segunda-feira, 4 de maio de 2026

CRÔNICAS E AGUDAS

 

Bom dia, aqui é Remo Noronha com mais uma aula... Assim começo a conversa que pingou todo santo dia no canal onde leciono física e matemática. Aqui ficam dois traços de minha pessoa: meu nome e o que tenho feito ultimamente.

Assim são as máscaras que usamos ao longo da vida. Elas nos oferecem a ilusão de dizer quem somos. Já fui aluno e professor, cadete e coronel, pai e filho, maluco e criativo, amante e amado. Juntar uma parte na outra parte até pode não ser arte, porém nos permite ser íntegros diante de nossas contradições.

Mesmo assim, o fato de estar aqui apresentando o terceiro livro que já produzi não me faz escritor, do mesmo modo que ter um lençol amarrado em meu pescoço não me transformou em super-homem. Então, ao saber disso tenho a clareza de que é melhor cair das nuvens do que do terceiro andar, o que em meu caso ultrapassa a frase do Machado, pois além da queda metafórica proposta pelo escritor de verdade já me joguei da torre da Escola de Formação de Oficiais, confiando que outros dezesseis cadetes iam me amparar em algo parecido com uma cama de lona. Cena similar pode ser vista em filmes mudos retratando bombeiros. Assim a persona de velho também me cabe.

O real motivo de estar aqui é que escrever para mim é terapia. Publicar o que escrevo vai ser alvo de outras tantas, onde poderei dar sentido ao ato além da mera vaidade, em um ciclo interminável. Lógica cada vez mais débil pelo reconhecimento de que alguma IA pode fazer bem melhor (ou pelo menos assim me disseram).

Muitas vezes sou convidado para rituais, nessas ocasiões sempre dizem que o Criador tem um propósito para mim. Como não sei qual é o Dele posso declarar sem a mínima vergonha que também não sei o meu. Assim vou por aí tentando aprender um pouquinho mais. Afinal, de todas as máscaras que já usei acho que ainda me permito ser dono de um coração de estudante.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

PRA VOCÊ QUE AINDA VAI NASCER

Há uma palavra que é a resposta que você vai dar quando lhe perguntarem quem você é. Agora que você sabe ler e interpretar as palavras tenho certeza de que você gosta muito dessa palavra. Ela é uma benção. Tanto é assim que antigamente as pessoas perguntavam “qual é a sua graça” ao invés de “qual é o seu nome”.

No que ora chamo de presente ainda estamos cogitando um bocado. Seus avós e tias estão ansiosos para saber qual vai ser essa palavra. Isso não é uma coisa qualquer. Há um livro sagrado que diz assim: “No começo era o verbo”. Posso até estar errado, mas penso o tal verbo está sendo usado com o sentido de palavra. Ou seja, pode ser ação como sugerido, mas também é substantivo, adjetivo ou o que mais você quiser.

Ao mesmo tempo o seu nome não é você. É o que chamamos de persona. Quando usarem essa palavra será uma deixa para atuar nos palcos da vida, onde seu papel vai mudando ao longo do tempo.

Saiba também que você não vai atuar só. Ao ser protagonista de sua vida haverá um monte de atores convidados. Por exemplo, há uma cachorrinha que está curtindo cada instante em que você cresce em uma linda barriga. Tem um cara grandalhão, esperto e um tantinho desengonçado que vai ser capaz de fazer seja o que for por você. Assim que você nascer sua vó também vai estar aí para ajudar os marinheiros de primeira viagem. As cenas de profunda beleza e emoção vão ser parte de sua estrada, se tiver que a atravessar dê a mão, pois haverá alguém ao seu lado.

Voltando a tal palavra. Há uma lista composta de heróis, navegantes, atletas, estadistas, santos, amigos e até mesmo referências a lugares. Seja qual for espero que você goste muito de seu nome. Várias pessoas dirão que foram a inspiração na construção dessa lista, mas não se engane. Essa dádiva foi lhe dada por quem lhe carregou no ventre. Então espero que de todas as bençãos que estão lhe desejando saiba qual é a minha: que você tenha a mesma que eu tive e sua mãe seja sua melhor amiga. Aprenda com ela como lidar com as meninas que vão contracenar contigo. Não há melhor presente do que ser educado por uma mulher sabia.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

RELÓGIO

Há um pouco mais de três anos você me convenceu a aprender a tocar. Garota, essa é mais uma das coisas pelas quais devo lhe agradecer. Não há dia em que o violão não ensine algo novo. Ontem mesmo lembrei de uma linda música em espanhol, que de um modo incrível, já saiu quase que prontinha de meus dedos. Dedilhado de quatro tempos, acordes simples e até mesmo a língua estrangeira resolveram ajudar.

Isso nem sempre acontece. Música necessita tempo para ser precisa. Algumas até mesmo meses ou anos. Então, chega a ser um paradoxo que justo uma canção que fale sobre o implacável movimento dos ponteiros do relógio tenha resolvido chegar na nossa sala de jantar quase sem demandar minuto algum.

Você estava um tanto distraída com todos aqueles bricabraques que constroem o ritual de seu jantar. Mesmo assim pergunta “qual é essa aí?”, só respondo que é uma linda e muito triste. Ao invés de explicar penso que é melhor escrever mais tarde, justo o que faço agora, pois careço de horas suficientes para organizar minimamente o que tenho para lhe falar.

O nome dela é Relógio, e o artista conta a agonia de ver seu amor em um leito de hospital. A pergunta repetida várias vezes é porque simplesmente os ponteiros não param. Essa o Cazuza respondeu, mas isso só iria acontecer em um futuro imperfeito. O tempo não quer saber de ninguém, ele só tem uma amiga, uma tal de entropia, a que vive dizendo que deixada por si só a realidade sempre se mostra ainda mais e mais desorganizada.

Diferente dessa grandeza física você organiza minha vida e a torna melhor em cada segundo que escolhe estar ao meu lado. Até nos dias em que eu senti o mesmo que Roberto Cantoral ao compor essa maravilhosa melodia. Só discordo dele em relação a quais momentos eu pediria para o relógio parar. Certamente seria dentro de um abraço seu. O problema é a cada vez que lá me encontro vamos nos balançar como pêndulos que movimentam os braços do relógio, e voltando ao Cazuza... o tempo não para.

terça-feira, 21 de abril de 2026

UTOPIA

Dentre todas minhas qualidades inúteis há uma que se destaca. Se eu ouvisse uma música umas três vezes quando era moleque ela grudava em minha memória. Minha namorada ainda se espanta quando tiro uma canção vinda de mil novecentos e guaraná de rolha do baú e a canto bem certinha. Como se na minha caixola ela estivesse gravada em alguma fita cassete.

Canso de dizer que só conseguimos aprender algo se esse algo faz sentido. Então isso de saber canções de cor pode até parecer estranho. Talvez a resposta seja o fato de que a música faz sentido por si só.

Para mim a coisa só fica complicada se a letra fica diferente para a mesma música. Um bom exemplo disso é Construção do Chico. Para essa realmente preciso da letra para não embolar o meio de campo. Outra bem complicada era, não menos que, nosso hino (desculpa ai, qualquer um pode cometer alguma cacofonia). Entretanto nesse caso apreendi um macete: primeiro a gente sonha, depois a gente ama.

O fato é que estamos em momentos tão extremados que nos acostumamos a já chegar na conversa buscando um meio termo. Aqui a música velha que quica na cabeça deixando um galo diz sem a menor vergonha “bicho sai do lixo, baratas mostrem suas patas...” Se tornou tão comum ter que lidar com opiniões escrotas ninguém se espanta se a proposta que vem de lá aponta que a escravidão não foi tão ruim assim, que mulher tem que ganhar menos mesmo e ser submissa, prefiro ter um filho morto do que gay ou aceita que mundo é assim mesmo.

Desculpe, não ser nada pragmático. Meu ponto de partida ainda é a utopia. Meu coração ainda sabe de cor, então ainda posso andar pelas ruas cantando um novo tempo apesar dos castigos. Do jeito que a coisa vai corremos o risco de que nem isso poderei fazer em breve. Se assim o for quando eu não puder pisar mais na avenida... o meu anel de bamba entrego a quem mereça usar.

 

 

terça-feira, 14 de abril de 2026

FEITO DE LUZ, ÁGUA E AR

Sabe aquele tipo de exercício no qual você tem que preencher os pontinhos, pontinhos? Nesse a resposta era: fotossíntese, energia solar, vegetais verdes, água, gás carbônico e glicose. Até aí tudo bem. Mas sabe quando me sinto atropelado por um bonde? Quando vejo isso em um livro do primeiro segmento do ensino fundamental.

Vamos aos fatos. A tal da fotossíntese só pôde ser minimamente compreendida com o advento da física moderna. Sabe essa palavrinha que os gurus do youtube cansam de usar, pois é. Para entender isso é necessário saber um pouquinho de física quântica e efeito fotoelétrico.

Ou seja, se você não é um iniciado em ciência básica como a maioria dos seres humanos que povoam esse planeta o texto certinho, completinho, bonitinho e corretamente preenchido vai ser na melhor das hipóteses apenas memorizado. É isso que exigimos de qualquer criança de 10 anos na maioria esmagadora das escolas.

Sabe aquele cara odiado por uma imensa galera, um tal de Paulo Freire? Ele dizia que não se pode alfabetizar um adulto nordestino no espaço tempo que ele viveu usando frases do tipo “vovô viu a uva” e sim começar com palavras como tijolo.

Em síntese não se pode aprender realmente algo que não faz sentido para você. Já estive aqui defendendo a ideia de que não deveríamos fazer provas escritas de inglês nessa fase, evitando ter que explicar que o H de cavalo tem som de erre e do de hora é mudo. Enfim, na ânsia de criarmos escolas com ensino “forte” estamos condenando uma geração inteira ao tédio e a noção que estudar não faz sentido algum.

Quem teve a chance de plantar um feijão em um copo com algodão na infância, experiencia que tristemente me faltou, provavelmente tem uma intuição muito melhor de como funcionam os tais vegetais fotossintetizantes.

Aprender é um ato profundamente humano. Algo que nos afasta do intuito animal de poupar energia de uma parte do nosso corpo que gasta muito mais que todo o resto em termos proporcionais, ou seja, o cérebro. Talvez a resposta seja o afeto, quem sabe assim, de alguma forma temos que aprender a gostar de aprender. O que não deveria ser difícil para um menino cercado por plantas em sua própria casa.

Se mesmo adulto você ainda se sente perdido nos processos de obtenção de energia procedido pelos tais vegetais verdes talvez a poesia possa lhe ajudar um bocado. Para isso ouça o Caetano cantando a música tema do filme índia a filha do Sol em que ele simplesmente diz: “Luz do Sol, que a folha traga e traduz em verde novo”.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

A BANDA

 Em outras condições de pressão e temperatura sua mãe estaria junto, mas ela está tão ao norte que seria bem difícil combinar. Sua madrinha também não estava disponível, ela teve a chance de ver Carmina Burana. Eu mesmo já cheguei de costas, o que chamamos de visita de médico. Nada mais adequado. Até porque estamos um tantinho longe das tais CNTP. Nada no mundo está.

Fui pra sua casa pensado na cacofonia de vozes uma ópera pode ter, aí a metáfora associada ao dizer Opera Mundi é tão óbvia que chega a ser ridícula. Como sempre levei o violão velho de guerra. Logo lhe encontro munido de um cavaquinho.

Ultimamente temos aprendido essa tal de música de modos bem diferentes. Como ela está na sua vida desde cedo chegou a hora de abandonar as partituras e colocar os pés no chão de fábrica. Enquanto isso sigo o caminho oposto recheando meus cadernos com tablaturas. No fim das contas buscamos o mesmo. Uma certa intuição musical que as vezes corre pelos dedos e outras escorre pelas mãos.

Tocamos juntos. Tim Maia, Djavan, Marisa Monte e Noel Rosa. Quem sabe Cartola e Chico aparecem no próximo encontro? Porém o que ficou marcado foi o longo tempo necessário para ajustar os instrumentos. Quem pensa que o cavaquinho é apenas um violão pequeno não poderia estar mais errado. Esse menino nasceu com personalidade própria, e ver ele encostado em sua barriga abraçado em suas mãos comparativamente gigantes me lembrou dessa maravilhosa noção de que cada instrumento tem algo diferente a dizer sobre a mesma música.

Você comenta que leu meu livro todo e sorri quando aponto que roubei descaradamente sua frase que compara cigarros a pregos do caixão, simultaneamente me desculpo de ter errado seu nome ao lhe mencionar em uma de minhas crônicas. Isso é mais um fato que nos aproxima: ter nomes diferentes leva muitas pessoas a, no mínimo, gaguejar na tentativa de pronúncia. Concordamos que só nossas lindas esposas estão proibidas de errar nossos nomes.

Volto para casa com a missão de aprender novas músicas para tocarmos juntos, quem sabe teremos a chance de chamar seu irmão? Não sei muita coisa, porém fica claro que tudo só funciona quando estamos dispostos a nos afinar.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

HERÓI TRÁGICO

 

Ele quebrou na junta

Não uma junta qualquer

Foi tão espetacular que ela passou a ter o nome dele

Qual é seu destino?

O dele era uma encruzilhada

Paz ao lado da família

Glória eterna nos campos de batalha.


Sua mãe fez o que pôde

Uns dizem que o temperou no fogo

Todos os outros que o mergulhou no rio

Porém as próprias mãos dela impediram que as águas sagradas tocassem a junta

A que recebeu uma flexa de Apolo e como já disse seu nome.


A mãe o levou ao Centauro

O escondeu entre as meninas

Pediu que seu primo o acompanhasse

Fica quieto menino, aqui perto do mar lhe protejo.


Não teve os abraços filha do rei que o acolheu entre as suas

A guerreira que o combateu

A filha do rei vencido.


O ódio o cegou ao perder

Primeiro a honra diante de seu próprio comandante

Depois, aquele que tomou emprestada a armadura.


O adversário mais honrado pagaria a conta

Não teve chance

Teve o corpo arrastado

Três dias e três noites sob a reprovação do Deus Sol.


Lembra da encruzilhada?

A escolha já estava feita

Por isso ainda hoje lembramos seu nome.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

TEMPO VERBAL

Aprender inglês mudou um monte de perspectivas que me possuíam tal qual fantasmas. Também confirmaram outras no meu processo de autoconhecimento, por exemplo, vou errar em detalhes em qualquer língua. Não se trata de aprendizado, simplesmente sou quem sou. O mesmo goleiro do Palmeirinhas capaz de fazer defesas de orgulhar qualquer profissional logo depois de ter tomado um frango.

Dentre as coisas que mudaram ficam a vergonha de saber mais da gramática da língua dos outros do que de minha própria. A compreensão de o pouco que sei de português é derivado da comparação com outra estrutura. Ainda mais: o importante é comunicar, até porque, muitas vezes ninguém se entende mesmo. Finalmente o fato de que a tal língua culta é antes de tudo um instrumento de exclusão.

Para não ficar só na teoria, permita-me dar um exemplo. Em inglês dizemos Shakespeare wrote Romeo and Juliet, Patrick Rothfuss has written The name of the wind. Observe que a primeira frase está no passado simples e a segunda no presente perfeito. Ao traduzir vai tudo para o passado. Para poupar de uma longa explicação da diferença dos dois tempos verbais simplesmente apontava para os meus alunos que bastava saber quem ainda está vivo.

Agora me diz com sinceridade se você acha se a obra do Bardo está realmente concluída. Pega aqui na minha mão e vem. Ontem fui ao barbeiro e dei de cara com o Baruc...digo a ele:  Bicho, tinha uma coisa importante para dizer, só não lembro o que é. Se for importante mesmo digo depois. Coisa de velho que nunca lembra.

Só que agora lembro. Estou lendo o livro dele agora mesmo, no presente e é perfeito perguntar ao autor sobre qualquer dúvida. Só que sabendo muito mais de literatura ele já havia explicado que não se pergunta ao autor, sob o risco de perder as poderosas metáforas e suas infinitas interpretações ao se restringir apenas a quem escreveu.

Enquanto isso lá se vai um mês que descobri que vou ser avô. Pego o violão e tenho a ousadia de gravar O filho que eu quero ter de Toquinho e Vinicius. Quando o faço modifico a letra em dois ou três pontos, apesar de ela já ser perfeita (e muito melhor executada) bem antes de minhas interferências. Ou seja, Vinicius vive nas cordas de meu violão.

O tempo seja ele verbal ou essa coisa indecifrável que a física tenta, inutilmente, aprisionar em um espaço é simplesmente luz.

Escrever é um ato coletivo.

sexta-feira, 27 de março de 2026

THE POWER OF LOVE

Enquanto o carro estava sendo revisado decidi almoçar ali pertinho, o nome do restaurante é SIR JOE, com muita coisa boa, principalmente o ambinete.Ou seja, sei bem onde estava e com um pequeno esforço poderia até precisar a hora e o minuto em que me sentei naquela mesa. Em frente vejo uma tv antiga, dessas em que a imagem mal mantém as cores originais, então fui arremessado de volta ao passado vendo um trecho de “De volta para o futuro”.

Sei bem de um monte de problemas técnicos e científicos de viajar no tempo de um jeito diferente do que já o fazemos em cada salto para o milésimo de segundo seguinte. Penso em tempo como uma expressão da entropia, o que mal explicado diz que não dá pra consertar espelho quebrado. Há ainda a questão da continuidade do espaço com o tempo, ou seja, quem garante que o DeLorean vai votar certinho no mesmo lugar? Ou ainda, se o mesmo local em outra referência está justo no centro de uma estrela?

Entretanto, a viagem ocorria dentro da minha cabeça. Essa chegou a um momento bem específico. Era 16 de junho de 1984, 16:30h, em uma festa de São João. Tendo como referencial o próprio planeta com o qual navegamos através do universo sou capaz ainda de dizer o local com precisão de uns 10 metros: Av. Ministro Edgar Romero 492, Colégio Normal Carmela Dutra, encostado na parede do pátio. Foi lá que ela me deu o primeiro beijo.

O curioso foi que assim, meio sem graça, apesar de continuar abraçada comigo começou a observar as formigas que estavam passeando pela parede. Assumo que fiquei bem confuso, será que realmente começamos a namorar? Essa certeza precisou de algumas semanas, andar de mãos dadas comendo minipastéis de queijo. Mesmo assim se há algum momento específico para voltar, sei bem para quando.

De volta para o futuro digo que criamos um casal, construímos duas casas e trabalhamos de montão, passamos por festas e tempestades. Só agora entendo as formigas. Bem diferente de mim, ela vê beleza em cada detalhe, enfim a graça concedida pelas Graças. É a benção que é quase uma dor. Precisei aprender a tocar “Todo o sentimento” para finalmente entender, mesmo que só um pouquinho.

Hoje posso até dizer que não acredito que signo dela combina com o meu. Dizem que quem é de libra tem beleza, elegância e visão para os detalhes como nenhum outro signo. Então ela roubou tudo de mim. Não reclamo, pois junto roubou inteiro todos átrios e ventrículos de meu coração.

quarta-feira, 18 de março de 2026

NÓS 4

 Tenho um amigo que escreve, outro que revisa, outro ainda que lê. De um modo absurdo os três me deram um tiro de canhão, e todos no mesmo dia. Sabe aquela canção de Teresinha de Jesus, pois éFui a queda, e ao chão. A vantagem é que do chão a gente não passa. Pelo menos até Dante inventar o inferno. 

Você acredita que um cara que revisou não menos que Drummond teve a pachorra de comparar um texto de Machado com meus versos e reversosPara tudo e vai lá pegar meu ego que está quicando no teto. 

Mais cedo um amigo que tem mais intimidade com Jesus vem me dizer respeitosamente que entende meu coração agnóstico. A canção que toca no fundo é “se todos fossem iguais a você”. Aqui cabe lembrar de uma referência do passado, torcedor do Olaria, que sempre dizia são onze contra onze, em nenhum outro lugar do mundo um oprimido tem tamanha oportunidade de vencer. Seu Omar, sempre tinha uma palavra ou outra de sabedoria, pois entendia os malucos de verdade. Ele mesmo era maluco antes de se encontrar com sua espiritualidade. Assim compreendia que não cabia a ele julgar os caminhos dos outros.  

Logo de manhã quando vinha o Sol e as gotas de chuva que ontem caiu leio o texto fresquinho de um poeta que tem a gentileza de compartilhar seus escritos comigo, sugiro que recite com “todo sentimento” ou “O céu de Santo Amaro” como pano de fundo. Aqui percebo que ele sorrateiramente roubou minhas palavras 

Como expressar o amor por quem vê beleza no pouco, no detalhe, até mesmo no invisível?

Meu coração ateu quase acreditou nas suas (seis) mãos. Isso não foi um breve adeus. Foi um venha aqui. Você não está sozinho. 

quinta-feira, 12 de março de 2026

VIDA QUE SEGUE

Ele me liga e quando entro na chamada de vídeo percebo que ela é compartilhada. Nela junto de meu filho está minha nora, aquém do oceano minha esposa e os pais de minha nora. Estamos como que em casa. Há alguns anos este tipo de reunião ocorreria ao vivo e a cores. Hoje nem o Atlântico pode nos afastar.

Na mão de meu molequinho está sendo exibido algo que demorei um bocado para entender do que se tratava, só não digo que a ficha demorou a cair por temer que essa expressão denuncie a minha idade, o que de imediato me transformaria em uma espécie de vovô.

Finalmente entendo o que está ocorrendo. Outra coisa determina que finalmente sou progenitor (além do uso dessa palavra que só velho entende), e não é o cartão de estacionamento que permite usar algumas vagas preferenciais. Se trata, de fato, do resultado de uma ultrassonografia.

Em minha vida já presenciei alguns atos de coragem, coisa de bombeiro. Então cabe ressaltar o que é coragem de verdade: não a ausência do medo – que em última análise é o instinto de preservação evitando que sejamos extintos. Coragem é o fazer. É compreender o necessário apesar do medo. É Arjuna não fugindo da luta para encontrar o dharma.

Dentre esses atos está lá no topo da alma humana, outro, que também é de esperança. O criar e o recriar. Nesses momentos sombrios em que o mundo diz que não, o amor se multiplica em um monte de células que juntas não passam muito de 6 cm. O que sequer pode ser significativo em uma das medidas fundamentais do sistema internacional, mas ao se juntar ao tempo e a massa trazem ao universo um brado retumbante que nos põe no meio do caminho entre o ínfimo e o infinito.

Dois de meus maiores amores se prepararam, se esforçaram, se organizaram, se amaram. Tudo isso foi feito para nos trazer uma nova vida.

quarta-feira, 4 de março de 2026

REFERÊNCIAS E REFERENCIAIS

Para não dizer que isso só acontece comigo vou apontar o ocorrido com um poeta de verdade, em minha opinião não um poeta qualquer, o maior que já ousou bagunçar e construir a língua brasileira. Logo depois de um vestibular analisar seu texto ele simplesmente publica uma crônica no finado Jornal do Brasil discordando. Mesmo assim a banca bateu o pé e manteve o gabarito, a despeito dos inúmeros pedidos de anulação. Ou seja, se você quer que algo que escreveu não tenha interpretações divergentes simplesmente não publique, o que no cerne da palavra significa tornar público. Por sinal eis o motivo de bancas evitarem textos de autores vivos.

Fosse esse um texto informativo me sentiria obrigado a responder algumas perguntas, tais como: Quem? Quando? Onde? De que forma? Qual a motivação? Assim é o que faço nas aulas de física quando jogo uma bola no ar. Ou seja, se você está lendo isso aqui quer dizer que você disse sim ao meu do you wanna dance? A ausência de referencias abre um espaço no seu imaginário.

Tudo fica bem diferente durante as aulas. A tal bola que jogo vai ter energia cinética, potencial gravitacional, rotacional (se estiver girando), velocidade, aceleração definidas... assim podemos prever o que acontece com a tal esfera. Tudo isso fica relativamente fácil se você vê o movimento do lado de fora, estático em relação a um referencial inercial. Entretanto para uma infeliz formiga que está sobre a tal pelota tudo é bem diferente, ou até fatal.

Aqui é que metáfora e metafísica começam a rimar. Um bom exemplo disso é esse clip: https://www.youtube.com/watch?v=HCEzzlgG5RM, .... (intervalo para você ver enquanto eu calculo o tempo de queda da bola e preparo o funeral da formiga) ... no qual Kate Bush atinge notas capazes de quebrar copos de cristal (já que mencionei aulas de física isso não é fake – o nome disso é ressonância). Antes de saber do que a música versa observe a intepretação da artista. Se você responder a ela como se visse um filme de terror ou fantasia, sua mente deu um salto quântico e levou exatamente onde ela quer te levar. A história da música é sobre um fantasma que quer voltar para casa. Nesse ponto saber ou não as referências não impede que você seja arremessado para longe de tudo, igualzinho a formiga que estava na bola e agora está contando piadas de elefante para São Pedro.

Enfim, nem sempre queremos quebrar as muralhas de Jericó, o soar das trombetas aqui só têm a intencionalidade de quebrar as barreiras entre mim e você. É por isso, somente isso, o que me faz abrir mão de um texto que deveria ser só meu, somente meu, meu só. Só para que eu não esteja só. E que assim seja para sempre, ou pelo menos até que o chat gpt me substitua.

 

Remo Noronha

 

ps. O poeta do primeiro parágrafo é Carlos Drummond de Andrade. O que revelo a contragosto, nada é pior do que uma piada ou uma metáfora explicada.

segunda-feira, 2 de março de 2026

Dois meninos que roubavam livros

Como tenho escrito bastante corro o risco de ser repetitivo, mas lá vai: só vou acreditar na tal meritocracia quando todos tiverem acesso a pão e livros. Como cheguei a essa conclusão? Fácil responder, em minha casa havia um menino sempre tinha um livro ou dois a disposição. Ele também sabia ser repetitivo quando necessário, entre suas frases prediletas vou pinçar duas: “livro quem empresta é bobo, quem devolve é otário”, “a gente tem que ler de tudo desde panfleto até bula de remédio”.

Nesse momento você pode pensar que o Maninho era uma espécie de vilão, mas é justo o contrário, em minha infância ele era o meu herói improvável. O menino que se queimou todo para fazer café enquanto o resto da família ainda nem havia acordado. O rapaz que incentivava todos a ler. O homem que faz da luta pela justiça social sua bússola ética.

Tentando seguir o exemplo até hoje leio temas que não me agradam o que passa por tarot, autoajuda e horoscopo. Afinal como discordar de algo que você nunca leu. E foi assim que um livro que analisava os contos infantis caiu em minhas mãos, e como estamos falando de improbabilidades isto se revelou em uma chave incrível para a interpretação de textos literários.

Em resumo a ideia é a seguinte: pegue um arquétipo qualquer, por exemplo a figura paterna, e o dividida entre o lobo e o lenhador. Assim podemos criar uma trama onde luz e sombra estejam em movimento e tenham a chance de dialogar. A partir desse ponto passei a ler de um modo totalmente diferente, o que por sinal também serve para interpretar sonhos.

Um bom exemplo disso é a série sobre um médico genial e irônico; cuja personalidade marcante lembra demais meu irmão. Quem vê logo de cara, entende logo que o nome do médico é referência ao Homes. Até aí é elementar, meu caro Wilson, desculpe, Watson. O problema está em como mostrar para o público como uma mente analítica funciona por dentro. Chega aqui a hora de pegar uma espada literária para dividir o personagem em detetive e auxiliar, ou oncologista e o clínico. Assim o que se passaria só na mente vira diálogo.

Aqui chegamos no capítulo final de House , quando algo incrível acontece. Por um motivo que não lembro, lá se vão os dois melhores amigos em uma road trip. É isso pensei. Assim eles deixam de ser indivisíveis do duo. É para isso que serve a literatura. Finalmente entendi que quando essa luz se acende percebemos que nossos textos são coletivos.

Compreendo isso justo quando meu melhor amigo cumpre a parte dele, pega o carro vai para o sul do mundo, algo que combinamos fazer juntos. Então esse texto foi roubado diretamente da mente de um cara que vai encarrar essa jornada individualmente.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Rei morto

O texto que fiz sobre nostalgia continua ecoando por aí. Sei que fico forçando a barra perturbando meus 12 leitores de sempre. Sou pra lá de chato mesmo, sempre em busca de conexões com as ideias que teimam em brotar no cortex pré-frontal. Além disso me sinto obrigado a lidar com pessoas e suas opinioes. Se a gente deixa essas relações para lá acaba preso em algum casulo. Então três fatos se somaram ao contexto:

1.     Um vídeo de IA mostrando os personagens dos desenhos animados, envelhecidos, se abraçando;

2.     O alcançar dos 60 anos de meu melhor amigo; e

3.     Outro vídeo elogiando as músicas dos anos 80.

Esse terceiro assunto gerou profundo debate com outro grande amigo, com o qual fiquei disputando quem iria mencionar a música mais antiga. Quando chegamos a Mozart demos o assunto por encerrado. Ou pelo menos, esse assunto, pois logo volto a outro que veio no trem do pensamento, ou melhor, emendado que nem cantiga de grilo, como diria minha mãe.

O interlúdio aqui vai ser estabelecido ao oferecer congratulações natalícias, pois é assim que velhos dizem feliz aniversário. Aqui o tema rodeou o cartão de estacionamento recém adquirido e a constatação de que como somos muitos sexagenários por aí com o nosso valor de mercado é depreciado. Pois assim funciona a lei da oferta e da procura.

Voltando a conversa, ao chegar no Amadeus e sua extremadamente bela canção chamada Lacrimosa, o amigo pontuou que ela se referia ao juízo final, e não a partida do pai do autor. Fato que ficou no meu inconsciente desde que vi o filme sobre o compositor.

Aqui fica o mote de minhas escritas: Jamais deixe a verdade atrapalhar uma boa história, pode até ser que ao ver o filme eu estivesse aprisionado pela relação entre o Simba e o Mufasa do Rei Lear, ato falho, Rei Leão. Cansei de ver os olhos de meu filho se desmancharem em lagrimas durante a cena tantas vezes repetida no vídeo cassete.

Agora se agarra aqui na minha mão. Penso que em algum dia da vida de um homem ele é quase obrigado a se despedir da figura paterna para que ele mesmo assuma a coroa, seja essa da Noruega, da música pop (Michael Jackson que o diga), do futebol ou mesmo dos tempos imemoriais representados pelas savanas africanas.

Isso tudo só para dizer que a tal nostalgia pode ser embalada em uma canção de ninar, cantada por um pai que simbolicamente já partiu. E pode até mesmo não ser uma dor se entendermos que, velhos que somos, mudamos de papel. Isso pelo menos enquanto outro rei não venha nos tomar aquilo que lhe é de direito.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

CERTAS CANÇÕES

 Ouço ela, linda, espalhada pelo mundo

Um tenor é tudo que se precisa

Se não há luz nos olhos ela sobra na voz.

O som se apresenta para a guerra ou para o amor

A expressar o que não posso definir.

Então um bemol desce, porém
logo se eleva sustenido.

Seu campo é elétrico, tem gravidade, magnético certamente

Atômico no micro, poderoso ou destrutivo no macro

É, enfim, harmônico.

Sozinho guardo nas mãos o que minha voz não sabe dizer.

Seis cordas não podem prender tal poder indefinidamente

Ele se espalha no ar em um raro momento de beleza

Mesmo sendo aprendiz, artífice

Repetindo o que já disseram criador e criatura.

Nada disso importa, apenas canto baixinho

Junto com o último e estrondoso acorde

Com ti(go).

sábado, 7 de fevereiro de 2026

HERÓIS

O narrador da minha penúltima passagem de Comando cometeu uma pequena gafe que acabou virando uma piada interna. Ao ler a lista de convidados anunciou o nome do Sargento Herói, quando deveria te lido Herdy. Costumo dizer que a única pessoa que não pode errar meu nome é minha linda esposa, filosofia compartilhada pelo amigo que apenas sorriu com o deslize.

Lembro disso quando acabo de perceber que no último texto disse que Perseu era o líder dos Argonautas, quando na verdade deveria ter citado Jasão. Então vamos pôr ordem nessa bagunça:

1.      Hercules fez uma porrada (palavra perfeita para quem bateu até em Marte) de trabalhos, mesmo assim costumamos dizer que foram 12;

2.      Teseu é o cara que fingiu ter tesão por Andrômeda para pegar o touro a unha;

3.      Perseu virou estátua em um montão de lugares, mas não diante da Medusa;

4.      Jasão juntou uma galera e colocou numa galera (desculpe num trirreme), mas quem resolveu a parada mesmo foi Medéia, que no fim das contas teve mais um dia para destruir o passado e o futuro do ingrato;

5.      Ulisses foi o cara que ralou para voltar pra casa;

6.      Aquiles era o do calcanhar de vidro;

7.      Homem Aranha é aquele que não viveria trepado em paredes se conhecesse a Mulher Maravilha; e (meu preferido)

8.      Heitor o cara que se manteve fiel aos seus valores mesmo derrotado.

A lista fica incompleta. Conheci alguns outros que o foram diante de meus olhos. Bombeiros que deram a vida. Professores que mudaram comunidades ao seu redor. Isso só para falar das profissões nas quais fui amador, amante e amado.

Heróis têm mil faces. Vivem no dia a dia. Recusam o chamado, pois não pedem para ser heróis. Atravessam a ponte entre o mundo e o sagrado. Enfrentam monstros que vivem em seus corações. Encontram a sabedoria pelo caminho. Se retiram nas cavernas do inconsciente. Sobrevivem. Voltam para mostrar o que aprenderam para o mundo. Ou seja, são pessoas como eu e você.

O problema está no fato de que não percebemos como nossas vidas são extraordinárias. Então, vivemos em busca de uma metáfora estrondosa e passeamos por aí sem notar que somos protagonistas de nossa própria jornada.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

MAIS PALAVRAS

Volto ao tema de “aí, palavras, aí, palavras que estranha potência a vossa”, verso que Cecília Meireles roubou de dentro de meu coração. Já estive aqui para diferenciar contemplar de considerar, o que aprendi com Junito de Souza Brandão espantosamente escrito quando o assunto era mitologia. Enfim, venho refletir (palavra que poderia ser protagonista aqui mesmo) sobre a diferença entre saudade e nostalgia. Prometo não me agarrar ao clichê de que saudade só existe em português, até porque nenhuma palavra consegue ser traduzida plenamente por traidores.

Se você não acredita em mim procure em sua língua duas palavras que dizem a mesma coisa, com o mesmo sabor e textura. Ou seja, estar exausto não é o mesmo que estar cansado. Se você tem sua dor ao lembrar, pense bem se é uma algia qualquer; ou se trata daquelas que lhe dão vontade de construir uma máquina do tempo.

Como experiência não pode ser transferida talvez eu esteja errado. Os anos passados não eram tão bons assim. Se você sente saudades do tempo em que formava fila para cantar algum hino antes de entrar na sala, provavelmente esqueceu há muito que achava aquilo um tremendo saco. Aqui fica o desafio de perguntar se você realmente sabe o hino. Não se trata apenas de cantar com as palavras corretas, o que já é difícil. Mas entender que a pintura de Pedro Américo que transforma em imagem o mesmo texto nunca existiu. Enfim, não quero acusar ninguém de ter faltado a aula de história, mas apontar que a história é contada por alguém que pode dizer o que deveria ou não virar livro texto.

Imagino que o futuro que se posta ali na esquina é assustador. A distopia deixou de ser um subgênero literário e passou a ser o prato do dia. Nos cabe, entretanto, entender que a volta ao passado é proposta justo por quem quer moldar o futuro.

Aqui a palavra é reboco. Em um desses vi a nave Argo pintada em um afresco (onde a tinta é misturada ao reboco). O problema é que ela tinha características de uma nau. Ou seja, quem falou de Jasão no século XVI sabia que uma nave construída para atravessar o Mediterrâneo não teria a mesma força simbólica de outra capaz de singrar o Atlântico. Assim a nostalgia do tempo dos heróis poderia se transformar na saudade do que nunca existiu.

Tudo isso quicou na minha cabeça quando vi um carro com o “reboco” caindo aos pedaços sendo rebocado. Assim fico imaginando para onde vão levar aquela Brasília.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

O MAIS IMPORTANTE


Duas canções dão início ao que quero dizer. Uma declara que tudo que move é sagrado e o fruto do trabalho é mais que sagrado. Trabalho que é força e caminho, ou algo parecido com isso, segundo a ciência. Na sociedade essa grandeza escalar está cada vez mais difícil e precária. Outra canção aponta para aquela igreja, moço... Também trabalhei lá.

Todavia, não é sobre trabalho que eu quero falar hoje, é algo menos importante. Entretanto é a coisa mais importante dentre todas as outras que não tem importância alguma, a forma de lazer que me define: o tal do futebol.

Ontem, paguei uma promessa que já estava bem atrasada de ir a um estádio..  Foi para um amigo tão generoso, mas tão generoso a ponto de permitir que eu tratasse seu filho como um neto torto. Assim, lá fomos para a cidade ali ao lado para ver nosso time jogar.

Eu tinha certeza de que a criança de 9 anos estava prestes a viver uma experiência para ser lembrada a vida toda, quase como o primeiro beijo. Antes ligo pro meu moleque esse já com 33, pergunto o que ele lembrava de nossas idas ao Maracanã e São Januário. Isso causou uma daquelas ligações de vídeo intermináveis, dessas que nos deixam de coração partido por ter um amor infinito por alguém tanto mar distante.

Nike nos acompanhou, não simplesmente a nova marca da camisa, mas a própria deusa grega, conhecida pelos romanos como Vitória. É lógico que torci, principalmente para poder dizer para o garoto que ele é pé quente. Deixa para outro dia para ele entender que se ganha, perde e empata. Não fosse assim jamais perderíamos a copa de 82.

Sei bem que para levar esporte a sério deveríamos ter um projeto de país que usasse esse recurso como ação integrada de prevenção de saúde para toda a população. Mesmo assim é importante. É importante para o flanelinha, para o dono do bar, para os trabalhadores temporários, para os meninos da base. E assim foi para mim. O velho esporte bretão me oferece uma incrível perspectiva de ter uma família ampliada.

Voltamos cansados e felizes. Então pergunto para o menino se gostou do jogo, não o de 9, mas o de 40. Ele agradece, era a primeira vez que ele havia posto os pés em um estádio que não fosse para executar a terraplanagem.

E assim é meu time. Um espaço para acolher o coração de negros, operários e principalmente meninos. Vocês sabem bem que enquanto houver um coração infantil... bem, haverá um novo dia.

sábado, 24 de janeiro de 2026

COM O TEXTO

Definitivamente tenho que ler Dostoiévski. Acabei de ouvir, no que seria em outro tempo o rádio, que ele descontruiu a ideia de que o tal mercado tenha uma mão invisível. Pensar que as relações humanas se autorregulam, disse ele, desconsidera no fato de que somos capazes de, seja por ignorância ou incompetência, fazer algo simplesmente estúpido.

Para não apontar dedos vou vestir os sapatos. Basta alguém achar que toca violão para pescar a cifra de uma música em francês e sair cantando do jeito que der. A solução para isso deveria ser fácil, ainda mais tendo poliglotas e tradutores na família. E nem se trata de aprender a língua, bastaria saber que alouette significa cotovia e tentar dissimular uma pronúncia passável. Só que, por hábito, tenho o mau gosto de arriscar soluções criativas. Assim lá vou eu fazer uma versão. Enfim, se todo tradutor é um traidor me sinto à vontade de dizer que tenho aversão a versões.

Ser diagnosticado com altas habilidades não me exime de fazer algo impensável ao menos uma vez por hora, e sair praguejando o quanto sou burro. Imagino que não sou dono exclusivo de um coração cheio dessas contradições. Que atire a primeira caneta quem se achar isento. Ou seja, ser uma anta com alto QI é sequer um paradoxo, é no máximo uma antítese.

Como posso concordar que exagerei ao citar Dostoiévski (até porque só conheço esse cara por terceiros), vou tocar de lado para convidar Gilberto Gil. Aqui peço para que você ponha para tocar A novidade antes de continuar a ler. Ainda mais. Baixe a letra e leia com cuidado. Até mesmo para trazer uma luz diferente ao que digo: Só há uma solução para entender o baiano - o poeta e o esfomeado são a mesma pessoa. Fossem dois personagens seria uma antítese (bem daquelas que o Jesuíta trazia em sua boca de inferno). Pois paradoxal é o Caetano devorar Leonardo DiCaprio.

Aqui chega o momento em que tenho que justificar o primeiro parágrafo. Pois até agora não disse nada que tornasse minha estupidez realmente destrutiva para além de minha reputação. Então digo que basta ser bombeiro para entender que em um escapamento de gás alguém que nem é da guarnição faça algo que possa se arrepender, comissário de bordo para saber que passageiros são imprevisíveis, da área médica para saber que realmente há pessoas antivacina, professor de física para ter que explicar que a Terra é geoide, analista político... bem,  acho que você já me entendeu.

Enfim o que digo é uma metáfora, que pode muito bem ser também uma antítese ou um paradoxo. Assim somos. Simplesmente humanos.

domingo, 11 de janeiro de 2026

CIÚMES DE AMORES, AMIGOS, CÃES E VIOLÕES

 O bardo definiu o ciúme como um monstro de olhos verdes. O que, obviamente não justifica (nem de longe) a ideia de que algum cara tóxico queira tratar uma garota como propriedade. Nem mesmo considero isso como o tal do tempero do amor. Ciúme tem tudo para ser destrutivo. Porém como qualquer sombra o irmão coxo do amor se revela com a força da criatividade.

Do alto de meus 60 fico tranquilo para dizer que cheguei a esse ponto depois de ultrapassar trancos e barrancos, afinal aquela que chamo de meu amor é simplesmente adorável, e na letra dos Beatles que diz And I love her é declarado como todos os efes e erres que se você a conhecesse também a amaria. É lógico, que digo isso depois de várias vezes me interpor entre ela e um engraçadinho qualquer.

Sigo após ouvir que não devemos projetar sentimentos humanos aos animais. O que é mais fácil dito do que vivido. Basta ter uma pinscher de 14 anos e uma labralata, labradoida de 8 para entender que não faz muito bem a saúde da pequenina se eu fizer qualquer gesto de afeto que possa ser detectado pela aquela máquina de correr no quintal.

Vou ainda adiante, e tomo emprestado o espírito de José Mauro de Vasconcelos que dá vida aos seres que vieram das árvores. Assim o digo por ter três violões: O Dada de cordas de nylon, velho de guerra que laranja como é. traz a paciência e a tranquilidade de quem sabe ser um guia espiritual. Logo a ele se juntou o Fênix, um cabra macho pra valer, folk com cordas de aço, sonoro e de presença marcante. Eles até que se entendiam bem, sabendo certinho quais música pertenciam a cada um deles. Então chega em minha vida a Luna, cordas de nylon cantando bossa e mpb como uma verdadeira profissional. Resultado: do nada o Fênix, sem explicação nenhuma decidiu começar a trastejar.

Logo vou levar ele pro Marceu, que certamente, terá alguma explicação técnica para o ocorrido. Entretanto, nada vai me abalar diante da convicção de que o violão grandão teve um ataque de ciúmes.

Nisso ligo para o meu filho para contar o corrido na presença do Rollem, que sem cerimónia nenhuma me rouba o celular e começa a se divertir na linguagem cifrada própria dos engenheiros. Coloco meus óculos escuros para esconder os raios laser verdes espero um pouquinho para conversar com ambos em separado para dizer o que um deveria ser o padrinho do outro. Eles respondem em uníssono: Será uma honra!

É assim que a história se resolve, no laço de meus dois melhores amigos. Afinal a amizade é (ou deveria ser) o amor sem ciúmes.