Enquanto o carro estava sendo revisado decidi almoçar ali pertinho, sei bem onde estava e com um pequeno esforço poderia até precisar a hora e o minuto em que me sentei naquela mesa. Em frente vejo uma tv antiga, dessas em que a imagem mal mantém as cores originais, então fui arremessado de volta ao passado vendo um trecho de “De volta para o futuro”.
Sei bem de um monte de problemas técnicos e científicos de viajar no tempo de um jeito diferente do que já o fazemos em cada salto para o milésimo de segundo seguinte. Penso em tempo como uma expressão da entropia, o que mal explicado diz que não dá pra consertar espelho quebrado. Há ainda a questão da continuidade do espaço com o tempo, ou seja, quem garante que o DeLorean vai votar certinho no mesmo lugar? Ou ainda, se o mesmo local em outra referência está justo no centro de uma estrela?
Entretanto, a viagem ocorria dentro da minha cabeça. Essa chegou a um momento bem específico. Era 16 de junho de 1984, 16:30h, em uma festa de São João. Tendo como referencial o próprio planeta com o qual navegamos através do universo sou capaz ainda de dizer o local com precisão de uns 10 metros: Av. Ministro Edgar Romero 492, Colégio Normal Carmela Dutra, encostado na parede do pátio. Foi lá que ela me deu o primeiro beijo.
O curioso foi que assim, meio sem graça, apesar de continuar abraçada comigo começou a observar as formigas que estavam passeando pela parede. Assumo que fiquei bem confuso, será que realmente começamos a namorar? Essa certeza precisou de algumas semanas, andar de mãos dadas comendo minipastéis de queijo. Mesmo assim se há algum momento específico para voltar, sei bem para quando.
De volta para o futuro digo que criamos um casal, construímos duas casas e trabalhamos de montão, passamos por festas e tempestades. Só agora entendo as formigas. Bem diferente de mim, ela vê beleza em cada detalhe, enfim a graça concedida pelas Graças. É a benção que é quase uma dor. Precisei aprender a tocar “Todo o sentimento” para finalmente entender, mesmo que só um pouquinho.
Hoje posso até dizer que não acredito que signo dela combina com o meu. Dizem que quem é de libra tem beleza, elegância e visão para os detalhes como nenhum outro signo. Então ela roubou tudo de mim. Não reclamo, pois junto roubou inteiro todos átrios e ventrículos de meu coração.
