Começo com uma anedota infeliz, a professora pede para o Joãozinho fazer uma redação com a frase “mãe só tem uma”, então ele escreve que um dia a sua pediu para pegar duas Brahmas na geladeira, bem o resto vocês podem intuir.
Se voltarmos ao tempo das mães pretas em uma sociedade em que as brancas estavam muito ocupadas em fazer... sei lá o que elas faziam. Só as mães pretas conseguiam acalmar o bebê para que fosse feito o tal do daguerreotipo, a fotografia da época, cuja a execução exigia uma eternidade em uma pose qualquer. Assim quando reproduzimos a frase proposta na redação negamos o nosso sangue mestiço de genética, cultura e religiosidade.
Sobre minha mãe já falei três coisas em um texto anterior. Hoje direi a quarta. Essa só vim saber um pouco depois de entrar na igreja Nossa Senhora do Carmo, tirar os sapatos e encontrar as lágrimas que me faltaram no velório de dona Maria Augusta.
Ainda estava bem para baixo quando encontrei a dona Eni, que recebeu meu abraço triste e respondeu: Deus te abençoe, meu filho, antes mesmo de lhe pedir: minha benção, mãe pretinha. Então ela me conta, um segredo compartilhado entre duas mães: Remo, antes de sua mãe partir ela pediu para que eu cuidasse de você. Gustinha era tão generosa que agiu como a mãe pressionada diante do rei Salomão. Ela jamais deixaria de ser minha mesmo que me desse para dona Eni. Nem preciso dizer que chorei novamente.
No epílogo de Brumas de Avalon Morgana entra em um templo para, finalmente, entender que a Deusa de seus ancestrais apenas mudara de forma e vestido um manto azul.
Infeliz da espiritualidade que nega o feminino, pois nos dias em que pensei estar partindo o trecho da oração que me veio fala sobre a grande advogada, ou simplesmente mãe.
Diante de tempos que podem se apresentar distópicos é contemplando ela que nos ajoelhamos: Mãe Pretinha orai por nós!