Duas canções dão início ao que quero dizer. Uma declara que
tudo que move é sagrado e o fruto do trabalho é mais que sagrado. Trabalho que
é força e caminho, ou algo parecido com isso, segundo a ciência. Na sociedade
essa grandeza escalar está cada vez mais difícil e precária. Outra canção aponta
para aquela igreja, moço... Também trabalhei lá.
Todavia, não é sobre trabalho que eu quero falar hoje, é
algo menos importante. Entretanto é a coisa mais importante dentre todas as
outras que não tem importância alguma, a forma de lazer que me define: o tal do
futebol.
Ontem, paguei uma promessa que já estava bem atrasada de ir a um estádio.. Foi
para um amigo tão generoso, mas tão generoso a ponto de permitir que eu tratasse
seu filho como um neto torto. Assim, lá fomos para a cidade ali ao lado para
ver nosso time jogar.
Eu tinha certeza de que a criança de 9 anos estava prestes a
viver uma experiência para ser lembrada a vida toda, quase como o primeiro
beijo. Antes ligo pro meu moleque esse já com 33, pergunto o que ele lembrava de nossas idas ao Maracanã e São Januário. Isso causou uma daquelas ligações de vídeo intermináveis,
dessas que nos deixam de coração partido por ter um amor infinito por alguém tanto
mar distante.
Nike nos acompanhou, não simplesmente a nova marca da
camisa, mas a própria deusa grega, conhecida pelos romanos como Vitória. É lógico
que torci, principalmente para poder dizer para o garoto que ele é pé quente. Deixa
para outro dia para ele entender que se ganha, perde e empata. Não fosse assim jamais
perderíamos a copa de 82.
Sei bem que para levar esporte a sério deveríamos ter um
projeto de país que usasse esse recurso como ação integrada de prevenção de saúde
para toda a população. Mesmo assim é importante. É importante para o flanelinha,
para o dono do bar, para os trabalhadores temporários, para os meninos da base.
E assim foi para mim. O velho esporte bretão me oferece uma incrível
perspectiva de ter uma família ampliada.
Voltamos cansados e felizes. Então pergunto para o menino se
gostou do jogo, não o de 9, mas o de 40. Ele agradece, era a primeira vez que ele
havia posto os pés em um estádio que não fosse para executar a terraplanagem.
E assim é meu time. Um espaço para acolher o coração de
negros, operários e principalmente meninos. Vocês sabem bem que enquanto houver
um coração infantil... bem, haverá um novo dia.