terça-feira, 1 de setembro de 2026

ANDAR COM FÉ

 

Há muitos dias de minha vida que eu não queria ser tão cético. Assim ajo como se não o fosse. Posso até usar a frase de gente humilde do Chico, pois eu que não creio peço a Deus por minha gente. Deixa-me me explicar um pouco melhor: quando digo ser agnóstico não se trata simplesmente de tentar ser morno e não assumir ateísmo. Sou radical neste ponto, pois minha posição vai na raiz da palavra: o A de negação precedendo a gnose, ou seja, o conhecimento.

Enfim, se há um princípio inteligente criador dessa loucura toda assumo não ter a mínima ideia de como Ele fez isso tudo, nem como a parada toda funciona. Perceba aí, que é uma posição muito incômoda, pois não tenho o mesmo consolo que o Dorival Caymmi ao se referir a mãe que lhe disse: “meu filho ande direito, que é para Deus lhe ajudar”. Digo isso por observar muitas vezes que justo o contrário ocorre.

Tendo visto tantas crises ao longo da vida é fácil perceber o quanto os bombeiros portugueses estão certos em seu lema “nada do que é humano nos é estranho”. Mesmo sabendo a intencionalidade da frase no sentido de que tudo que é humano os move adiante; assumo outra interpretação bem mais seca. Já vi atos magnânimos e heroicos, mas também vi “gente” vendendo garrafa de água a preços estratosféricos em cada uma das emergências em que participei.

Então pergunto como dar a outra face seja essa de meu rosto, ou de minha mão diante de um mundo que vive dando na nossa cara. Nessa semana mesmo colecionei mais um “ex-colega”, uma pessoa capaz de se aproveitar de um amigo que está atravessando um verdadeiro deserto. Obviamente essa figura nefasta vai ter uma justificativa qualquer para seus atos. Nisso a vida imita arte da Família Soprano espelhada na tela de minha sala.

Cansado de ver o sangue se espalhar na TV mudamos de canal para um pouquinho de Jornada nas estrelas, em um episódio que se desenvolveu com enorme tensão. Só que aqui não me desespero, diferente de admirável mundo novo, a jornada sempre acaba bem, com uma mensagem de que o futuro reserva o melhor de nós. O que é meu valor mais parecido com o que chamam de religião.

Sei que meu caminho é pouco trilhado, admito que é necessária grande força moral para andar pelo mundo só respondendo a minha própria consciência. O que tenho de fé são alguns amigos, isso canalha nenhum tem de verdade, a esses só restam puxa sacos e capangas.

sábado, 29 de agosto de 2026

OUÇA O ÚLTIMO DESEJO DA BOEMIA

A música sempre fez parte de minha vida muito antes de sequer pensar em pegar um violão. Amo muitas canções. Boa parte delas passa pela memória afetiva de minha mãe cantando enquanto fazia o que quer que fosse.

Dessas tantas, pelo menos três pérolas do passado vão povoar esse texto.

Começo o dia e aprendo (ou pelo menos acho que sim) uma coisa linda. Ficou tão bonitinha que resolvo mandar para alguns amigos. Do outro lado do mundo vem a mensagem de um deles (que por acaso toca violão de verdade – e não tem idade para conhecer meu repertório): “que isso meu caro, é autoral?”. Humilde respondo: “quisera, é da Maysa”. Já pensou se eu fosse capaz de realmente escrever algo como... Ouça, vá viver a sua vida com outro bem, pois já cansei de pra você não ser ninguém.

Chego a outras duas músicas que juntas e misturadas me empurram para a visão de que tudo que é dito é profundamente contaminado por um ponto de vista. Vem aqui comigo nessa jornada que atravessa os versos do Noel:

Se alguma pessoa amiga
Pedir que você lhe diga
Se você me quer ou não
Diga que você me adora
Que você lamenta e chora
A nossa separação

E às pessoas que eu detesto
Diga sempre que eu não presto
Que meu lar é o botequim
Que eu arruinei sua vida
Que eu não mereço a comida
Que você guardou pra mim

Onde ele demanda duas versões conflitantes para o fim do relacionamento que devem ser proferidas em conformidade com o caráter do interlocutor.

Por outro lado, a voz do Nelson Gonçalves traz apenas uma versão para o mesmo tema, contada para os amigos de copo:

Acontece que a mulher que floriu meu caminho
De ternura, meiguice e carinho
Sendo a vida do meu coração
Compreendeu e abraçou-me dizendo a sorrir
Meu amor, você pode partir
Não esqueça o seu violão

Então, espero que você me permita contar a versão da suposta amada para sua melhor amiga, texto que não recomendo caso tenha ouvidos muito sensíveis a um palavreado nada ortodoxo: C acredita que o filho de uma vaca teve a pachorra de me dizer que preferia voltar para esbornia do que continuar casado comigo? Aaaahhhmiga! Empurrei o safado escada abaixo e taquei aquele maldito violão na cabeça do cretino. Daí ele já foi rastejando pro bar do Beto e eu fui atrás gritando pra ele casar de uma vez com a turma do bilhar.

Por essas e outras é que essas preciosidades, que passam teimosas, entre os meus dedos, têm me ensinado absurdamente um monte de coisas além de cifras e campos harmônicos. Nunca parei para pensar em qualquer texto com tanto cuidado, nem mesmo tendo lido o Fernão Capelo Gaivota um porrilhão de vezes.

Dedilhar torna até mesmo repetições incontáveis agradáveis, diferente de uma piada cujo efeito dificilmente ultrapassa a reprise, mesmo que se aumente um ponto. Quem quer tocar acaba revisando a letra muito além do óbvio, o que faz entender que Every breath you take não é sobre amor, mas sobre obsessão. Detalhes do Roberto torna o eu lírico em um fantasma que vai assombrar a ex nos momentos mais improváveis, o que é simplesmente desagradável, estragando uma linda música.

Seja como for não acredite em mim. Vá lá você mesmo e ouça o Ouça da Maysa, confira o Último desejo do Noel ou se perca na Boemia. Melhor ainda, escolha sua própria trilha sonora e viaje para onde quiser.

sábado, 22 de agosto de 2026

UNI, DUNI, TÊ

Começo com uma pergunta de criança: “para que devemos colocar um pula, pula no polo?”, perguntas de crianças são verdadeiros tratados filosóficos, o problema é que não paramos muito para pensar, em especial se tivermos uma resposta pronta, do tipo: “para o urso polar”. Outro entrave é que pensamos estar terrivelmente bipolares, onde particularmente percebo não haver simetria.

O pensamento me atravessa a alma, ou pelo menos o cérebro, enquanto ainda não estou lobotomizado. Essa incrível máquina biológica pode ser vista como duas: a direita que controla a esquerda e a esquerda que controla a direita, ou ainda três se considerarmos um tal de corpo caloso que junta as duas. Se a enxergarmos através do tempo elas são várias que foram se sobrepondo em um balé performado pelo crescimento embrionário, que por sua vez conta a história da evolução.

Outra pergunta infantil acaba de me ocorrer: “porque a mamãe jacaré ficou triste com o jacarezinho?”, antes de responder que ele “réptil de ano”, lembre que toda a violência que nos moldou tem um espaço bem-marcado em uma estrutura parecida com uma amêndoa que é responsável por nossas respostas de fuga ou luta. Ou seja, os malucos que dizem por aí existir reptilianos não estão de todo errados, pois isso tudo faz parte de nós apesar de nos definirmos como primatas. Ou seja, a violência e a covardia se retroalimentam se não nos firmarmos como humanos.

Então a grande questão não é perguntar o que veio antes, a resposta certa é o ovo, pois as aves só foram construídas evolutivamente falando muito depois desse tipo de reprodução. E sim perguntar o porquê de estarmos repetindo comportamentos improdutivos, mesmo sabendo que os resultados não são bons.

Estamos cada vez mais sendo forjados para ostentar o ego e buscar respostas individuais, fugindo da percepção que a própria palavra nos põe na condição de sermos indivisíveis da dualidade. Não existe resposta razoável para curar a loucura de um. Se Freire enunciou que ninguém educa ninguém sozinho e que as pessoas se educam em comunhão, ouso dizer que o mesmo ocorre com a loucura.

Fico certo disso quando chego em casa e sou recebido por uma labralata, labradoida saltitante. Ela me oferece a resposta à pergunta quase infantil “você acredita mesmo que o homem veio do macaco?”. Ao latir ela meio que me responde que todos nós temos um ancestral em comum. E assim como ensinou Gonzaguinha eu fico com a pureza da resposta das crianças: “uni, duni, tê, meu preferido é você.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

INIMIGO (M)EU

Prometeram tudo, após tanta estrada, nada.

Disseram que bastava o projeto para um teto.

Quem sabe até mérito, aplausos e medalhas.

Depois de tantas lutas e batalhas.

 

Esqueceram de dizer que outros partiram antes

Inventaram o inferno de Dante.

Então lhe armaram contra o inimigo. Coisa maluca,

Esqueceram de dizer do que mora na sua cuca.

 

Apontavam para um marginal, transviado ou menina.

Enquanto C cai no truque eles roubam a mina.

 

Prometeram uma vida depois

Ao invés de feijão e arroz.

 

Solitário quando devia ser solidário

Fizeram de otário.

 

Jogaram sua chance na roleta

Imagina quem não percebeu a treta?

Na estrada em um jogo de carta marcadas

Anda por aí inconsciente

Plantaram um inimigo em sua mente.

domingo, 16 de agosto de 2026

DOIS CACHORRINHOS


Em homenagem a Cauã Cas o meu ilustrador

Tudo começa com uma piada antiga, contada inúmeras vezes pelo Moacyr Franco: “eu tinha dois cachorrinhos: Grapette e Repete, Grapette morreu...”

Sei que estou sendo repetitititititivo, mas meu primeiro contato com a leitura foram os quadrinhos. Asterix e a turma da Mônica chegaram as minhas mãos muito antes do que o Machado de Assis. Penso apenas que ele não tinha acesso a ilustradores à altura de seu trabalho, ou mesmo recursos suficientes para pôr imagens nos jornais em que escrevia na época. Como canso de repetir. Lá vou eu de novo: estou de volta aos gibis através do Sandman que me trouxe esse presente aqui copiado e colado.

Um pouquinho de contexto: há três figuras mitológicas que fiam, cortam e juntam as vidas de deuses e humanos. Elas são retratadas aqui.  Como o tudo é lindo, vocês podem desfrutar do roteiro e dos desenhos simultaneamente. O problema dessa obra é que as ilustrações são tão peculiares que ficou difícil para mim mergulhar no texto.

Sabe quando você tá de frente para a tela e simplesmente esquece que tudo se trata de uma ficção, então começa a torcer pelo herói ou espera que a tensão sexual entre as personagens deságue em um adiado beijo? É isso que estava me faltando.  Repetindo: as ilustrações são tão espetaculares que eu simplesmente não conseguia ir adiante na trama.

Chega a hora de eu repetir minha própria poesia: “teço um texto que acontece, enquanto o faço em suas linhas me embaraço”. Volto a ela pois a inspiração para o que digito agora, e então, foram justo as Moiras.

Vida e escrita são tecidas em tapetes intermináveis, ambos só fazem sentido quando encontramos coesão e coerência entre pontos e nós. Um dia somos fiados, em outros cortados e finalmente inseridos em uma trama cósmica. Tudo que as três podem nos oferecer é viver enquanto estamos vivos.

A sincronicidade disso tudo ocorre justo quando minha linda namorada começa a aprender tricô. Insatisfeita com o resultado desfaz tudo de noitinha. Aproveito para beijá-la com ternura e digo: “pode parar de refazer, seu Ulisses chegou”.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

SOBRE TRENS, PEQUISA E CINTOS

 

Chego no prédio e aguardo o elevador, logo vejo uma senhora que diz: "ainda bem meu filho, tenho medo de entrar nesse trem sozinha", respondo que ele é mais seguro que a maioria dos outros trens. Por sua vez ela replica: "em BH um já parou entre dois andares".

No mesmo instante reflito: sabe aquela conversa de que números não mentem, mas é possível mentir usando números? O nome disso é estatística. O que, todavia, nos oferece uma chance de compreender tendências.

O oposto é tomar toda a realidade a partir de uma experiência pessoal, o que chamamos de evidência anedótica. Apesar desse nome nem sempre é um fato engraçado, como o que ocorreu com um dos meus melhores amigos. Ele estava dirigindo sem cinto de segurança e, atento percebeu que o carro à sua frente acabara de colidir em um poste que começou a cair. Ao invés de frear ele teve uma incrível presença de espírito e se jogou para baixo do banco. Assim ele viveu para contar a história de como seu carro teve o topo arrancado. Porém esse caso peculiar não deve ser usado para condenar o uso de cintos de segurança.

Penso nisso tudo cada vez que vou explicar o que é probabilidade, média, mediana, moda ou desvio padrão. Digo aos alunos que não dá para quem quer que seja tentar fugir da realidade com o discurso de ser de humanas.

Por exemplo, se você quer fazer ciência política há que entender que a margem de erro em uma pesquisa eleitoral existe devido a ser inviável perguntar a opinião de toda população. isso vai redundar no conceito de amostra. A mesma consideração deve ser feita por um médico que não pode retirar todo o sangue de um paciente para saber qual mal o aflige. Se é farmacêutico tem que entender que todos os efeitos colaterais devem ser listados na bula, entretanto a tal da prevalência vai te dar uma noção da chance deles acontecerem.

Por outro lado, observo que em geral professores vivem defendendo exageradamente a importância do que ensinam. Então devo reconhecer que sendo de exatas meus cuidados com a língua portuguesa não ultrapassam muito o que aprendi no curso de lógica, do ciclo de Krebs pouca coisa ficou em meus neurônios além de fato de ser um processo de troca ou acumulação de energia e ainda que não sei quais são os afluentes da margem direita de qualquer rio.

Em contraponto, passei a entender um pouco de história depois de ler um livro que dizia que as relações de poder podem ser explicadas pela economia. Assim lá vamos nós tentando diminuir a distância entre as pessoas que passam nas ruas e as que frequentam a academia.

Entre discursos antivacina, terraplanistas e charlatães com drogas milagrosas finalmente compreendo que educar não pode entrar em qualquer planilha como somente um custo. Afinal não passamos de primatas desconfiados, cuja vocação para ignorância pode custar a existência de nossa própria espécie.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

PREPARO UMA CANÇÃO


Início de tarde, uma tarde fria, sabe aquela canção que a Elis cantava dizendo o quanto a manhã é maravilhosa antes de ler o primeiro jornal? Essa tarde é justamente o contrário. Jornais lidos, e nem papel eles têm para enxugar as lágrimas.

Talvez eu poderia ter o enorme coração de Carlos, naquela poesia que estampava a nota de cinquenta, só que a nota está tão amarela que nem sequer lembro qual era a unidade monetária. Mesmo assim ainda ecoa: “caminho por uma rua que passa por muitos países”.

Nela encontro meus amigos. Eles passaram alguns dias de amargura e esperavam mais da vida. Já disse isso aqui mesmo, são pessoas cujo valor não é tão óbvio. Eles não têm ouro no bolso nem vivem com Lucy em um céu de diamantes.

Os vejo caminhar para suas próprias Ítacas, preferindo a jornada à desistência. Entre crítica e autocrítica poderiam saber o quanto são relevantes. Eles deveriam saber o seu valor a partir de meu olhar afetuoso.

A cada dia devem lidar com as expectativas de um mundo que lhes indicam topos de montanhas geladas, para no fim das contas entenderem que o único destino possível aponta para o próprio coração. Enfim, espero que cada um deles encontrem afeto. Afeto é revolucionário.