Já se foi um bom tempo, mas, acredite se quiser, pratiquei caratê e cheguei à faixa roxa antes mesmo de obter um olho roxo. Aqui cabe usar aquela frase tão comum entre quem se desculpa por ter pisado na bola nas redes sociais: “quem me conhece sabe”. Sabe mesmo: assim como Carlos, nasci para ser gauche na vida. Tenho dois pés esquerdos, duas mãos não menos sinistras e tudo mais do mesmo jeito. Então, como consegui aprender minimamente os movimentos?
A resposta fica pela fé de meus mestres, que me contaminou com muita insistência. Assim como o Calvin aí da tirinha alguém deve acreditar ser capaz de aprender para (...surpresa...) aprender.
Digo mais: penso que todo professor deveria, algum dia, tentar aprender algo para o qual não tem talento nenhum. Assim, passamos a lembrar como pode ser complicado aprender. Obviamente, isso só faz sentido quando há uma relação honesta entre quem quer ensinar e quem quer aprender — mea culpa: sei bem como sabotar aulas quando estou no papel de aluno.
Um dos pontos essenciais nesse processo é a relação entre esses atores, que pode ocorrer em diversos níveis operacionais. Ela vai da tragédia em que ninguém aprende nada. Isso pode ser explicado por um breve experimento: feche os olhos e pense em algo que você não gosta nem um pouco de estudar. Então vou lhe dizer que é muito provável que alguém tenha feito você odiar essa matéria, e essa pessoa certamente era um professor. Também há que se considerar que a sala de aula é um espaço de disputa político-social, onde as relações de poder interferem no binômio ensino-aprendizagem. No extremo oposto dessa loucura, não podemos esquecer que a sala de aula é também um lugar em que semeamos nossas esperanças. Afinal, até mesmo a sociedade que ensina mal ou mal ensina o que quer que seja às crianças em uma escola, ao menos oferece a elas um espaço seguro. Até porque a alternativa, muitas vezes e em diversos lugares, é o lamentável risco da criminalidade, da sexualização precoce ou ainda do trabalho escravo.
Se você leciona é fundamental não esquecer quem é o adulto da relação. O que vamos combinar nem sempre conseguimos. Novamente mea culpa, mea tão grande culpa (prometo não gastar mais meu parco latim toda vez que isso ocorre - até porque a maioria dos conceitos que aprendi ocorreram lecionando na base do erro e tentativa, como ocorre na vida). Enfim, declaro com a honestidade de quem nem sempre conseguiu seguir essa regra dourada. Como a sala também é parte da sociedade acabamos por refletir o esquecer de como ser adulto, o que tem ocorrido todo santo dia em diversas situações em cada cantinho que você puder enumerar. Há meninos de até 60 anos em diversas posições da sociedade, tenham ou não brinquedos caros. Um bom exemplo disso ocorre nas reuniões de pais e mestres se os genitores forem ainda mais infantilizados que os alunos.
Leciono desde os treze anos, o que sempre foi um ganha-pão, até mesmo quando fui bombeiro por 30 anos. Finalmente aposentado, começa a minha aventura como produtor de conteúdo no YouTube. Inicialmente, pensei em continuar trabalhando por ali. Entretanto, logo entendi que, para ter alguma relevância, eu teria que me submeter a algum marqueteiro que iria ganhar tutu de verdade enquanto eu ralava. Uns 50 vídeos depois, decidi transformar isso em hobby.
Nem sei como produzi mais de 4.700 vídeos com a matemática e a física para ensino médio e vestibulares. Nesse processo passei por todas as etapas na construção da relação com uma audiência composta de professores, alunos, admiradores e haters. Tanto me dediquei que cheguei a um ponto de observar que essa atividade pode trazer riscos laborais próprios do isolamento e da manutenção do ego.
O tal do algoritmo foi desenhado em um sistema que logo nos trata como cães de Pavlov, entre chicotadas e petiscos. Seja como for, quem está nessa lida acaba se comparando aos números astronômicos reservados aos que estão dispostos a fazer dancinhas. Logo aparece alguém para dizer que algo tão brilhante deveria ser mais valorizado. Metaforicamente, esses não são tão diferentes daqueles que lhe chamam de tio ou tia: afinal, se você é da família, deveria se sentir orgulhoso pelo sucesso de seus supostos sobrinhos e sobrinhas, justificando que somente o Google possa ser remunerado em mais uma reprodução da lógica comum a qualquer profissão precarizada. Em síntese, pense duas vezes se quiser tirar o seu sustento dessa atividade.
Por outro lado, o desafio é maravilhosamente inebriante. O meu, em particular, foi o de dispor todos os assuntos das matérias que se encontram nos vestibulares mais relevantes, indo da aritmética até a introdução ao cálculo integral e diferencial. Isso com duas lógicas tanto antagônicas quanto complementares:
1. Estruturação da base teórica de cada assunto com as demonstrações das fórmulas, ou ao menos a construção desse conhecimento de um modo minimamente intuitivo.
2. Resolução de questões dos vestibulares (ENEM, UERJ, CEDERJ...) e provas militares.
O segundo item ao longo do tempo da construção do
canal me pareceu insuficiente. Afinal não é o bastante que EU resolva as
questões e sim que o DOCENTE seja capaz de fazê-lo. Consequentemente construí
paulatinamente um drive que está na própria página do canal e se encontra na
linha em azul da imagem abaixo.
Desse modo, quem estuda por aqui tem acesso a um material didático minimamente adequado para avançar nos estudos. Ele não se compara à estrutura das escolas e dos cursos particulares; entretanto, vira e mexe tenho a alegria de receber o contato de vários alunos e alunas informando terem atingido seus objetivos, o que é, sem sombra de dúvidas, motivo de comemoração.
Quanto a base teórica, me permitam dizer que alguém que sabe uma fórmula de cor e não sabe para o que ela serve está desperdiçando sinapses e neurônios. Aqui cabe dizer que não é possível aprender algo que não faz sentido. Assunto no qual pretendo me deter um pouco.
Um exemplo clássico é o fosso criado pela linguagem formal, como se alunos e alunas já a dominassem. É algo como dizer: “precipita o aeróstato mais leve que o ar na direção de meus artelhos superiores”, em vez de simplesmente cantar “cai, cai, balão”.
Outro exemplo ocorreu quando um amigo solicitou que eu ajudasse sua filha com a aula de matemática para a 5ª série, o que seria hoje o 6º ano. Ela deveria aprender a calcular a raiz quadrada de um número de três dígitos com a precisão de duas casas decimais. Aqui se estabelece um problema que a levava a decorar o processo sem entender o porquê. Ou seja, o desafio seria treiná-la para passar na prova no dia seguinte. O que torna a experiência no mínimo traumática. E tem como resultado o ódio a matemática e a certeza de que quem não aprende merece usar o chapéu de burro. Observe, entretanto, que o produto notável que torna o processo compreensível só vai ser estudado dois anos depois.
Se você faz parte dos 99% das pessoas que não estão fazendo ideia de como isso se faz, fica aqui um pouquinho. Apesar de não ter a pretensão de lhe ensinar como isso funciona talvez eu possa lhe oferecer uma intuição de como isso ocorre.
Vamos começar pelo tal assunto da 7ª série, um produto notável que chamamos de quadrado da soma. Pode até ser que você ainda lembre da fórmula pelo tanto que sofreu para decorá-la em mil e novecentos e guaraná de rolha. Ela diz assim: quadrado do primeiro, mais duas vezes o primeiro vezes o segundo, mais o quadrado do segundo. Tá bom pra você? Não? E assim?
(a+b)2= a2 +2ab + b2, melhorou?
Seja como for observe a figura
Como o quadrado vermelho tem lado igual a A e o verde tem lado igual a B, a área da figura completa reúne dois quadrados, o que explica o a2 e o b2 da fórmula. Além disso, cada um dos dois retângulos amarelos tem área igual a A vezes B, o que explica o 2ab.
Só assim podemos COMEÇAR a ensinar o assunto, o que demanda tempo, treino, exemplos práticos (algo como quanto precisamos de piso para cobrir a sala, ou de grama para o jardim), fazer contas, consolidar os conceitos de área e multiplicação. Isso sem contar atenção, afeto, disciplina organização... ufa, e todas outras coisas que acontecem em uma sala de aula. Isso se a atividade não é interrompida por alguma operação policial, ou disputa de território entre milicias e facções.
Lembrem que essa conversa aconteceu antes do novo ensino médio retirar tempo de matemática para... bem, essa discussão fica para outra hora.
Enfim, imagina aí o tamanho do desafio que me meti nesses últimos 10 anos, não me pergunte se valeu a pena sob o risco de minha óbvia citação de Fernando Pessoa. Ajudei alguns alunos no caminho, além do mais o canal abriu as portas do Sindicato dos Servidores Municiais de Araruama, onde compareço alguns sábados e abraço alguns vestibulandos. E isso é mais que suficiente para andar com fé.
Temos pouco tempo para ensinar matemática básica a uma geração que passou por uma série de pequenas tragédias programadas para que se sinta culpada por um destino cheio de frustrações. Isso inclui a educação remota improvisada durante uma pandemia e uma reforma do ensino médio que busca mercantilizar a educação. Canso de ver gente inteligente e funcional afirmar que é incapaz de aprender. Em especial, quando alguém me diz a célebre frase “sou de humanas”, respondo: “sou também; não há nada mais humano do que encontrar padrões, cozinhar, pagar as contas, dirigir ou jogar bola. Tudo isso é matemática”.
Assim lá vou utilizando o material dourado (já reparou que a tal construção do conhecimento muitas vezes não ultrapassa suas práticas além do primeiro segmento do fundamental?), para lembrar o que é uma fração. Folhas quadriculadas para construir cada uma das fórmulas de cálculo de área recortando o papel ou barbante para mostrar quem é o tal do pi. Fico encantado quando vejo nos olhares deles que os seus neurônios estão brilhando e entro em êxtase quando percebo a menina de uma mesa explicando para uma colega o que acabou de entender.
Persevero porque acredito neles, que não têm os mesmos recursos que seus concorrentes. Então, quando alguém informa no grupo de zap que passou, fico com um injustificado orgulho de estar na arquibancada torcendo. E essa é a minha crença do tamanho de um grão de mostarda.