segunda-feira, 2 de novembro de 2026

ACORDEI

Quando não sei como tocar a vida...   
Eu toco violão.

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

PENSAMENTO DO DIA

Ruim que seja lidar com gente enrolada, é bem pior lidar com gente enrolona.

terça-feira, 27 de outubro de 2026

SENÃO EU VOU PRA JACAREPAGUÁ

Antes de tudo devo declarar que não vou fazer o mínimo esforço para tornar este texto engraçado. Ela é que era a graça. Ela não está mais aqui para contar. Então que seja uma homenagem.

Também não vou tentar fazer que este texto seja grandioso, essa missão ficou para o meu filho, que é neto dela e acabou de escrever sobre o lindo dia que ela fez questão de votar. A insistência veio com a fala de que ele tinha o direito garantido de fazê-lo, enquanto a geração dela teve que lutar por esse direito.

Também não vou tentar criar aquele clima delicioso de subúrbio. Outro Chico já fez isso ao compor Gente humilde.

Vou simplesmente contar uma breve história:

Jaísa estava com suas amigas na porta de casa, quando viu um cara estranho se aproximar. Ele usava um velho casaco jeans e uma calça tão jeans e tão velha quanto o casaco, a despeito do calor. Tinha cabelos longos, falava sozinho e andava cantando.

Talvez você não conheça a música antiga na qual o cantor se dizia neurastênico e que se não se cuidasse ele ia acabar em Jacarepaguá. Essa canção se refere a colônia na qual seres humanos eram empilhados.

Então ela chama as amigas para dentro de casa: “gente, vamos entrar logo, mais um que fugiu”. Seu senso de proteção era uma de suas marcas. Assim como hoje em dia, não era fácil ser mulher, de fato nunca foi. Sua reação era automática. Cabia a ela proteger, em especial suas cinco lindas filhas.

Mas... quem não gosta de uma fofoca que atire a primeira pedra. As três ficaram encolhidas na sala e tentavam ver o doido pelas frestas.

O louco para, bate palmas e grita: “Aninha, Aninha!”

Pronto, o maluco quer justo namorar minha filha!

Jaísa era sábia e perceptiva, ela estava certa. Afinal foi ela que educou a menina mais linda que já cruzou meu caminho. E eu, bem, eu sou louco pela filha dela.

sábado, 24 de outubro de 2026

ENVIANDO O AMOR PELO AR HOJE

Um dos lances de aprender inglês é, finalmente, saber o que dizem as letras das músicas que você curtia antes dessa confusão começar. Quem nunca cantou Ai faida bi dai, ao invés de I started to joke, atire a primeira pedra. Seja como for além da vergonha (própria ou alheia) sempre fica o aprendizado. Um deles é depois de ter trabalhado no curso de inglês, aquele na qual a publicidade orgulhosamente ostenta que “você vai falar inglês igual a americano”, finalmente entender que já sou (latino) americano, que minha obrigação é me fazer entender na minha própria língua, e que tenho que me orgulhar do sotaque de um brasileiro que penou para dominar a língua do dominador.

Voltando as letras das músicas tem de tudo:

1.    Algumas delas são decepcionantes. Letrinhas mequetrefes escondidas em belas canções.

2.    Outras que usávamos para dançar lentinho, definitivamente não foram compostas para isso, como a melô do papel que versa sobre construção de casas.

3.    Há aquelas cuja história surpreende, como uma das mais lindas dos Beatles cuja musa inspiradora foi, depois, roubada pelo melhor amigo (que por sinal fez outros dois verdadeiros hinos a mesma garota.

4.    Há aquelas cuja versão que você ouve não tem qualquer relação com a letra original, com destaque para Hey Jude na qual Sulivan e Massadas traduziram remember como esqueça.

5.    Há aquelas que chamam atenção por simplesmente fazer história.

É nesse espírito que quero dividir contigo os dois sentimentos opostos que uma linda canção do Vangelis trouxe para minha vida. Quando ouvi Deborah pela primeira vez ela só me trouxe tristeza. Estava em um baile e tomei uns três tocos antes de me retrair em um cantinho de minha insignificância. Qual menina ia querer dançar com um moleque magricelo, pobre e desengonçado?

Uns trinta anos depois lembrei da canção e decidi que que seu ritmo lento poderia servir para alguma de minhas aulas, confirmando a vocação de trazer velhas canções para novos alunos.

Qual foi a minha surpresa ao entender que ela falava sobre uma carta recebida por pai orgulhoso de sua filha. Em um trecho ela diz: you're sending your love Thru' the air today, com referência ao fato de que as tais cartas viajavam de avião, muito antes de serem ondas de luz através de alguma fibra ótica.

Sei bem que minha interpretação é muito pessoal e bem forçada, mas como já disse antes todo tradutor é um traidor, então caso você queira saber o que o autor quis dizer: pesquise. O que a letra diz para mim é do orgulho da menina que não tirei para dançar, mas aquela que criamos com amor. É bem provável que minha comissária de bordo preferida esteja no ar agora em algum avião da LATAM.

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

O HERÓI BRASILEIRO



O Caramelo não é um cara qualquer.

É um cara caramelo.

O Caramelo não pulou no pé do cavalo,

Nem bateu no ganso ou criou um galo.

Mesmo assim fugiu do Cão Policial.

O Caramelo não é cãovarde, mas não é mané.

Tem bossa e samba no pé.

Foi na igreja com o São Bernardo.

No culto com o Cão Pastor.

O Caramelo tem fé e tem dó, de quem não sabe que Deus é um só.

O Caramelo tá na pista e se desmancha por uma sambista.

Foi no terreiro pedir axé, no batuque do candomblé.

Depois se faz de atleta correndo atrás de bicicleta.

De noite ainda se entusiasma e uiva quando vê um fantasma.

De manhazinha não enrola e leva o menino pra escola.

O Caramelo sabe muito bem onde não pode pedir esmola.

O Caramelo não é otário, sabe quando pode sair do armário.

De tardinha abana o rabo pro padeiro português, em troca de pão francês.

De noite, sob a marquise, pena um bocado.

Lá ele esquenta o menino do pé quebrado.

Ele já foi verde, e agora é o elo, do focinho ao artelho,

O seu coração é vermelho.

Ao passar pelo Caramelo sorria.

Improvável que seja, ele vai viver por mais um dia.

terça-feira, 20 de outubro de 2026

SOBRE AQUILO QUE NOS SEPARA

Dizem que Campbell estava rodando nos Estragos Unidos para divulgar um livro, assim chegou em uma rádio onde foi recebido por um redneck. Este nem o cumprimentou e já foi dizendo: “é você o tal do professor que ensina mitologia? Vou provar que é um mentiroso”. Assim que começou a entrevista o radialista logo repetiu a frase. O professor retrucou que mitologia não é mentira é uma metáfora. De imediato o anfitrião pergunta: o “que é isso?”, porém o mestre devolve a pergunta.

Um hiato. Diferenciar mitologia e religião é, no frigir dos ovos, o mesmo que perguntar se alguém é maconheiro ou dependente químico. Tudo vai depender se a crença ou o parente é seu ou de outra pessoa.

Durante o hiato o espertinho chamou os comerciais e procurou um dicionário. Então recomeça citando: “metáfora é uma figura de linguagem que estabelece uma comparação implícita”. “Pode dar um exemplo?” Pergunta o docente. Outro hiato... “ele corre como uma gazela”. “Isso não é metáfora”. “Como assim?”. “Você teria que dizer que ele é uma gazela”. Então vem a lacrada: “isso é uma mentira!”, e a consequente invertida: “isso é uma metáfora”.

Com esse espírito que pretendo avançar aqui. Pois meu conhecimento religioso é bem limitado e, o que vou dizer agora é metafórico e poderia vir de um livro do Dan Brown: O tal do diabo que passa por ai hoje não foi sempre assim como conhecemos agora. Posso começar com Hades, que não me parece mau em essência, porém ele envelhece mal ao chegar em Roma e se tornar no rico Plutão, pois ao imigrar além do passaporte aquele que raptou Persefone tambem mudou a personalidade. Ainda mais tarde este personagem ganhou poderes dantescos justamente com Dante.

Poderes que quase fazem rivalizar com o bem supremo. Particularmente o de ser o culpado pelos erros dos outros. Assim se você bebeu, se drogou, foi parar em um bordel e todas outras coisas que o pato pateta do Vinicius fez... Bem, você não precisa assumir a culpa, já que ela é sua coloque em quem você quiser.

Assumo que também fico tentado, especialmente em definir algum desafeto com essa alcunha. Mas não o faço pela prudência de não oferecer tamanhos poderes a um adversário.

Pelo menos até ontem. Meu melhor amigo entrou numa de meditação e quis compartilhar a imagem da flor de lotus comigo. Aquela na qual a mais bela flor eleva aos céus seu brilho, mas tem suas raízes na lama. Então pergunto a ele como bem e mal podem habitar um só corpo. Recebo palavras que batem fundo. Um símbolo, é aquilo que une. Enquanto isso diabolo é o que nos separa.

Mesmo assim continuo pensando que simbolicamente a unidade é inevitável, por mais que nos esforcemos em evoluir um busca de individualidade há sempre a possibilidade da convergência. Por exemplo, aprendi que agnus dei, não tem nada a ver com ser agnóstico, assim como sou, e sim um dos epítetos de Cristo que é o Cordeiro de Deus.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

MÃE PRETINHA





Começo com uma anedota infeliz, a professora pede para o Joãozinho fazer uma redação com a frase “mãe só tem uma”, então ele escreve que um dia a sua pediu para pegar duas Brahmas na geladeira, bem o resto vocês podem intuir.

Se voltarmos ao tempo das mães pretas em uma sociedade em que as brancas estavam muito ocupadas em fazer... sei lá o que elas faziam. Só as mães pretas conseguiam acalmar o bebê para que fosse feito o tal do daguerreotipo, a fotografia da época, cuja a execução exigia uma eternidade em uma pose qualquer. Assim quando reproduzimos a frase proposta na redação negamos o nosso sangue mestiço de genética, cultura e religiosidade.

Sobre minha mãe já falei três coisas em um texto anterior. Hoje direi a quarta. Essa só vim saber um pouco depois de entrar na igreja Nossa Senhora do Carmo, tirar os sapatos e encontrar as lágrimas que me faltaram em seu velório.

Ainda estava bem para baixo quando encontrei a dona Eni, que recebeu meu abraço triste e respondeu: Deus te abençoe, meu filho, antes mesmo de lhe pedir: minha benção, mãe pretinha. Então ela me conta, um segredo compartilhado entre duas mães: Remo, antes de sua mãe partir ela pediu para que eu cuidasse de você. Gustinha era tão generosa que agiu como a mãe pressionada diante do rei Salomão. Ela jamais deixaria de ser minha mesmo que me desse para dona Eni. Nem preciso dizer que chorei novamente.

No epílogo de Brumas de Avalon Morgana entra em um templo para, finalmente, entender que a Deusa de seus ancestrais apenas mudara de forma e vestido um manto azul.

Infeliz da espiritualidade que nega o feminino, pois nos dias em que pensei estar partindo o trecho da oração que me veio fala sobre a grande advogada, ou simplesmente mãe.

Diante de tempos que podem se apresentar distópicos é contemplando ela que nos ajoelhamos: Mãe Pretinha orai por nós!

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

THOSE SHADOWS MAKE ME CRY

 Toda semana recebo mensagens de um amigo que lê. Assumo não conhecer todos os autores que ele cita, não me orgulho disso. Se eu pudesse, tivesse mais tempo e menos preguiça adoraria ter o superpoder de ler tudo que já foi escrito. O lado bom disso tudo é ver opiniões diferentes de quem já leu o que não li.

Hoje vou tentar fazer o contrário e trazer a ele algo fresco como um morango recém-colhido, algo apontado pelo meu segundo psicólogo predileto (prefiro meu terapeuta) um cara que trouxe a luz o conceito de sombra.

Somos o que de claridade trazemos ao mundo e lá dentro algo criativo, que muitas vezes negamos ser nós mesmos. Não é mero maniqueísmo. Entre interno e externo, alto e baixo, masculino e feminino, saudável e doente; ora observo, ora nego que meu duplo pode me dizer.

Comecei ontem mesmo criticando o conteudismo inócuo trazido as nossas pobres crianças do primeiro segmento do ensino fundamental, amordaçadas por uma estrutura que os obriga a simplesmente memorizar. De que serve saber que progenitora Francisca ficou estupefata com a onomatopeia emitida pelo felino ao invés de cantar atirei o pau no gato? Logo meu duplo reclama que sequer os pais valorizam o que é ensinado para os pimpolhos. Tento firmar o pé dizendo que não é possível aprender o que não se compreende. Ele retruca mostrando sua nota maravilhosa do IDEB. Como sou velho, ele novo, compreendi que ainda não percebeu que o primeiro passo de uma avaliação é saber a intenção do avaliador.

Do nada, do nada mesmo. Tem a pachorra de dizer que não tem empatia e decide mudar de assunto trazendo sua opinião sobre a escala 6x1. Ele é professor se esforçou para chegar até ali, porque deveria se incomodar com os motoboys que passam o dia sentados no chão, aguardando sua próxima entrega precarizada? Apesar de discordar profundamente com o que diz, reconheço que temos ponto em comum: o conforto. Este é o espólio de tantas batalhas e ainda a medalha que o moleque conquistou: a lama no sapato. O que penso, no entanto, é que mais valia a riqueza que construí para outros.

Ele insiste que acompanha um coach e vai ser bilionário. Até vi um estudante de classe média passar por esse processo, mesmo assim tento lhe dizer que é apenas uma exceção que confirma a regra de que para chegar lá é necessário ser da linhagem de quem recebeu capitanias hereditárias.

Bem sei que ele esperou que eu saísse para falar mal de mim. Nem posso reclamar, pois nisso somos iguais. No fim ficamos como a Eleanor Rigby e ninguém é salvo. Entre competição e colaboração, direito individual e coletivo, espalhar ou concentrar riqueza continuamos eu e minha sombra vivendo sob a bandeira de um país que é mais que dividido, é paranoico.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

RESPEITA (SÃO) JANUÁRIO

O maior sanfoneiro de todos os tempos desse país não esqueceu. Também não esqueça: não importa o quanto ele fosse capaz de fazer mágica ao invés de simples música.. Então fez questão de registrar que o que tantas vezes ouviu nos bailes de sua juventude: Luiz, respeita Januário.

Os oito baixos dele ainda não se comparavam os de quem veio antes. Anos se passam e lá veio Gonzaguinha, dono de uma poesia engajada com a cara de um Brasil capaz de vencer os anos de chumbo.

Sei que você é todo amor, mas lembre de que a base do caráter é a mesma do caratê. Pés sólidos no chão antes de qualquer defesa. Ao chegar no tatame nós cumprimentamos a tudo e a todos, desde os mestres até o adversário.

Sobre amor e respeito vou rememorar de duas histórias.

Um dia, adolescente, você fingiu prestar continência ironizando meu jeito nada delicado; então lhe disse que você não tinha obrigação de fazê-lo. Afinal você não era militar, mas se o fizesse que olhasse em meus olhos, estufasse o peito e lembrasse que verdadeiros heróis já me prestaram continência.

Outro dia estivemos diante de daqules que poderiam facilitar seu caminho. Recusei, pois tinha certeza de que juntos superaríamos isso tudo. E você cumpriu sua parte com tamanho heroísmo que hoje eu que lhe presto continência.

No fim tudo vai dar certo, o espelho não se quebrou.

Um dia espero que conte tudo isso a seu filho, e se ele tiver alguma grande alegria para te contar, que o faça em São Januário.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

ANDAR COM FÉ

 

Há muitos dias de minha vida que eu não queria ser tão cético. Assim ajo como se não o fosse. Posso até usar a frase de gente humilde do Chico, pois eu que não creio peço a Deus por minha gente. Deixa-me me explicar um pouco melhor: quando digo ser agnóstico não se trata simplesmente de tentar ser morno e não assumir ateísmo. Sou radical neste ponto, pois minha posição vai na raiz da palavra: o A de negação precedendo a gnose, ou seja, o conhecimento.

Enfim, se há um princípio inteligente criador dessa loucura toda assumo não ter a mínima ideia de como Ele fez isso tudo, nem como a parada toda funciona. Perceba aí, que é uma posição muito incômoda, pois não tenho o mesmo consolo que o Dorival Caymmi ao se referir a mãe que lhe disse: “meu filho ande direito, que é para Deus lhe ajudar”. Digo isso por observar muitas vezes que justo o contrário ocorre.

Tendo visto tantas crises ao longo da vida é fácil perceber o quanto os bombeiros portugueses estão certos em seu lema “nada do que é humano nos é estranho”. Mesmo sabendo a intencionalidade da frase no sentido de que tudo que é humano os move adiante; assumo outra interpretação bem mais seca. Já vi atos magnânimos e heroicos, mas também vi “gente” vendendo garrafa de água a preços estratosféricos em cada uma das emergências em que participei.

Então pergunto como dar a outra face seja essa de meu rosto, ou de minha mão diante de um mundo que vive dando na nossa cara. Nessa semana mesmo colecionei mais um “ex-colega”, uma pessoa capaz de se aproveitar de um amigo que está atravessando um verdadeiro deserto. Obviamente essa figura nefasta vai ter uma justificativa qualquer para seus atos. Nisso a vida imita arte da Família Soprano espelhada na tela de minha sala.

Cansado de ver o sangue se espalhar na TV mudamos de canal para um pouquinho de Jornada nas estrelas, em um episódio que se desenvolveu com enorme tensão. Só que aqui não me desespero, diferente de admirável mundo novo, a jornada sempre acaba bem, com uma mensagem de que o futuro reserva o melhor de nós. O que é meu valor mais parecido com o que chamam de religião.

Sei que meu caminho é pouco trilhado, admito que é necessária grande força moral para andar pelo mundo só respondendo a minha própria consciência. O que tenho de fé são alguns amigos, isso canalha nenhum tem de verdade, a esses só restam puxa sacos e capangas.

sábado, 29 de agosto de 2026

OUÇA O ÚLTIMO DESEJO DA BOEMIA

A música sempre fez parte de minha vida muito antes de sequer pensar em pegar um violão. Amo muitas canções. Boa parte delas passa pela memória afetiva de minha mãe cantando enquanto fazia o que quer que fosse.

Dessas tantas, pelo menos três pérolas do passado vão povoar esse texto.

Começo o dia e aprendo (ou pelo menos acho que sim) uma coisa linda. Ficou tão bonitinha que resolvo mandar para alguns amigos. Do outro lado do mundo vem a mensagem de um deles (que por acaso toca violão de verdade – e não tem idade para conhecer meu repertório): “que isso meu caro, é autoral?”. Humilde respondo: “quisera, é da Maysa”. Já pensou se eu fosse capaz de realmente escrever algo como... Ouça, vá viver a sua vida com outro bem, pois já cansei de pra você não ser ninguém.

Chego a outras duas músicas que juntas e misturadas me empurram para a visão de que tudo que é dito é profundamente contaminado por um ponto de vista. Vem aqui comigo nessa jornada que atravessa os versos do Noel:

Se alguma pessoa amiga
Pedir que você lhe diga
Se você me quer ou não
Diga que você me adora
Que você lamenta e chora
A nossa separação

E às pessoas que eu detesto
Diga sempre que eu não presto
Que meu lar é o botequim
Que eu arruinei sua vida
Que eu não mereço a comida
Que você guardou pra mim

Onde ele demanda duas versões conflitantes para o fim do relacionamento que devem ser proferidas em conformidade com o caráter do interlocutor.

Por outro lado, a voz do Nelson Gonçalves traz apenas uma versão para o mesmo tema, contada para os amigos de copo:

Acontece que a mulher que floriu meu caminho
De ternura, meiguice e carinho
Sendo a vida do meu coração
Compreendeu e abraçou-me dizendo a sorrir
Meu amor, você pode partir
Não esqueça o seu violão

Então, espero que você me permita contar a versão da suposta amada para sua melhor amiga, texto que não recomendo caso tenha ouvidos muito sensíveis a um palavreado nada ortodoxo: C acredita que o filho de uma vaca teve a pachorra de me dizer que preferia voltar para esbornia do que continuar casado comigo? Aaaahhhmiga! Empurrei o safado escada abaixo e taquei aquele maldito violão na cabeça do cretino. Daí ele já foi rastejando pro bar do Beto e eu fui atrás gritando pra ele casar de uma vez com a turma do bilhar.

Por essas e outras é que essas preciosidades, que passam teimosas, entre os meus dedos, têm me ensinado absurdamente um monte de coisas além de cifras e campos harmônicos. Nunca parei para pensar em qualquer texto com tanto cuidado, nem mesmo tendo lido o Fernão Capelo Gaivota um porrilhão de vezes.

Dedilhar torna até mesmo repetições incontáveis agradáveis, diferente de uma piada cujo efeito dificilmente ultrapassa a reprise, mesmo que se aumente um ponto. Quem quer tocar acaba revisando a letra muito além do óbvio, o que faz entender que Every breath you take não é sobre amor, mas sobre obsessão. Detalhes do Roberto torna o eu lírico em um fantasma que vai assombrar a ex nos momentos mais improváveis, o que é simplesmente desagradável, estragando uma linda música.

Seja como for não acredite em mim. Vá lá você mesmo e ouça o Ouça da Maysa, confira o Último desejo do Noel ou se perca na Boemia. Melhor ainda, escolha sua própria trilha sonora e viaje para onde quiser.

sábado, 22 de agosto de 2026

UNI, DUNI, TÊ

Começo com uma pergunta de criança: “para que devemos colocar um pula, pula no polo?”, perguntas de crianças são verdadeiros tratados filosóficos, o problema é que não paramos muito para pensar, em especial se tivermos uma resposta pronta, do tipo: “para o urso polar”. Outro entrave é que pensamos estar terrivelmente bipolares, onde particularmente percebo não haver simetria.

O pensamento me atravessa a alma, ou pelo menos o cérebro, enquanto ainda não estou lobotomizado. Essa incrível máquina biológica pode ser vista como duas: a direita que controla a esquerda e a esquerda que controla a direita, ou ainda três se considerarmos um tal de corpo caloso que junta as duas. Se a enxergarmos através do tempo elas são várias que foram se sobrepondo em um balé performado pelo crescimento embrionário, que por sua vez conta a história da evolução.

Outra pergunta infantil acaba de me ocorrer: “porque a mamãe jacaré ficou triste com o jacarezinho?”, antes de responder que ele “réptil de ano”, lembre que toda a violência que nos moldou tem um espaço bem-marcado em uma estrutura parecida com uma amêndoa que é responsável por nossas respostas de fuga ou luta. Ou seja, os malucos que dizem por aí existir reptilianos não estão de todo errados, pois isso tudo faz parte de nós apesar de nos definirmos como primatas. Ou seja, a violência e a covardia se retroalimentam se não nos firmarmos como humanos.

Então a grande questão não é perguntar o que veio antes, a resposta certa é o ovo, pois as aves só foram construídas evolutivamente falando muito depois desse tipo de reprodução. E sim perguntar o porquê de estarmos repetindo comportamentos improdutivos, mesmo sabendo que os resultados não são bons.

Estamos cada vez mais sendo forjados para ostentar o ego e buscar respostas individuais, fugindo da percepção que a própria palavra nos põe na condição de sermos indivisíveis da dualidade. Não existe resposta razoável para curar a loucura de um. Se Freire enunciou que ninguém educa ninguém sozinho e que as pessoas se educam em comunhão, ouso dizer que o mesmo ocorre com a loucura.

Fico certo disso quando chego em casa e sou recebido por uma labralata, labradoida saltitante. Ela me oferece a resposta à pergunta quase infantil “você acredita mesmo que o homem veio do macaco?”. Ao latir ela meio que me responde que todos nós temos um ancestral em comum. E assim como ensinou Gonzaguinha eu fico com a pureza da resposta das crianças: “uni, duni, tê, meu preferido é você.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

INIMIGO (M)EU

Prometeram tudo, após tanta estrada, nada.

Disseram que bastava o projeto para um teto.

Quem sabe até mérito, aplausos e medalhas.

Depois de tantas lutas e batalhas.

 

Esqueceram de dizer que outros partiram antes

Inventaram o inferno de Dante.

Então lhe armaram contra o inimigo. Coisa maluca,

Esqueceram de dizer do que mora na sua cuca.

 

Apontavam para um marginal, transviado ou menina.

Enquanto C cai no truque eles roubam a mina.

 

Prometeram uma vida depois

Ao invés de feijão e arroz.

 

Solitário quando devia ser solidário

Fizeram de otário.

 

Jogaram sua chance na roleta

Imagina quem não percebeu a treta?

Na estrada em um jogo de carta marcadas

Anda por aí inconsciente

Plantaram um inimigo em sua mente.

domingo, 16 de agosto de 2026

DOIS CACHORRINHOS


Em homenagem a Cauã Cas o meu ilustrador

Tudo começa com uma piada antiga, contada inúmeras vezes pelo Moacyr Franco: “eu tinha dois cachorrinhos: Grapette e Repete, Grapette morreu...”

Sei que estou sendo repetitititititivo, mas meu primeiro contato com a leitura foram os quadrinhos. Asterix e a turma da Mônica chegaram as minhas mãos muito antes do que o Machado de Assis. Penso apenas que ele não tinha acesso a ilustradores à altura de seu trabalho, ou mesmo recursos suficientes para pôr imagens nos jornais em que escrevia na época. Como canso de repetir. Lá vou eu de novo: estou de volta aos gibis através do Sandman que me trouxe esse presente aqui copiado e colado.

Um pouquinho de contexto: há três figuras mitológicas que fiam, cortam e juntam as vidas de deuses e humanos. Elas são retratadas aqui.  Como o tudo é lindo, vocês podem desfrutar do roteiro e dos desenhos simultaneamente. O problema dessa obra é que as ilustrações são tão peculiares que ficou difícil para mim mergulhar no texto.

Sabe quando você tá de frente para a tela e simplesmente esquece que tudo se trata de uma ficção, então começa a torcer pelo herói ou espera que a tensão sexual entre as personagens deságue em um adiado beijo? É isso que estava me faltando.  Repetindo: as ilustrações são tão espetaculares que eu simplesmente não conseguia ir adiante na trama.

Chega a hora de eu repetir minha própria poesia: “teço um texto que acontece, enquanto o faço em suas linhas me embaraço”. Volto a ela pois a inspiração para o que digito agora, e então, foram justo as Moiras.

Vida e escrita são tecidas em tapetes intermináveis, ambos só fazem sentido quando encontramos coesão e coerência entre pontos e nós. Um dia somos fiados, em outros cortados e finalmente inseridos em uma trama cósmica. Tudo que as três podem nos oferecer é viver enquanto estamos vivos.

A sincronicidade disso tudo ocorre justo quando minha linda namorada começa a aprender tricô. Insatisfeita com o resultado desfaz tudo de noitinha. Aproveito para beijá-la com ternura e digo: “pode parar de refazer, seu Ulisses chegou”.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

SOBRE TRENS, PEQUISA E CINTOS

 

Chego no prédio e aguardo o elevador, logo vejo uma senhora que diz: "ainda bem meu filho, tenho medo de entrar nesse trem sozinha", respondo que ele é mais seguro que a maioria dos outros trens. Por sua vez ela replica: "em BH um já parou entre dois andares".

No mesmo instante reflito: sabe aquela conversa de que números não mentem, mas é possível mentir usando números? O nome disso é estatística. O que, todavia, nos oferece uma chance de compreender tendências.

O oposto é tomar toda a realidade a partir de uma experiência pessoal, o que chamamos de evidência anedótica. Apesar desse nome nem sempre é um fato engraçado, como o que ocorreu com um dos meus melhores amigos. Ele estava dirigindo sem cinto de segurança e, atento percebeu que o carro à sua frente acabara de colidir em um poste que começou a cair. Ao invés de frear ele teve uma incrível presença de espírito e se jogou para baixo do banco. Assim ele viveu para contar a história de como seu carro teve o topo arrancado. Porém esse caso peculiar não deve ser usado para condenar o uso de cintos de segurança.

Penso nisso tudo cada vez que vou explicar o que é probabilidade, média, mediana, moda ou desvio padrão. Digo aos alunos que não dá para quem quer que seja tentar fugir da realidade com o discurso de ser de humanas.

Por exemplo, se você quer fazer ciência política há que entender que a margem de erro em uma pesquisa eleitoral existe devido a ser inviável perguntar a opinião de toda população. isso vai redundar no conceito de amostra. A mesma consideração deve ser feita por um médico que não pode retirar todo o sangue de um paciente para saber qual mal o aflige. Se é farmacêutico tem que entender que todos os efeitos colaterais devem ser listados na bula, entretanto a tal da prevalência vai te dar uma noção da chance deles acontecerem.

Por outro lado, observo que em geral professores vivem defendendo exageradamente a importância do que ensinam. Então devo reconhecer que sendo de exatas meus cuidados com a língua portuguesa não ultrapassam muito o que aprendi no curso de lógica, do ciclo de Krebs pouca coisa ficou em meus neurônios além de fato de ser um processo de troca ou acumulação de energia e ainda que não sei quais são os afluentes da margem direita de qualquer rio.

Em contraponto, passei a entender um pouco de história depois de ler um livro que dizia que as relações de poder podem ser explicadas pela economia. Assim lá vamos nós tentando diminuir a distância entre as pessoas que passam nas ruas e as que frequentam a academia.

Entre discursos antivacina, terraplanistas e charlatães com drogas milagrosas finalmente compreendo que educar não pode entrar em qualquer planilha como somente um custo. Afinal não passamos de primatas desconfiados, cuja vocação para ignorância pode custar a existência de nossa própria espécie.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

PREPARO UMA CANÇÃO


Início de tarde, uma tarde fria, sabe aquela canção que a Elis cantava dizendo o quanto a manhã é maravilhosa antes de ler o primeiro jornal? Essa tarde é justamente o contrário. Jornais lidos, e nem papel eles têm para enxugar as lágrimas.

Talvez eu poderia ter o enorme coração de Carlos, naquela poesia que estampava a nota de cinquenta, só que a nota está tão amarela que nem sequer lembro qual era a unidade monetária. Mesmo assim ainda ecoa: “caminho por uma rua que passa por muitos países”.

Nela encontro meus amigos. Eles passaram alguns dias de amargura e esperavam mais da vida. Já disse isso aqui mesmo, são pessoas cujo valor não é tão óbvio. Eles não têm ouro no bolso nem vivem com Lucy em um céu de diamantes.

Os vejo caminhar para suas próprias Ítacas, preferindo a jornada à desistência. Entre crítica e autocrítica poderiam saber o quanto são relevantes. Eles deveriam saber o seu valor a partir de meu olhar afetuoso.

A cada dia devem lidar com as expectativas de um mundo que lhes indicam topos de montanhas geladas, para no fim das contas entenderem que o único destino possível aponta para o próprio coração. Enfim, espero que cada um deles encontrem afeto. Afeto é revolucionário.

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

O GRÃO DE MOSTARDA

 O GRÃO DE MOSTARDA


Já se foi um bom tempo, mas, acredite se quiser, pratiquei caratê e cheguei à faixa roxa antes mesmo de obter um olho roxo. Aqui cabe usar aquela frase tão comum entre quem se desculpa por ter pisado na bola nas redes sociais: “quem me conhece sabe”. Sabe mesmo: assim como Carlos, nasci para ser gauche na vida. Tenho dois pés esquerdos, duas mãos, não menos sinistras e tudo mais do mesmo jeito. Então, como consegui aprender minimamente os movimentos?

A resposta fica pela fé de meus mestres, que me contaminaram com muita insistência. Assim como o Calvin aí da tirinha, alguém deve acreditar ser capaz de aprender para (...surpresa...) aprender.

Digo mais: penso que todo professor deveria, algum dia, tentar aprender algo para o qual não tem talento nenhum. Assim, passamos a lembrar como pode ser complicado aprender. Obviamente, isso só faz sentido quando há uma relação honesta entre quem quer ensinar e quem quer aprender — mea culpa: sei bem como sabotar aulas quando estou no papel de aluno.

Um dos pontos essenciais nesse processo é a relação entre esses atores, que pode ocorrer em diversos níveis operacionais. Ela vai da tragédia em que ninguém aprende nada. Isso pode ser explicado por um breve experimento: feche os olhos e pense em algo que você não gosta nem um pouco de estudar. Então vou lhe dizer que é muito provável que alguém tenha feito você odiar essa matéria, e essa pessoa certamente era um professor. Também há que se considerar que a sala de aula é um espaço de disputa político-social, onde as relações de poder interferem no binômio ensino-aprendizagem. No extremo oposto dessa loucura, não podemos esquecer que a sala de aula é também um lugar em que semeamos nossas esperanças. Afinal, até mesmo a sociedade que ensina mal ou mal ensina o que quer que seja às crianças em uma escola, ao menos oferece a elas um espaço seguro. Até porque a alternativa, muitas vezes e em diversos lugares, é o lamentável risco da criminalidade, da sexualização precoce ou ainda do trabalho escravo.

Se você leciona é fundamental não esquecer quem é o adulto da relação. O que vamos combinar nem sempre conseguimos.  Novamente mea culpa, mea tão grande culpa (prometo não gastar mais meu parco latim toda vez que isso ocorre - até porque a maioria dos conceitos que aprendi ocorreram lecionando na base do erro e tentativa, como ocorre na vida). Enfim, declaro com a honestidade de quem nem sempre consegui seguir essa regra dourada. Como a sala também é parte da sociedade, acabamos esquecendo de como ser adulto, o que acontece todo santo dia, em diversas situações e em cada cantinho que se possa enumerar. Há meninos de até 60 anos em diversas posições da sociedade, tenham ou não brinquedos caros. Um bom exemplo disso ocorre nas reuniões de pais e mestres se os genitores forem ainda mais infantilizados que os alunos.

Leciono desde os treze anos, o que sempre foi um ganha-pão, até mesmo quando fui bombeiro por 30 anos. Finalmente aposentado, começa a minha aventura como produtor de conteúdo no YouTube. Inicialmente, pensei em continuar trabalhando por ali. Entretanto, logo entendi que, para ter alguma relevância, eu teria que me submeter a algum marqueteiro que iria ganhar o tutu de verdade enquanto eu ralava. Uns 50 vídeos depois, decidi transformar isso em hobby.

Nem sei como produzi mais de 4.700 vídeos com a matemática e a física para ensino médio e vestibulares. Nesse processo, passei por todas as etapas na construção da relação com uma audiência composta de professores, alunos, admiradores e haters. Tanto me dediquei que cheguei a um ponto de observar que essa atividade pode trazer riscos laborais próprios do isolamento e da manutenção do ego.

O tal do algoritmo foi desenhado em um sistema que logo nos trata como cães de Pavlov, entre chicotadas e petiscos. Seja como for, quem está nessa lida acaba se comparando aos números astronômicos reservados aos que estão dispostos a fazer dancinhas. Logo aparece alguém para dizer que algo tão brilhante deveria ser mais valorizado. Em síntese, pense duas vezes se quiser tirar o seu sustento dessa atividade.

Por outro lado, o desafio é maravilhosamente inebriante. O meu, em particular, foi o de dispor todos os assuntos das matérias que se encontram nos vestibulares mais relevantes, indo da aritmética até a introdução ao cálculo integral e diferencial. Isso com duas lógicas tanto antagônicas quanto complementares:

1.    Estruturação da base teórica de cada assunto com as demonstrações das fórmulas, ou ao menos a construção desse conhecimento de um modo minimamente intuitivo.

2.    Resolução de questões dos vestibulares (ENEM, UERJ, CEDERJ...) e provas militares.

O problema é que resolver as questões logo se estabeleceu como um ato insuficiente no apoio ao aprendizado. Afinal, não é o bastante que EU resolva as questões e sim que o DOCENTE seja capaz de fazê-lo. Consequentemente construí paulatinamente um drive que está na própria página do canal e se encontra na linha em azul da imagem abaixo.


   

Desse modo, quem estuda por aqui tem acesso a um material didático minimamente adequado para avançar nos estudos. Ele não se compara à estrutura das escolas e dos cursos particulares; entretanto, vira e mexe tenho a alegria de receber o contato de vários alunos e alunas informando terem atingido seus objetivos, o que é, sem sombra de dúvidas, motivo de comemoração.

Quanto a base teórica, me permitam dizer que alguém que sabe uma fórmula de cor e não sabe para o que ela serve está desperdiçando sinapses e neurônios. Aqui cabe dizer que não é possível aprender algo que não faz sentido. Assunto no qual pretendo me deter um pouco.

Um exemplo clássico é o fosso criado pela linguagem formal, como se alunos e alunas já a dominassem. É algo como dizer: “precipita o aeróstato mais leve que o ar na direção de meus artelhos superiores”, em vez de simplesmente cantar “cai, cai, balão”.

Outro exemplo ocorreu quando um amigo solicitou que eu ajudasse sua filha com a aula de matemática para a 5ª série, o que seria hoje o 6º ano. Ela deveria aprender a calcular a raiz quadrada de um número de três dígitos com a precisão de duas casas decimais. Aqui se estabelece um problema que a levava a decorar o processo sem entender o porquê. Ou seja, o desafio seria treiná-la para passar na prova no dia seguinte. O que torna a experiência no mínimo traumática. E tem como resultado o ódio a matemática e a certeza de que quem não aprende merece usar o chapéu de burro. Observe, entretanto, que o produto notável que torna o processo compreensível só vai ser estudado dois anos depois.

Se você faz parte dos 99% das pessoas que não estão fazendo ideia de como isso se faz, fica aqui um pouquinho. Apesar de não ter a pretensão de lhe ensinar como isso funciona, talvez eu possa lhe oferecer uma intuição de como isso ocorre.

Vamos começar pelo assunto da 7ª série, um produto notável que chamamos de quadrado da soma. Pode até ser que você ainda se lembre da fórmula pelo tanto que sofreu para decorá-la em mil e novecentos e guaraná de rolha. Ela diz assim: quadrado do primeiro, mais duas vezes o primeiro vezes o segundo, mais o quadrado do segundo. Tá bom pra você? Não? E assim?

(a+b)2= a2 +2ab + b2, melhorou?

Seja como for observe a figura:


Como o quadrado vermelho tem lado igual a A e o verde tem lado igual a B, a área da figura completa reúne dois quadrados, o que explica o a2 e o b2 da fórmula. Além disso, cada um dos dois retângulos amarelos tem área igual a A vezes B, o que explica o 2ab.

Só assim podemos COMEÇAR a ensinar o assunto, o que demanda tempo, treino, exemplos práticos (algo como quanto precisamos de piso para cobrir a sala, ou de grama para o jardim), fazer contas, consolidar os conceitos de área e multiplicação. Isso sem contar atenção, afeto, disciplina, organização... ufa, e todas as outras coisas que acontecem em uma sala de aula. Observe qye não estou levando em consideração a possibilidade da atividade não ser interrompida por alguma operação policial, ou disputa de território entre  milícias e facções.

Lembrem que essa conversa aconteceu antes do novo ensino médio retirar tempo de matemática para... bem, essa discussão fica para outra hora.

Enfim, imagina aí o tamanho do desafio que me meti nesses últimos 10 anos, não me pergunte se valeu a pena sob o risco de minha óbvia citação de Fernando Pessoa. Ajudei alguns alunos no caminho, além do mais o canal abriu as portas do Sindicato dos Servidores Municipais de Araruama, onde compareço em alguns sábados e abraço alguns vestibulandos. E isso é mais que suficiente para andar com fé.

Temos pouco tempo para ensinar matemática básica a uma geração que passou por uma série de pequenas tragédias programadas para que se sinta culpada por um destino cheio de frustrações. Isso inclui a educação remota improvisada durante uma pandemia e uma reforma do ensino médio que busca mercantilizar a educação. Canso de ver gente inteligente e funcional afirmar que é incapaz de aprender. Em especial, quando alguém me diz a célebre frase “sou de humanas”, respondo: “sou também; não há nada mais humano do que encontrar padrões, cozinhar, pagar as contas, dirigir ou jogar bola. Tudo isso é matemática”.

Assim, lá vou utilizando o material dourado (já reparou que a tal construção do conhecimento muitas vezes não ultrapassa suas práticas além do primeiro segmento do fundamental?) para lembrar o que é uma fração. Folhas quadriculadas para construir cada uma das fórmulas de cálculo de área,  recortando o papel ou barbante para mostrar quem é o tal do pi. Fico encantado quando vejo nos olhares deles que os seus neurônios estão brilhando e entro em êxtase quando percebo a menina de uma mesa explicando para uma colega o que acabou de entender.

Persevero porque acredito neles, que não têm os mesmos recursos que seus concorrentes. Então, quando alguém informa no grupo de zap que passou, fico com um injustificado orgulho de estar na arquibancada torcendo. E essa é a minha crença do tamanho de um grão de mostarda.




terça-feira, 14 de julho de 2026

CLANDESTINA

Isso é uma metáfora, como todo texto. É o que minha versão de 61 anos diria para outra com apenas 9. Naquela época meu irmão estava preso e eu tinha acabado de ver um desses enlatados made in USA na sessão da tarde. Nele Robin Hood também estava na cadeia por combater as injustiças daqueles que estavam usurpando o poder. Logo chega o frei Tuck dizendo que iria libertá-lo só que a cena não tem nada de espetacular, pois quando o saltimbanco pergunta como o religioso iria fazer isso, a resposta foi longe de cinematográfica. Mostrou uma moeda de ouro, chamou o guarda e disse: eis aqui a chave.

O menino que eu era não conseguia entender o porquê de não levar uma moeda para libertar o Rômulo do mesmo jeito.

Ainda nessa semana saiu de outra cadeia uma informação, dessa vez de uma mansão no capital (desculpem o ato falho – na capital) do país. Nela o preso pôde enviar um bilhete e esse diz para onde as moedas devem ir. Isso é possível por fazer parte de um clã. Dona Maria Augusta só tinha coragem para traçar o seu destino.

Ela acompanhou o filho como quem vai em uma procissão em busca de um milagre. A Fortaleza de Santa Cruz, Ilha Grande, Frei Caneca estavam em seu roteiro. Não tenho ideia de quantas humilhações ela passou somente nas revistas onde quase a viravam do avesso. Só muito mais tarde vim a saber que ela fora responsável por fugas espetaculares e o contato entre quem estava dentro e fora do catre. Como ela não tinha moedas suficientes para libertar ninguém ela usava.... cigarros. A palha era retirada cuidadosamente e substituída por bilhetes minúsculos enrolados e finalmente encimados por parte da palha que voltava.

Olhando agora parece algo pequeno. Contudo, cabe lembrar que teve gente torturada até a morte por muito menos. A segunda parte da missão era mais agitada. Ela teria que chegar aos aparelhos sem ser seguida pelos agentes. Só que ao invés de tentar disfarçar ela simplesmente os cumprimentava nos ônibus que pegava e agradecia a segurança estatal.

Um dia quase tudo deu errado. Ela tinha em suas mãos algo profundamente perigoso naqueles anos de chumbo. Uma arma temida pela repressão. Um livro. Sua ousada tática de esconder usando a luz do dia como disfarce foi finalmente descoberta. Entretanto, ainda tinha duas vantagens: sua habilidade como atriz de circo e o conhecimento do bairro em que foi encurralada. Quando os homi chegaram ela jogou o pacote por cima de uma cerca e fez sinal de silêncio para os moradores. Ao mostrar suas mãos vazias um batimento cardíaco infinito lhe cortou a garganta, mas uma certeza a salvou, lá as pessoas confiavam mais nos fugitivos do que na polícia.

Quanto ao livro, até hoje não sei qual é, mas sei que livros libertam mais que moedas.

domingo, 12 de julho de 2026

REVERSOS E AGUDOS

Dentre um monte de coisas que estão acontecendo estou em compasso de espera para receber a prévia da publicação de meu terceiro livro. No mês passado havia comentado isso  para uma aluna do PREVEST e ela perguntou como faço para escrever tanto. Resisti a resposta óbvia, primeiro para não parecer com uma lacrada (que eu odeio), também para evitar gerúndios desnecessários. Resultado: ao invés de dizer “escrevendo”, decido pela resposta longa: “eu preciso encontrar a ligação entre, pelo menos, três ideias diferentes, assim a tal da coesão e da coerência (que nem sempre me acompanha) vão me indicando a próxima linha”.

Hoje, entretanto, não estou muito a fim de fazer isso, apesar de afim ser na matemática justamente a função de uma reta. Então vou escrever trigonometricamente, deste modo irei me permitir a ir do zero ao infinito com ondas, curvas e rupturas. Quando o texto chegar ao máximo poderei indicar como prossegue uma nau à deriva, onde o controle do leme chega a zero, ou melhor ainda tangenciando as tais coesões e coerências.

Tudo começa quando iria sair de casa para dar aula, de repente quase pulo com noticiário e seus tam, tam, tans indicando a gravidade (quem sabe de Jupiter – 9,8 m/s2 não explicariam o salto que minha mente deu). “Um carro de policiais disfarçados foi alvejado por traficantes na favela do Muquiço”. Nisso um misto quentíssimo de memórias invade meu estômago. Esse era o lugar no qual tantas vezes repeti o bom e velho “tô na área” e alguém sempre respondia “se derrubar é pênalti”, então pensava “que nada é falta de ataque, pois sou goleiro do Palmeirinhas e essa área é minha.

Já estive por aqui para contar como meu irmão me salvou do destino pré-traçado para mim, sendo moleque de beira de favela. Ele simplesmente apresentou a um dos amores de minha vida ao colocar um livro nas minhas mãos. Se há algo que as mentes em geral são capazes de fazer é prever o futuro. O problema é que somos desenhados para a preguiça mental, pois essa máquina incrível chamada cérebro foi concebida inicialmente para nos possibilitar a sobrevivência, o problema é que suas células são aquelas que mais gastam energia em todo o corpo. Tudo isso faz com que estudar seja um ato antinatural biologicamente falando. Ou seja, se você senta a bunda em uma cadeira por horas para resolver questões de análise combinatória ou lê Machado de Assis sua parte primata logo reclama de dores nas costas ou algo parecido. Todavia, quando você decide ser um humano capaz de interferir na realidade ao redor a tal da capacidade de previsão se estende para as relações com os outros humanos que vai encontrar no caminho.

O exemplo que quero deixar aqui poderia ser muito bem georreferenciado pelo tiroteio que chacoalhou minha cabeça e me faz escrever. A diferença é que ocorreu nos idos de 1971, provavelmente em um inverno pois estávamos a beira de uma fogueira assando batatas doces, sem a atual sofisticação de usar papel alumínio. Enquanto as colocávamos em uma lata cheia de água, um dos tantos moleques descalços diz: “Fogueira é bom para batatas” outro responde “também é bom para ter pregos, quando elas apagam os pregos nascem”. Não sou muito de ficar calado, mas sabia que aquela frase era uma armadilha. No nosso grupo quem falasse besteira sempre corria o risco de tomar cascudo de todo mundo.

Quase não dormi naquela noite. Sonhei que algumas bruxas malvadas se transfiguravam em pregos e queriam me prender em uma cruz. Os tais pregos que nasceram na fogueira. Mal acordei e corri para a rua que era o meu domínio. Nada combina mais com uma rua de terra batida do que um pé de moleque. O problema é que ao mexer nas brasas mortas logo vi alguns pregos. Estava pronto para entrar em pânico quando percebi algo que explicava tudo: vi algumas caixas da CEASA prontas para se transformarem nas fogueiras dos dias seguintes.

De volta ao futuro. Ligo o carro que vai me levar para dar aula. Decido não continuar com o noticiário onde política e polícia se misturam no lugar que tanto acolheu as solas de meus pés, onde as valas negras de esgoto a céu aberto anunciavam há tanto tempo que nada iria dar certo. Se é para usar minha cabeça, que não seja para prever um futuro distópico onde todos serão crucificados por pregos nascidos em fogueiras. E sim para ajudar a formar gente capaz de entender que as nuvens não são feitas de algodão.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

MIREM-SE NO EXEMPLO DAQUELAS MULHERES DE... QUALQUER LUGAR DO MUNDO

Chamem de coincidência ou de sincronicidade, estou lendo mais um fascículo da enciclopédia sobre mitologia, justo enquanto as oposições no campo político marcam a separação entre Hermes e Afrodite. Minha mente eurocêntrica (mea culpa) não esconde o fascínio do mundo greco-romano, de todos os heróis nenhum marca essa passagem de bastão entre essas duas culturas melhor do que Eneias. Ao fugir de Troia ele leva o filho e o pai... mas deixa a esposa,

No noticiário pipocam as repercussões da fala do netobaby da ditadura. Material para torcer o nariz não falta e as comparações com os Contos da aia são inevitáveis. Pego o escafandro e as luvas para suportar tamanha nojeira, pois antes de ouvir qualquer opinião tenho o cuidado de ver o original.   Respiro fundo e tudo que ouço ele dizer (desculpem meu francês) é pau no cú de Creusa, repetido de tantas formas diferentes que penso: tem como ser mais explícito? Lá é estabelecido que mulher não sabe votar, especialmente as solteiras, porque as casadas ao menos ouvem seus maridos, permeados entre outros inúmeros paus no cú de Creusa.

Um pouquinho de contexto sobre o tal fundador mítico de Roma que ao fugir de Troia leva seu passado e seu futuro, como já descrito aqui, porém algo de menor importância fica no interior dos muros, sabe quem é? A tal da Creusa.

Sei que era hora de ficar calado, pois um dos princípios básicos dos confrontos é não atrapalhar os adversários quando estão errando feio. O problema aqui é bem outro do que empoderar as filhas de Vênus em geral, mas uma em particular. Sabe quem muito ensina o tal do machismo? As mães que não permitem que meninos lavem a louça pois isso não é coisa de homem. Quando isso é apimentado pelo fanatismo religioso a coisa fica realmente perigosa. Nada contra quem professa qualquer fé, tudo a quem quer substituir uma constituição pelos seus dogmas fundamentalistas (em especial se me proibirem de fazer a barba, fico mais feio que o Capitão Caverna).

Mesmo essa em particular em pouquíssimo tempo irá perceber que seu papel já foi encenado na ficção basta ver o que ocorre com a Serena dos Contos da aia. O que de certa forma não é muito diferente do que já ocorreu com tantas encarceradas nos muros de tantas Troias invadidas por cavalos.

terça-feira, 16 de junho de 2026

SINCERICÍDIO

Também sofro dessa verboragia

Sei que você tem opinião

Quem não tem?

Há ainda aquela frase pronta:

Não concordo contigo, mas defendo o seu direito...

O problema é que chegamos ao paradoxo

Não menos conhecido de que tolerar intolerantes leva ao fim da tolerância.

Não sei ainda qual é a resposta a esse dilema

Mas tracei uma linha (logicamente vermelha).

Sua opinião é racista ou pró tortura?

Tentam me ensinar a perdoar e até querer bem

Então lá vai

Quero você bem... longe.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

CRÔNICAS E AGUDAS

 

Bom dia, aqui é Remo Noronha com mais uma aula... Assim começo a conversa que pingou todo santo dia no canal onde leciono física e matemática. Aqui ficam dois traços de minha pessoa: meu nome e o que tenho feito ultimamente.

Assim são as máscaras que usamos ao longo da vida. Elas nos oferecem a ilusão de dizer quem somos. Já fui aluno e professor, cadete e coronel, pai e filho, maluco e criativo, amante e amado. Juntar uma parte na outra parte até pode não ser arte, porém nos permite ser íntegros diante de nossas contradições.

Mesmo assim, o fato de estar aqui apresentando o terceiro livro que já produzi não me faz escritor, do mesmo modo que ter um lençol amarrado em meu pescoço não me transformou em super-homem. Então, ao saber disso tenho a clareza de que é melhor cair das nuvens do que do terceiro andar, o que em meu caso ultrapassa a frase do Machado, pois além da queda metafórica proposta pelo escritor de verdade já me joguei da torre da Escola de Formação de Oficiais, confiando que outros dezesseis cadetes iam me amparar em algo parecido com uma cama de lona. Cena similar pode ser vista em filmes mudos retratando bombeiros. Assim a persona de velho também me cabe.

O real motivo de estar aqui é que escrever para mim é terapia. Publicar o que escrevo vai ser alvo de outras tantas, onde poderei dar sentido ao ato além da mera vaidade, em um ciclo interminável. Lógica cada vez mais débil pelo reconhecimento de que alguma IA pode fazer bem melhor (ou pelo menos assim me disseram).

Muitas vezes sou convidado para rituais, nessas ocasiões sempre dizem que o Criador tem um propósito para mim. Como não sei qual é o Dele posso declarar sem a mínima vergonha que também não sei o meu. Assim vou por aí tentando aprender um pouquinho mais. Afinal, de todas as máscaras que já usei acho que ainda me permito ser dono de um coração de estudante.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

PRA VOCÊ QUE AINDA VAI NASCER

Há uma palavra que é a resposta que você vai dar quando lhe perguntarem quem você é. Agora que você sabe ler e interpretar as palavras tenho certeza de que você gosta muito dessa palavra. Ela é uma benção. Tanto é assim que antigamente as pessoas perguntavam “qual é a sua graça” ao invés de “qual é o seu nome”.

No que ora chamo de presente ainda estamos cogitando um bocado. Seus avós e tias estão ansiosos para saber qual vai ser essa palavra. Isso não é uma coisa qualquer. Há um livro sagrado que diz assim: “No começo era o verbo”. Posso até estar errado, mas penso o tal verbo está sendo usado com o sentido de palavra. Ou seja, pode ser ação como sugerido, mas também é substantivo, adjetivo ou o que mais você quiser.

Ao mesmo tempo o seu nome não é você. É o que chamamos de persona. Quando usarem essa palavra será uma deixa para atuar nos palcos da vida, onde seu papel vai mudando ao longo do tempo.

Saiba também que você não vai atuar só. Ao ser protagonista de sua vida haverá um monte de atores convidados. Por exemplo, há uma cachorrinha que está curtindo cada instante em que você cresce em uma linda barriga. Tem um cara grandalhão, esperto e um tantinho desengonçado que vai ser capaz de fazer seja o que for por você. Assim que você nascer sua vó também vai estar aí para ajudar os marinheiros de primeira viagem. As cenas de profunda beleza e emoção vão ser parte de sua estrada, se tiver que a atravessar dê a mão, pois haverá alguém ao seu lado.

Voltando a tal palavra. Há uma lista composta de heróis, navegantes, atletas, estadistas, santos, amigos e até mesmo referências a lugares. Seja qual for espero que você goste muito de seu nome. Várias pessoas dirão que foram a inspiração na construção dessa lista, mas não se engane. Essa dádiva foi lhe dada por quem lhe carregou no ventre. Então espero que de todas as bençãos que estão lhe desejando saiba qual é a minha: que você tenha a mesma que eu tive e sua mãe seja sua melhor amiga. Aprenda com ela como lidar com as meninas que vão contracenar contigo. Não há melhor presente do que ser educado por uma mulher sabia.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

RELÓGIO

Há um pouco mais de três anos você me convenceu a aprender a tocar. Garota, essa é mais uma das coisas pelas quais devo lhe agradecer. Não há dia em que o violão não ensine algo novo. Ontem mesmo lembrei de uma linda música em espanhol, que de um modo incrível, já saiu quase que prontinha de meus dedos. Dedilhado de quatro tempos, acordes simples e até mesmo a língua estrangeira resolveram ajudar.

Isso nem sempre acontece. Música necessita tempo para ser precisa. Algumas até mesmo meses ou anos. Então, chega a ser um paradoxo que justo uma canção que fale sobre o implacável movimento dos ponteiros do relógio tenha resolvido chegar na nossa sala de jantar quase sem demandar minuto algum.

Você estava um tanto distraída com todos aqueles bricabraques que constroem o ritual de seu jantar. Mesmo assim pergunta “qual é essa aí?”, só respondo que é uma linda e muito triste. Ao invés de explicar penso que é melhor escrever mais tarde, justo o que faço agora, pois careço de horas suficientes para organizar minimamente o que tenho para lhe falar.

O nome dela é Relógio, e o artista conta a agonia de ver seu amor em um leito de hospital. A pergunta repetida várias vezes é porque simplesmente os ponteiros não param. Essa o Cazuza respondeu, mas isso só iria acontecer em um futuro imperfeito. O tempo não quer saber de ninguém, ele só tem uma amiga, uma tal de entropia, a que vive dizendo que deixada por si só a realidade sempre se mostra ainda mais e mais desorganizada.

Diferente dessa grandeza física você organiza minha vida e a torna melhor em cada segundo que escolhe estar ao meu lado. Até nos dias em que eu senti o mesmo que Roberto Cantoral ao compor essa maravilhosa melodia. Só discordo dele em relação a quais momentos eu pediria para o relógio parar. Certamente seria dentro de um abraço seu. O problema é a cada vez que lá me encontro vamos nos balançar como pêndulos que movimentam os braços do relógio, e voltando ao Cazuza... o tempo não para.

terça-feira, 21 de abril de 2026

UTOPIA

Dentre todas minhas qualidades inúteis há uma que se destaca. Se eu ouvisse uma música umas três vezes quando era moleque ela grudava em minha memória. Minha namorada ainda se espanta quando tiro uma canção vinda de mil novecentos e guaraná de rolha do baú e a canto bem certinha. Como se na minha caixola ela estivesse gravada em alguma fita cassete.

Canso de dizer que só conseguimos aprender algo se esse algo faz sentido. Então isso de saber canções de cor pode até parecer estranho. Talvez a resposta seja o fato de que a música faz sentido por si só.

Para mim a coisa só fica complicada se a letra fica diferente para a mesma música. Um bom exemplo disso é Construção do Chico. Para essa realmente preciso da letra para não embolar o meio de campo. Outra bem complicada era, não menos que, nosso hino (desculpa ai, qualquer um pode cometer alguma cacofonia). Entretanto nesse caso apreendi um macete: primeiro a gente sonha, depois a gente ama.

O fato é que estamos em momentos tão extremados que nos acostumamos a já chegar na conversa buscando um meio termo. Aqui a música velha que quica na cabeça deixando um galo diz sem a menor vergonha “bicho sai do lixo, baratas mostrem suas patas...” Se tornou tão comum ter que lidar com opiniões escrotas ninguém se espanta se a proposta que vem de lá aponta que a escravidão não foi tão ruim assim, que mulher tem que ganhar menos mesmo e ser submissa, prefiro ter um filho morto do que gay ou aceita que mundo é assim mesmo.

Desculpe, não ser nada pragmático. Meu ponto de partida ainda é a utopia. Meu coração ainda sabe de cor, então ainda posso andar pelas ruas cantando um novo tempo apesar dos castigos. Do jeito que a coisa vai corremos o risco de que nem isso poderei fazer em breve. Se assim o for quando eu não puder pisar mais na avenida... o meu anel de bamba entrego a quem mereça usar.

 

 

terça-feira, 14 de abril de 2026

FEITO DE LUZ, ÁGUA E AR

Sabe aquele tipo de exercício no qual você tem que preencher os pontinhos, pontinhos? Nesse a resposta era: fotossíntese, energia solar, vegetais verdes, água, gás carbônico e glicose. Até aí tudo bem. Mas sabe quando me sinto atropelado por um bonde? Quando vejo isso em um livro do primeiro segmento do ensino fundamental.

Vamos aos fatos. A tal da fotossíntese só pôde ser minimamente compreendida com o advento da física moderna. Sabe essa palavrinha que os gurus do youtube cansam de usar, pois é. Para entender isso é necessário saber um pouquinho de física quântica e efeito fotoelétrico.

Ou seja, se você não é um iniciado em ciência básica como a maioria dos seres humanos que povoam esse planeta o texto certinho, completinho, bonitinho e corretamente preenchido vai ser na melhor das hipóteses apenas memorizado. É isso que exigimos de qualquer criança de 10 anos na maioria esmagadora das escolas.

Sabe aquele cara odiado por uma imensa galera, um tal de Paulo Freire? Ele dizia que não se pode alfabetizar um adulto nordestino no espaço tempo que ele viveu usando frases do tipo “vovô viu a uva” e sim começar com palavras como tijolo.

Em síntese não se pode aprender realmente algo que não faz sentido para você. Já estive aqui defendendo a ideia de que não deveríamos fazer provas escritas de inglês nessa fase, evitando ter que explicar que o H de cavalo tem som de erre e do de hora é mudo. Enfim, na ânsia de criarmos escolas com ensino “forte” estamos condenando uma geração inteira ao tédio e a noção que estudar não faz sentido algum.

Quem teve a chance de plantar um feijão em um copo com algodão na infância, experiencia que tristemente me faltou, provavelmente tem uma intuição muito melhor de como funcionam os tais vegetais fotossintetizantes.

Aprender é um ato profundamente humano. Algo que nos afasta do intuito animal de poupar energia de uma parte do nosso corpo que gasta muito mais que todo o resto em termos proporcionais, ou seja, o cérebro. Talvez a resposta seja o afeto, quem sabe assim, de alguma forma temos que aprender a gostar de aprender. O que não deveria ser difícil para um menino cercado por plantas em sua própria casa.

Se mesmo adulto você ainda se sente perdido nos processos de obtenção de energia procedido pelos tais vegetais verdes talvez a poesia possa lhe ajudar um bocado. Para isso ouça o Caetano cantando a música tema do filme índia a filha do Sol em que ele simplesmente diz: “Luz do Sol, que a folha traga e traduz em verde novo”.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

A BANDA

 Em outras condições de pressão e temperatura sua mãe estaria junto, mas ela está tão ao norte que seria bem difícil combinar. Sua madrinha também não estava disponível, ela teve a chance de ver Carmina Burana. Eu mesmo já cheguei de costas, o que chamamos de visita de médico. Nada mais adequado. Até porque estamos um tantinho longe das tais CNTP. Nada no mundo está.

Fui pra sua casa pensado na cacofonia de vozes uma ópera pode ter, aí a metáfora associada ao dizer Opera Mundi é tão óbvia que chega a ser ridícula. Como sempre levei o violão velho de guerra. Logo lhe encontro munido de um cavaquinho.

Ultimamente temos aprendido essa tal de música de modos bem diferentes. Como ela está na sua vida desde cedo chegou a hora de abandonar as partituras e colocar os pés no chão de fábrica. Enquanto isso sigo o caminho oposto recheando meus cadernos com tablaturas. No fim das contas buscamos o mesmo. Uma certa intuição musical que as vezes corre pelos dedos e outras escorre pelas mãos.

Tocamos juntos. Tim Maia, Djavan, Marisa Monte e Noel Rosa. Quem sabe Cartola e Chico aparecem no próximo encontro? Porém o que ficou marcado foi o longo tempo necessário para ajustar os instrumentos. Quem pensa que o cavaquinho é apenas um violão pequeno não poderia estar mais errado. Esse menino nasceu com personalidade própria, e ver ele encostado em sua barriga abraçado em suas mãos comparativamente gigantes me lembrou dessa maravilhosa noção de que cada instrumento tem algo diferente a dizer sobre a mesma música.

Você comenta que leu meu livro todo e sorri quando aponto que roubei descaradamente sua frase que compara cigarros a pregos do caixão, simultaneamente me desculpo de ter errado seu nome ao lhe mencionar em uma de minhas crônicas. Isso é mais um fato que nos aproxima: ter nomes diferentes leva muitas pessoas a, no mínimo, gaguejar na tentativa de pronúncia. Concordamos que só nossas lindas esposas estão proibidas de errar nossos nomes.

Volto para casa com a missão de aprender novas músicas para tocarmos juntos, quem sabe teremos a chance de chamar seu irmão? Não sei muita coisa, porém fica claro que tudo só funciona quando estamos dispostos a nos afinar.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

HERÓI TRÁGICO

 

Ele quebrou na junta

Não uma junta qualquer

Foi tão espetacular que ela passou a ter o nome dele

Qual é seu destino?

O dele era uma encruzilhada

Paz ao lado da família

Glória eterna nos campos de batalha.


Sua mãe fez o que pôde

Uns dizem que o temperou no fogo

Todos os outros que o mergulhou no rio

Porém as próprias mãos dela impediram que as águas sagradas tocassem a junta

A que recebeu uma flexa de Apolo e como já disse seu nome.


A mãe o levou ao Centauro

O escondeu entre as meninas

Pediu que seu primo o acompanhasse

Fica quieto menino, aqui perto do mar lhe protejo.


Não teve os abraços filha do rei que o acolheu entre as suas

A guerreira que o combateu

A filha do rei vencido.


O ódio o cegou ao perder

Primeiro a honra diante de seu próprio comandante

Depois, aquele que tomou emprestada a armadura.


O adversário mais honrado pagaria a conta

Não teve chance

Teve o corpo arrastado

Três dias e três noites sob a reprovação do Deus Sol.


Lembra da encruzilhada?

A escolha já estava feita

Por isso ainda hoje lembramos seu nome.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

TEMPO VERBAL

Aprender inglês mudou um monte de perspectivas que me possuíam tal qual fantasmas. Também confirmaram outras no meu processo de autoconhecimento, por exemplo, vou errar em detalhes em qualquer língua. Não se trata de aprendizado, simplesmente sou quem sou. O mesmo goleiro do Palmeirinhas capaz de fazer defesas de orgulhar qualquer profissional logo depois de ter tomado um frango.

Dentre as coisas que mudaram ficam a vergonha de saber mais da gramática da língua dos outros do que de minha própria. A compreensão de o pouco que sei de português é derivado da comparação com outra estrutura. Ainda mais: o importante é comunicar, até porque, muitas vezes ninguém se entende mesmo. Finalmente o fato de que a tal língua culta é antes de tudo um instrumento de exclusão.

Para não ficar só na teoria, permita-me dar um exemplo. Em inglês dizemos Shakespeare wrote Romeo and Juliet, Patrick Rothfuss has written The name of the wind. Observe que a primeira frase está no passado simples e a segunda no presente perfeito. Ao traduzir vai tudo para o passado. Para poupar de uma longa explicação da diferença dos dois tempos verbais simplesmente apontava para os meus alunos que bastava saber quem ainda está vivo.

Agora me diz com sinceridade se você acha se a obra do Bardo está realmente concluída. Pega aqui na minha mão e vem. Ontem fui ao barbeiro e dei de cara com o Baruc...digo a ele:  Bicho, tinha uma coisa importante para dizer, só não lembro o que é. Se for importante mesmo digo depois. Coisa de velho que nunca lembra.

Só que agora lembro. Estou lendo o livro dele agora mesmo, no presente e é perfeito perguntar ao autor sobre qualquer dúvida. Só que sabendo muito mais de literatura ele já havia explicado que não se pergunta ao autor, sob o risco de perder as poderosas metáforas e suas infinitas interpretações ao se restringir apenas a quem escreveu.

Enquanto isso lá se vai um mês que descobri que vou ser avô. Pego o violão e tenho a ousadia de gravar O filho que eu quero ter de Toquinho e Vinicius. Quando o faço modifico a letra em dois ou três pontos, apesar de ela já ser perfeita (e muito melhor executada) bem antes de minhas interferências. Ou seja, Vinicius vive nas cordas de meu violão.

O tempo seja ele verbal ou essa coisa indecifrável que a física tenta, inutilmente, aprisionar em um espaço é simplesmente luz.

Escrever é um ato coletivo.

sexta-feira, 27 de março de 2026

THE POWER OF LOVE

Enquanto o carro estava sendo revisado decidi almoçar ali pertinho, o nome do restaurante é SIR JOE, com muita coisa boa, principalmente o ambinete.Ou seja, sei bem onde estava e com um pequeno esforço poderia até precisar a hora e o minuto em que me sentei naquela mesa. Em frente vejo uma tv antiga, dessas em que a imagem mal mantém as cores originais, então fui arremessado de volta ao passado vendo um trecho de “De volta para o futuro”.

Sei bem de um monte de problemas técnicos e científicos de viajar no tempo de um jeito diferente do que já o fazemos em cada salto para o milésimo de segundo seguinte. Penso em tempo como uma expressão da entropia, o que mal explicado diz que não dá pra consertar espelho quebrado. Há ainda a questão da continuidade do espaço com o tempo, ou seja, quem garante que o DeLorean vai votar certinho no mesmo lugar? Ou ainda, se o mesmo local em outra referência está justo no centro de uma estrela?

Entretanto, a viagem ocorria dentro da minha cabeça. Essa chegou a um momento bem específico. Era 16 de junho de 1984, 16:30h, em uma festa de São João. Tendo como referencial o próprio planeta com o qual navegamos através do universo sou capaz ainda de dizer o local com precisão de uns 10 metros: Av. Ministro Edgar Romero 492, Colégio Normal Carmela Dutra, encostado na parede do pátio. Foi lá que ela me deu o primeiro beijo.

O curioso foi que assim, meio sem graça, apesar de continuar abraçada comigo começou a observar as formigas que estavam passeando pela parede. Assumo que fiquei bem confuso, será que realmente começamos a namorar? Essa certeza precisou de algumas semanas, andar de mãos dadas comendo minipastéis de queijo. Mesmo assim se há algum momento específico para voltar, sei bem para quando.

De volta para o futuro digo que criamos um casal, construímos duas casas e trabalhamos de montão, passamos por festas e tempestades. Só agora entendo as formigas. Bem diferente de mim, ela vê beleza em cada detalhe, enfim a graça concedida pelas Graças. É a benção que é quase uma dor. Precisei aprender a tocar “Todo o sentimento” para finalmente entender, mesmo que só um pouquinho.

Hoje posso até dizer que não acredito que signo dela combina com o meu. Dizem que quem é de libra tem beleza, elegância e visão para os detalhes como nenhum outro signo. Então ela roubou tudo de mim. Não reclamo, pois junto roubou inteiro todos átrios e ventrículos de meu coração.

quarta-feira, 18 de março de 2026

NÓS 4

 Tenho um amigo que escreve, outro que revisa, outro ainda que lê. De um modo absurdo os três me deram um tiro de canhão, e todos no mesmo dia. Sabe aquela canção de Teresinha de Jesus, pois é. Fui a queda, e ao chão. A vantagem é que do chão a gente não passa. Pelo menos até Dante inventar o inferno. 

Você acredita que um cara que revisou não menos que Drummond teve a pachorra de comparar um texto de Machado com meus versos e reversos. Para tudo e vai lá pegar meu ego que está quicando no teto. 

Mais cedo um amigo que tem mais intimidade com Jesus vem me dizer respeitosamente que entende meu coração agnóstico. A canção que toca no fundo é “se todos fossem iguais a você”. Aqui cabe lembrar de uma referência do passado, torcedor do Olaria, que sempre dizia são onze contra onze, em nenhum outro lugar do mundo um oprimido tem tamanha oportunidade de vencer. Seu Omar, sempre tinha uma palavra ou outra de sabedoria, pois entendia os malucos de verdade. Ele mesmo era maluco antes de se encontrar com sua espiritualidade. Assim compreendia que não cabia a ele julgar os caminhos dos outros.  

Logo de manhã quando vinha o Sol e as gotas de chuva que ontem caiu leio o texto fresquinho de um poeta que tem a gentileza de compartilhar seus escritos comigo, sugiro que recite com “todo sentimento” ou “O céu de Santo Amaro” como pano de fundo. Aqui percebo que ele sorrateiramente roubou minhas palavras.  

Como expressar o amor por quem vê beleza no pouco, no detalhe, até mesmo no invisível?

Meu coração ateu quase acreditou nas suas (seis) mãos. Isso não foi um breve adeus. Foi um venha aqui. Você não está sozinho.