Volto ao tema de “aí, palavras, aí, palavras que estranha potência a vossa”, verso que Cecília Meireles roubou de dentro de meu coração. Já estive aqui para diferenciar contemplar de considerar, o que aprendi com Junito de Souza Brandão espantosamente escrito quando o assunto era mitologia. Enfim, venho refletir (palavra que poderia ser protagonista aqui mesmo) sobre a diferença entre saudade e nostalgia. Prometo não me agarrar ao clichê de que saudade só existe em português, até porque nenhuma palavra consegue ser traduzida plenamente por traidores.
Se você não acredita em mim procure em sua língua duas
palavras que dizem a mesma coisa, com o mesmo sabor e textura. Ou seja, estar
exausto não é o mesmo que estar cansado. Se você tem sua dor ao lembrar, pense
bem se é uma algia qualquer; ou se trata daquelas que lhe dão vontade de
construir uma máquina do tempo.
Como experiência não pode ser transferida talvez eu esteja
errado. Os anos passados não eram tão bons assim. Se você sente saudades do
tempo em que formava fila para cantar algum hino antes de entrar na sala, provavelmente
esqueceu há muito que achava aquilo um tremendo saco. Aqui fica o desafio de perguntar
se você realmente sabe o hino. Não se trata apenas de cantar com as palavras
corretas, o que já é difícil. Mas entender que a pintura de Pedro Américo que transforma em imagem o mesmo texto nunca
existiu. Enfim, não quero acusar ninguém de ter faltado a aula de história, mas
apontar que a história é contada por alguém que pode dizer o que deveria ou não virar
livro texto.
Imagino que o futuro que se posta ali na esquina é assustador.
A distopia deixou de ser um subgênero literário e passou a ser o prato do dia.
Nos cabe, entretanto, entender que a volta ao passado é proposta justo por quem
quer moldar o futuro.
Aqui a palavra é reboco. Em um desses vi a nave Argo pintada
em um afresco (onde a tinta é misturada ao reboco). O problema é que ela tinha características
de uma nau. Ou seja, quem falou de Perseu no século XVI sabia que uma nave construída
para atravessar o Mediterrâneo não teria a mesma força simbólica de outra capaz
de singrar o Atlântico. Assim a nostalgia do tempo dos heróis poderia se transformar
na saudade do que nunca existiu.
Tudo isso quicou na minha cabeça quando vi um carro com o “reboco”
caindo aos pedaços sendo rebocado. Assim fico imaginando para onde vão levar
aquela Brasília.