Há muitos dias de minha vida que eu não queria ser tão cético. Assim ajo como se não o fosse. Posso até usar a frase de gente humilde do Chico, pois eu que não creio peço a Deus por minha gente. Deixa-me me explicar um pouco melhor: quando digo ser agnóstico não se trata simplesmente de tentar ser morno e não assumir ateísmo. Sou radical neste ponto, pois minha posição vai na raiz da palavra: o A de negação precedendo a gnose, ou seja, o conhecimento.
Enfim, se há um princípio inteligente criador dessa loucura toda assumo não ter a mínima ideia de como Ele fez isso tudo, nem como a parada toda funciona. Perceba aí, que é uma posição muito incômoda, pois não tenho o mesmo consolo que o Dorival Caymmi ao se referir a mãe que lhe disse: “meu filho ande direito, que é para Deus lhe ajudar”. Digo isso por observar muitas vezes que justo o contrário ocorre.
Tendo visto tantas crises ao longo da vida é fácil perceber o quanto os bombeiros portugueses estão certos em seu lema “nada do que é humano nos é estranho”. Mesmo sabendo a intencionalidade da frase no sentido de que tudo que é humano os move adiante; assumo outra interpretação bem mais seca. Já vi atos magnânimos e heroicos, mas também vi “gente” vendendo garrafa de água a preços estratosféricos em cada uma das emergências em que participei.
Então pergunto como dar a outra face seja essa de meu rosto, ou de minha mão diante de um mundo que vive dando na nossa cara. Nessa semana mesmo colecionei mais um “ex-colega”, uma pessoa capaz de se aproveitar de um amigo que está atravessando um verdadeiro deserto. Obviamente essa figura nefasta vai ter uma justificativa qualquer para seus atos. Nisso a vida imita arte da Família Soprano espelhada na tela de minha sala.
Cansado de ver o sangue se espalhar na TV mudamos de canal para um pouquinho de Jornada nas estrelas, em um episódio que se desenvolveu com enorme tensão. Só que aqui não me desespero, diferente de admirável mundo novo, a jornada sempre acaba bem, com uma mensagem de que o futuro reserva o melhor de nós. O que é meu valor mais parecido com o que chamam de religião.
Sei que meu caminho é pouco trilhado, admito que é necessária grande força moral para andar pelo mundo só respondendo a minha própria consciência. O que tenho de fé são alguns amigos, isso canalha nenhum tem de verdade, a esses só restam puxa sacos e capangas.