Há um pouco mais de três anos você me convenceu a aprender a tocar. Garota, essa é mais uma das coisas pelas quais devo lhe agradecer. Não há dia em que o violão não ensine algo novo. Ontem mesmo lembrei de uma linda música em espanhol, que de um modo incrível, já saiu quase que prontinha de meus dedos. Dedilhado de quatro tempos, acordes simples e até mesmo a língua estrangeira resolveram ajudar.
Isso nem sempre acontece. Música necessita tempo para
ser precisa. Algumas até mesmo meses ou anos. Então, chega a ser um paradoxo
que justo uma canção que fale sobre o implacável movimento dos ponteiros do relógio
tenha resolvido chegar na nossa sala de jantar quase sem demandar minuto algum.
Você estava um tanto distraída com todos aqueles bricabraques
que constroem o ritual de seu jantar. Mesmo assim pergunta “qual é essa aí?”,
só respondo que é uma linda e muito triste. Ao invés de explicar penso que é
melhor escrever mais tarde, justo o que faço agora, pois careço de horas
suficientes para organizar minimamente o que tenho para lhe falar.
O nome dela é Relógio, e o artista conta a agonia de
ver seu amor em um leito de hospital. A pergunta repetida várias vezes é porque
simplesmente os ponteiros não param. Essa o Cazuza respondeu, mas isso só iria
acontecer em um futuro imperfeito. O tempo não quer saber de ninguém, ele só tem uma amiga, uma tal de
entropia que sempre diz que deixada por si só a realidade sempre se mostra
ainda mais e mais desorganizada.
Diferente dessa grandeza física você organiza minha
vida e a torna melhor em cada segundo que escolhe estar ao meu lado. Mesmo nos
dias em que eu senti o mesmo que Roberto Cantoral que compôs essa linda e
triste melodia. Só discordo dele em relação a quais momentos eu pediria para o
relógio parar. Certamente seria dentro de um abraço seu. O problema é a cada
vez que lá me encontro vamos nos balançar como pêndulos que movimentam os
braços do relógio, e voltando ao Cazuza... o tempo não para.