quem quer aprender — mea culpa: sei bem como sabotar aulas quando estou no papel de aluno.

Um dos pontos essenciais nesse processo é a relação entre esses atores, que pode ocorrer em diversos níveis operacionais. Ela vai da tragédia em que ninguém aprende nada. Isso pode ser explicado por um breve experimento: feche os olhos e pense em algo que você não gosta nem um pouco de estudar. Então vou lhe dizer que é muito provável que alguém tenha feito você odiar essa matéria, e essa pessoa certamente era um professor. Também há que se considerar que a sala de aula é um espaço de disputa político-social, onde as relações de poder interferem no binômio ensino-aprendizagem. No extremo oposto dessa loucura, não podemos esquecer que a sala de aula é também um lugar em que semeamos nossas esperanças. Afinal, até mesmo a sociedade que ensina mal ou mal ensina o que quer que seja às crianças em uma escola, ao menos oferece a elas um espaço seguro. Até porque a alternativa, muitas vezes e em diversos lugares, é o lamentável risco da criminalidade, da sexualização precoce ou ainda do trabalho escravo.

Se você leciona é fundamental não esquecer quem é o adulto da relação. O que vamos combinar nem sempre conseguimos.  Novamente mea culpa, mea tão grande culpa (prometo não gastar mais meu parco latim toda vez que isso ocorre - até porque a maioria dos conceitos que aprendi ocorreram lecionando na base do erro e tentativa, como ocorre na vida). Enfim, declaro com a honestidade de quem nem sempre conseguiu seguir essa regra dourada. Como a sala também é parte da sociedade acabamos por refletir o esquecer de como ser adulto, o que tem ocorrido todo santo dia em diversas situações em cada cantinho que você puder enumerar. Há meninos de até 60 anos em diversas posições da sociedade, tenham ou não brinquedos caros. Um bom exemplo disso ocorre nas reuniões de pais e mestres se os genitores forem ainda mais infantilizados que os alunos.

Leciono desde os treze anos, o que sempre foi um ganha-pão, até mesmo quando fui bombeiro por 30 anos. Finalmente aposentado, começa a minha aventura como produtor de conteúdo no YouTube. Inicialmente, pensei em continuar trabalhando por ali. Entretanto, logo entendi que, para ter alguma relevância, eu teria que me submeter a algum marqueteiro que iria ganhar tutu de verdade enquanto eu ralava. Uns 50 vídeos depois, decidi transformar isso em hobby.

Nem sei como produzi mais de 4.700 vídeos com a matemática e a física para ensino médio e vestibulares. Nesse processo passei por todas as etapas na construção da relação com uma audiência composta de professores, alunos, admiradores e haters. Tanto me dediquei que cheguei a um ponto de observar que essa atividade pode trazer riscos laborais próprios do isolamento e da manutenção do ego.

O tal do algoritmo foi desenhado em um sistema que logo nos trata como cães de Pavlov, entre chicotadas e petiscos. Seja como for, quem está nessa lida acaba se comparando aos números astronômicos reservados aos que estão dispostos a fazer dancinhas. Logo aparece alguém para dizer que algo tão brilhante deveria ser mais valorizado. Metaforicamente, esses não são tão diferentes daqueles que lhe chamam de tio ou tia: afinal, se você é da família, deveria se sentir orgulhoso pelo sucesso de seus supostos sobrinhos e sobrinhas, justificando que somente o Google possa ser remunerado em mais uma reprodução da lógica comum a qualquer profissão precarizada. Em síntese, pense duas vezes se quiser tirar o seu sustento dessa atividade.

Por outro lado, o desafio é maravilhosamente inebriante. O meu, em particular, foi o de dispor todos os assuntos das matérias que se encontram nos vestibulares mais relevantes, indo da aritmética até a introdução ao cálculo integral e diferencial. Isso com duas lógicas tanto antagônicas quanto complementares:

1.    Estruturação da base teórica de cada assunto com as demonstrações das fórmulas, ou ao menos a construção desse conhecimento de um modo minimamente intuitivo.

2.    Resolução de questões dos vestibulares (ENEM, UERJ, CEDERJ...) e provas militares.

O segundo item ao longo do tempo da construção do canal me pareceu insuficiente. Afinal não é o bastante que EU resolva as questões e sim que o DOCENTE seja capaz de fazê-lo. Consequentemente construí paulatinamente um drive que está na própria página do canal e se encontra na linha em azul da imagem abaixo.   

Desse modo, quem estuda por aqui tem acesso a um material didático minimamente adequado para avançar nos estudos. Ele não se compara à estrutura das escolas e dos cursos particulares; entretanto, vira e mexe tenho a alegria de receber o contato de vários alunos e alunas informando terem atingido seus objetivos, o que é, sem sombra de dúvidas, motivo de comemoração.

Quanto a base teórica, me permitam dizer que alguém que sabe uma fórmula de cor e não sabe para o que ela serve está desperdiçando sinapses e neurônios. Aqui cabe dizer que não é possível aprender algo que não faz sentido. Assunto no qual pretendo me deter um pouco.

Um exemplo clássico é o fosso criado pela linguagem formal, como se alunos e alunas já a dominassem. É algo como dizer: “precipita o aeróstato mais leve que o ar na direção de meus artelhos superiores”, em vez de simplesmente cantar “cai, cai, balão”.

Outro exemplo ocorreu quando um amigo solicitou que eu ajudasse sua filha com a aula de matemática para a 5ª série, o que seria hoje o 6º ano. Ela deveria aprender a calcular a raiz quadrada de um número de três dígitos com a precisão de duas casas decimais. Aqui se estabelece um problema que a levava a decorar o processo sem entender o porquê. Ou seja, o desafio seria treiná-la para passar na prova no dia seguinte. O que torna a experiência no mínimo traumática. E tem como resultado o ódio a matemática e a certeza de que quem não aprende merece usar o chapéu de burro. Observe, entretanto, que o produto notável que torna o processo compreensível só vai ser estudado dois anos depois.

Se você faz parte dos 99% das pessoas que não estão fazendo ideia de como isso se faz, fica aqui um pouquinho. Apesar de não ter a pretensão de lhe ensinar como isso funciona talvez eu possa lhe oferecer uma intuição de como isso ocorre.

Vamos começar pelo tal assunto da 7ª série, um produto notável que chamamos de quadrado da soma. Pode até ser que você ainda lembre da fórmula pelo tanto que sofreu para decorá-la em mil e novecentos e guaraná de rolha. Ela diz assim: quadrado do primeiro, mais duas vezes o primeiro vezes o segundo, mais o quadrado do segundo. Tá bom pra você? Não? E assim?

(a+b)2= a2 +2ab + b2, melhorou?

Seja como for observe a figura

Como o quadrado vermelho tem lado igual a A e o verde tem lado igual a B, a área da figura completa reúne dois quadrados, o que explica o a2 e o b2 da fórmula. Além disso, cada um dos dois retângulos amarelos tem área igual a A vezes B, o que explica o 2ab.

Só assim podemos COMEÇAR a ensinar o assunto, o que demanda tempo, treino, exemplos práticos (algo como quanto precisamos de piso para cobrir a sala, ou de grama para o jardim), fazer contas, consolidar os conceitos de área e multiplicação. Isso sem contar atenção, afeto, disciplina organização... ufa, e todas outras coisas que acontecem em uma sala de aula. Isso se a atividade não é interrompida por alguma operação policial, ou disputa de território entre milicias e facções.

Lembrem que essa conversa aconteceu antes do novo ensino médio retirar tempo de matemática para... bem, essa discussão fica para outra hora.

Enfim, imagina aí o tamanho do desafio que me meti nesses últimos 10 anos, não me pergunte se valeu a pena sob o risco de minha óbvia citação de Fernando Pessoa. Ajudei alguns alunos no caminho, além do mais o canal abriu as portas do Sindicato dos Servidores Municiais de Araruama, onde compareço alguns sábados e abraço alguns vestibulandos. E isso é mais que suficiente para andar com fé.

Temos pouco tempo para ensinar matemática básica a uma geração que passou por uma série de pequenas tragédias programadas para que se sinta culpada por um destino cheio de frustrações. Isso inclui a educação remota improvisada durante uma pandemia e uma reforma do ensino médio que busca mercantilizar a educação. Canso de ver gente inteligente e funcional afirmar que é incapaz de aprender. Em especial, quando alguém me diz a célebre frase “sou de humanas”, respondo: “sou também; não há nada mais humano do que encontrar padrões, cozinhar, pagar as contas, dirigir ou jogar bola. Tudo isso é matemática”.

Assim lá vou utilizando o material dourado (já reparou que a tal construção do conhecimento muitas vezes não ultrapassa suas práticas além do primeiro segmento do fundamental?), para lembrar o que é uma fração. Folhas quadriculadas para construir cada uma das fórmulas de cálculo de área recortando o papel ou barbante para mostrar quem é o tal do pi. Fico encantado quando vejo nos olhares deles que os seus neurônios estão brilhando e entro em êxtase quando percebo a menina de uma mesa explicando para uma colega o que acabou de entender.

Persevero porque acredito neles, que não têm os mesmos recursos que seus concorrentes. Então, quando alguém informa no grupo de zap que passou, fico com um injustificado orgulho de estar na arquibancada torcendo. E essa é a minha crença do tamanho de um grão de mostarda.

terça-feira, 14 de julho de 2026

CLANDESTINA

Isso é uma metáfora, como todo texto. É o que minha versão de 61 anos diria para outra com apenas 9. Naquela época meu irmão estava preso e eu tinha acabado de ver um desses enlatados made in USA na sessão da tarde. Nele Robin Hood também estava na cadeia por combater as injustiças daqueles que estavam usurpando o poder. Logo chega o frei Tuck dizendo que iria libertá-lo só que a cena não tem nada de espetacular, pois quando o saltimbanco pergunta como o religioso iria fazer isso, a resposta foi longe de cinematográfica. Mostrou uma moeda de ouro, chamou o guarda e disse: eis aqui a chave.

O menino que eu era não conseguia entender o porquê de não levar uma moeda para libertar o Rômulo do mesmo jeito.

Ainda nessa semana saiu de outra cadeia uma informação, dessa vez de uma mansão no capital (desculpem o ato falho – na capital) do país. Nela o preso pôde enviar um bilhete e esse diz para onde as moedas devem ir. Isso é possível por fazer parte de um clã. Dona Maria Augusta só tinha coragem para traçar o seu destino.

Ela acompanhou o filho como quem vai em uma procissão em busca de um milagre. A Fortaleza de Santa Cruz, Ilha Grande, Frei Caneca estavam em seu roteiro. Não tenho ideia de quantas humilhações ela passou somente nas revistas onde quase a viravam do avesso. Só muito mais tarde vim a saber que ela fora responsável por fugas espetaculares e o contato entre quem estava dentro e fora do catre. Como ela não tinha moedas suficientes para libertar ninguém ela usava.... cigarros. A palha era retirada cuidadosamente e substituída por bilhetes minúsculos enrolados e finalmente encimados por parte da palha que voltava.

Olhando agora parece algo pequeno. Contudo, cabe lembrar que teve gente torturada até a morte por muito menos. A segunda parte da missão era mais agitada. Ela teria que chegar aos aparelhos sem ser seguida pelos agentes. Só que ao invés de tentar disfarçar ela simplesmente os cumprimentava nos ônibus que pegava e agradecia a segurança estatal.

Um dia quase tudo deu errado. Ela tinha em suas mãos algo profundamente perigoso naqueles anos de chumbo. Uma arma temida pela repressão. Um livro. Sua ousada tática de esconder usando a luz do dia como disfarce foi finalmente descoberta. Entretanto, ainda tinha duas vantagens: sua habilidade como atriz de circo e o conhecimento do bairro em que foi encurralada. Quando os homi chegaram ela jogou o pacote por cima de uma cerca e fez sinal de silêncio para os moradores. Ao mostrar suas mãos vazias um batimento cardíaco infinito lhe cortou a garganta, mas uma certeza a salvou, lá as pessoas confiavam mais nos fugitivos do que na polícia.

Quanto ao livro, até hoje não sei qual é, mas sei que livros libertam mais que moedas.

domingo, 12 de julho de 2026

REVERSOS E AGUDOS

Dentre um monte de coisas que estão acontecendo estou em compasso de espera para receber a prévia da publicação de meu terceiro livro. No mês passado havia comentado isso  para uma aluna do PREVEST e ela perguntou como faço para escrever tanto. Resisti a resposta óbvia, primeiro para não parecer com uma lacrada (que eu odeio), também para evitar gerúndios desnecessários. Resultado: ao invés de dizer “escrevendo”, decido pela resposta longa: “eu preciso encontrar a ligação entre, pelo menos, três ideias diferentes, assim a tal da coesão e da coerência (que nem sempre me acompanha) vão me indicando a próxima linha”.

Hoje, entretanto, não estou muito a fim de fazer isso, apesar de afim ser na matemática justamente a função de uma reta. Então vou escrever trigonometricamente, deste modo irei me permitir a ir do zero ao infinito com ondas, curvas e rupturas. Quando o texto chegar ao máximo poderei indicar como prossegue uma nau à deriva, onde o controle do leme chega a zero, ou melhor ainda tangenciando as tais coesões e coerências.

Tudo começa quando iria sair de casa para dar aula, de repente quase pulo com noticiário e seus tam, tam, tans indicando a gravidade (quem sabe de Jupiter – 9,8 m/s2 não explicariam o salto que minha mente deu). “Um carro de policiais disfarçados foi alvejado por traficantes na favela do Muquiço”. Nisso um misto quentíssimo de memórias invade meu estômago. Esse era o lugar no qual tantas vezes repeti o bom e velho “tô na área” e alguém sempre respondia “se derrubar é pênalti”, então pensava “que nada é falta de ataque, pois sou goleiro do Palmeirinhas e essa área é minha.

Já estive por aqui para contar como meu irmão me salvou do destino pré-traçado para mim, sendo moleque de beira de favela. Ele simplesmente apresentou a um dos amores de minha vida ao colocar um livro nas minhas mãos. Se há algo que as mentes em geral são capazes de fazer é prever o futuro. O problema é que somos desenhados para a preguiça mental, pois essa máquina incrível chamada cérebro foi concebida inicialmente para nos possibilitar a sobrevivência, o problema é que suas células são aquelas que mais gastam energia em todo o corpo. Tudo isso faz com que estudar seja um ato antinatural biologicamente falando. Ou seja, se você senta a bunda em uma cadeira por horas para resolver questões de análise combinatória ou lê Machado de Assis sua parte primata logo reclama de dores nas costas ou algo parecido. Todavia, quando você decide ser um humano capaz de interferir na realidade ao redor a tal da capacidade de previsão se estende para as relações com os outros humanos que vai encontrar no caminho.

O exemplo que quero deixar aqui poderia ser muito bem georreferenciado pelo tiroteio que chacoalhou minha cabeça e me faz escrever. A diferença é que ocorreu nos idos de 1971, provavelmente em um inverno pois estávamos a beira de uma fogueira assando batatas doces, sem a atual sofisticação de usar papel alumínio. Enquanto as colocávamos em uma lata cheia de água, um dos tantos moleques descalços diz: “Fogueira é bom para batatas” outro responde “também é bom para ter pregos, quando elas apagam os pregos nascem”. Não sou muito de ficar calado, mas sabia que aquela frase era uma armadilha. No nosso grupo quem falasse besteira sempre corria o risco de tomar cascudo de todo mundo.

Quase não dormi naquela noite. Sonhei que algumas bruxas malvadas se transfiguravam em pregos e queriam me prender em uma cruz. Os tais pregos que nasceram na fogueira. Mal acordei e corri para a rua que era o meu domínio. Nada combina mais com uma rua de terra batida do que um pé de moleque. O problema é que ao mexer nas brasas mortas logo vi alguns pregos. Estava pronto para entrar em pânico quando percebi algo que explicava tudo: vi algumas caixas da CEASA prontas para se transformarem nas fogueiras dos dias seguintes.

De volta ao futuro. Ligo o carro que vai me levar para dar aula. Decido não continuar com o noticiário onde política e polícia se misturam no lugar que tanto acolheu as solas de meus pés, onde as valas negras de esgoto a céu aberto anunciavam há tanto tempo que nada iria dar certo. Se é para usar minha cabeça, que não seja para prever um futuro distópico onde todos serão crucificados por pregos nascidos em fogueiras. E sim para ajudar a formar gente capaz de entender que as nuvens não são feitas de algodão.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

MIREM-SE NO EXEMPLO DAQUELAS MULHERES DE... QUALQUER LUGAR DO MUNDO

Chamem de coincidência ou de sincronicidade, estou lendo mais um fascículo da enciclopédia sobre mitologia, justo enquanto as oposições no campo político marcam a separação entre Hermes e Afrodite. Minha mente eurocêntrica (mea culpa) não esconde o fascínio do mundo greco-romano, de todos os heróis nenhum marca essa passagem de bastão entre essas duas culturas melhor do que Eneias. Ao fugir de Troia ele leva o filho e o pai... mas deixa a esposa,

No noticiário pipocam as repercussões da fala do netobaby da ditadura. Material para torcer o nariz não falta e as comparações com os Contos da aia são inevitáveis. Pego o escafandro e as luvas para suportar tamanha nojeira, pois antes de ouvir qualquer opinião tenho o cuidado de ver o original.   Respiro fundo e tudo que ouço ele dizer (desculpem meu francês) é pau no cú de Creusa, repetido de tantas formas diferentes que penso: tem como ser mais explícito? Lá é estabelecido que mulher não sabe votar, especialmente as solteiras, porque as casadas ao menos ouvem seus maridos, permeados entre outros inúmeros paus no cú de Creusa.

Um pouquinho de contexto sobre o tal fundador mítico de Roma que ao fugir de Troia leva seu passado e seu futuro, como já descrito aqui, porém algo de menor importância fica no interior dos muros, sabe quem é? A tal da Creusa.

Sei que era hora de ficar calado, pois um dos princípios básicos dos confrontos é não atrapalhar os adversários quando estão errando feio. O problema aqui é bem outro do que empoderar as filhas de Vênus em geral, mas uma em particular. Sabe quem muito ensina o tal do machismo? As mães que não permitem que meninos lavem a louça pois isso não é coisa de homem. Quando isso é apimentado pelo fanatismo religioso a coisa fica realmente perigosa. Nada contra quem professa qualquer fé, tudo a quem quer substituir uma constituição pelos seus dogmas fundamentalistas (em especial se me proibirem de fazer a barba, fico mais feio que o Capitão Caverna).

Mesmo essa em particular em pouquíssimo tempo irá perceber que seu papel já foi encenado na ficção basta ver o que ocorre com a Serena dos Contos da aia. O que de certa forma não é muito diferente do que já ocorreu com tantas encarceradas nos muros de tantas Troias invadidas por cavalos.

terça-feira, 16 de junho de 2026

SINCERICÍDIO

Também sofro dessa verboragia

Sei que você tem opinião

Quem não tem?

Há ainda aquela frase pronta:

Não concordo contigo, mas defendo o seu direito...

O problema é que chegamos ao paradoxo

Não menos conhecido de que tolerar intolerantes leva ao fim da tolerância.

Não sei ainda qual é a resposta a esse dilema

Mas tracei uma linha (logicamente vermelha).

Sua opinião é racista ou pró tortura?

Tentam me ensinar a perdoar e até querer bem

Então lá vai

Quero você bem... longe.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

CRÔNICAS E AGUDAS

 

Bom dia, aqui é Remo Noronha com mais uma aula... Assim começo a conversa que pingou todo santo dia no canal onde leciono física e matemática. Aqui ficam dois traços de minha pessoa: meu nome e o que tenho feito ultimamente.

Assim são as máscaras que usamos ao longo da vida. Elas nos oferecem a ilusão de dizer quem somos. Já fui aluno e professor, cadete e coronel, pai e filho, maluco e criativo, amante e amado. Juntar uma parte na outra parte até pode não ser arte, porém nos permite ser íntegros diante de nossas contradições.

Mesmo assim, o fato de estar aqui apresentando o terceiro livro que já produzi não me faz escritor, do mesmo modo que ter um lençol amarrado em meu pescoço não me transformou em super-homem. Então, ao saber disso tenho a clareza de que é melhor cair das nuvens do que do terceiro andar, o que em meu caso ultrapassa a frase do Machado, pois além da queda metafórica proposta pelo escritor de verdade já me joguei da torre da Escola de Formação de Oficiais, confiando que outros dezesseis cadetes iam me amparar em algo parecido com uma cama de lona. Cena similar pode ser vista em filmes mudos retratando bombeiros. Assim a persona de velho também me cabe.

O real motivo de estar aqui é que escrever para mim é terapia. Publicar o que escrevo vai ser alvo de outras tantas, onde poderei dar sentido ao ato além da mera vaidade, em um ciclo interminável. Lógica cada vez mais débil pelo reconhecimento de que alguma IA pode fazer bem melhor (ou pelo menos assim me disseram).

Muitas vezes sou convidado para rituais, nessas ocasiões sempre dizem que o Criador tem um propósito para mim. Como não sei qual é o Dele posso declarar sem a mínima vergonha que também não sei o meu. Assim vou por aí tentando aprender um pouquinho mais. Afinal, de todas as máscaras que já usei acho que ainda me permito ser dono de um coração de estudante.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

PRA VOCÊ QUE AINDA VAI NASCER

Há uma palavra que é a resposta que você vai dar quando lhe perguntarem quem você é. Agora que você sabe ler e interpretar as palavras tenho certeza de que você gosta muito dessa palavra. Ela é uma benção. Tanto é assim que antigamente as pessoas perguntavam “qual é a sua graça” ao invés de “qual é o seu nome”.

No que ora chamo de presente ainda estamos cogitando um bocado. Seus avós e tias estão ansiosos para saber qual vai ser essa palavra. Isso não é uma coisa qualquer. Há um livro sagrado que diz assim: “No começo era o verbo”. Posso até estar errado, mas penso o tal verbo está sendo usado com o sentido de palavra. Ou seja, pode ser ação como sugerido, mas também é substantivo, adjetivo ou o que mais você quiser.

Ao mesmo tempo o seu nome não é você. É o que chamamos de persona. Quando usarem essa palavra será uma deixa para atuar nos palcos da vida, onde seu papel vai mudando ao longo do tempo.

Saiba também que você não vai atuar só. Ao ser protagonista de sua vida haverá um monte de atores convidados. Por exemplo, há uma cachorrinha que está curtindo cada instante em que você cresce em uma linda barriga. Tem um cara grandalhão, esperto e um tantinho desengonçado que vai ser capaz de fazer seja o que for por você. Assim que você nascer sua vó também vai estar aí para ajudar os marinheiros de primeira viagem. As cenas de profunda beleza e emoção vão ser parte de sua estrada, se tiver que a atravessar dê a mão, pois haverá alguém ao seu lado.

Voltando a tal palavra. Há uma lista composta de heróis, navegantes, atletas, estadistas, santos, amigos e até mesmo referências a lugares. Seja qual for espero que você goste muito de seu nome. Várias pessoas dirão que foram a inspiração na construção dessa lista, mas não se engane. Essa dádiva foi lhe dada por quem lhe carregou no ventre. Então espero que de todas as bençãos que estão lhe desejando saiba qual é a minha: que você tenha a mesma que eu tive e sua mãe seja sua melhor amiga. Aprenda com ela como lidar com as meninas que vão contracenar contigo. Não há melhor presente do que ser educado por uma mulher sabia.