segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

O MAIS IMPORTANTE


Duas canções dão início ao que quero dizer. Uma declara que tudo que move é sagrado e o fruto do trabalho é mais que sagrado. Trabalho que é força e caminho, ou algo parecido com isso, segundo a ciência. Na sociedade essa grandeza escalar está cada vez mais difícil e precária. Outra canção aponta para aquela igreja, moço... Também trabalhei lá.

Todavia, não é sobre trabalho que eu quero falar hoje, é algo menos importante. Entretanto é a coisa mais importante dentre todas as outras que não tem importância alguma, a forma de lazer que me define: o tal do futebol.

Ontem, paguei uma promessa que já estava bem atrasada de ir a um estádio..  Foi para um amigo tão generoso, mas tão generoso a ponto de permitir que eu tratasse seu filho como um neto torto. Assim, lá fomos para a cidade ali ao lado para ver nosso time jogar.

Eu tinha certeza de que a criança de 9 anos estava prestes a viver uma experiência para ser lembrada a vida toda, quase como o primeiro beijo. Antes ligo pro meu moleque esse já com 33, pergunto o que ele lembrava de nossas idas ao Maracanã e São Januário. Isso causou uma daquelas ligações de vídeo intermináveis, dessas que nos deixam de coração partido por ter um amor infinito por alguém tanto mar distante.

Nike nos acompanhou, não simplesmente a nova marca da camisa, mas a própria deusa grega, conhecida pelos romanos como Vitória. É lógico que torci, principalmente para poder dizer para o garoto que ele é pé quente. Deixa para outro dia para ele entender que se ganha, perde e empata. Não fosse assim jamais perderíamos a copa de 82.

Sei bem que para levar esporte a sério deveríamos ter um projeto de país que usasse esse recurso como ação integrada de prevenção de saúde para toda a população. Mesmo assim é importante. É importante para o flanelinha, para o dono do bar, para os trabalhadores temporários, para os meninos da base. E assim foi para mim. O velho esporte bretão me oferece uma incrível perspectiva de ter uma família ampliada.

Voltamos cansados e felizes. Então pergunto para o menino se gostou do jogo, não o de 9, mas o de 40. Ele agradece, era a primeira vez que ele havia posto os pés em um estádio que não fosse para executar a terraplanagem.

E assim é meu time. Um espaço para acolher o coração de negros, operários e principalmente meninos. Vocês sabem bem que enquanto houver um coração infantil... bem, haverá um novo dia.

sábado, 24 de janeiro de 2026

COM O TEXTO

Definitivamente tenho que ler Dostoiévski. Acabei de ouvir, no que seria em outro tempo o rádio, que ele descontruiu a ideia de que o tal mercado tenha uma mão invisível. Pensar que as relações humanas se autorregulam, disse ele, desconsidera no fato de que somos capazes de, seja por ignorância ou incompetência, fazer algo simplesmente estúpido.

Para não apontar dedos vou vestir os sapatos. Basta alguém achar que toca violão para pescar a cifra de uma música em francês e sair cantando do jeito que der. A solução para isso deveria ser fácil, ainda mais tendo poliglotas e tradutores na família. E nem se trata de aprender a língua, bastaria saber que alouette significa cotovia e tentar dissimular uma pronúncia passável. Só que, por hábito, tenho o mau gosto de arriscar soluções criativas. Assim lá vou eu fazer uma versão. Enfim, se todo tradutor é um traidor me sinto à vontade de dizer que tenho aversão a versões.

Ser diagnosticado com altas habilidades não me exime de fazer algo impensável ao menos uma vez por hora, e sair praguejando o quanto sou burro. Imagino que não sou dono exclusivo de um coração cheio dessas contradições. Que atire a primeira caneta quem se achar isento. Ou seja, ser uma anta com alto QI é sequer um paradoxo, é no máximo uma antítese.

Como posso concordar que exagerei ao citar Dostoiévski (até porque só conheço esse cara por terceiros), vou tocar de lado para convidar Gilberto Gil. Aqui peço para que você ponha para tocar A novidade antes de continuar a ler. Ainda mais. Baixe a letra e leia com cuidado. Até mesmo para trazer uma luz diferente ao que digo: Só há uma solução para entender o baiano - o poeta e o esfomeado são a mesma pessoa. Fossem dois personagens seria uma antítese (bem daquelas que o Jesuíta trazia em sua boca de inferno). Pois paradoxal é o Caetano devorar Leonardo DiCaprio.

Aqui chega o momento em que tenho que justificar o primeiro parágrafo. Pois até agora não disse nada que tornasse minha estupidez realmente destrutiva para além de minha reputação. Então digo que basta ser bombeiro para entender que em um escapamento de gás alguém que nem é da guarnição faça algo que possa se arrepender, comissário de bordo para saber que passageiros são imprevisíveis, da área médica para saber que realmente há pessoas antivacina, professor de física para ter que explicar que a Terra é geoide, analista político... bem,  acho que você já me entendeu.

Enfim o que digo é uma metáfora, que pode muito bem ser também uma antítese ou um paradoxo. Assim somos. Simplesmente humanos.

domingo, 11 de janeiro de 2026

CIÚMES DE AMORES, AMIGOS, CÃES E VIOLÕES

 O bardo definiu o ciúme como um monstro de olhos verdes. O que, obviamente não justifica (nem de longe) a ideia de que algum cara tóxico queira tratar uma garota como propriedade. Nem mesmo considero isso como o tal do tempero do amor. Ciúme tem tudo para ser destrutivo. Porém como qualquer sombra o irmão coxo do amor se revela com a força da criatividade.

Do alto de meus 60 fico tranquilo para dizer que cheguei a esse ponto depois de ultrapassar trancos e barrancos, afinal aquela que chamo de meu amor é simplesmente adorável, e na letra dos Beatles que diz And I love her é declarado como todos os efes e erres que se você a conhecesse também a amaria. É lógico, que digo isso depois de várias vezes me interpor entre ela e um engraçadinho qualquer.

Sigo após ouvir que não devemos projetar sentimentos humanos aos animais. O que é mais fácil dito do que vivido. Basta ter uma pinscher de 14 anos e uma labralata, labradoida de 8 para entender que não faz muito bem a saúde da pequenina se eu fizer qualquer gesto de afeto que possa ser detectado pela aquela máquina de correr no quintal.

Vou ainda adiante, e tomo emprestado o espírito de José Mauro de Vasconcelos que dá vida aos seres que vieram das árvores. Assim o digo por ter três violões: O Dada de cordas de nylon, velho de guerra que laranja como é. traz a paciência e a tranquilidade de quem sabe ser um guia espiritual. Logo a ele se juntou o Fênix, um cabra macho pra valer, folk com cordas de aço, sonoro e de presença marcante. Eles até que se entendiam bem, sabendo certinho quais música pertenciam a cada um deles. Então chega em minha vida a Luna, cordas de nylon cantando bossa e mpb como uma verdadeira profissional. Resultado: do nada o Fênix, sem explicação nenhuma decidiu começar a trastejar.

Logo vou levar ele pro Marceu, que certamente, terá alguma explicação técnica para o ocorrido. Entretanto, nada vai me abalar diante da convicção de que o violão grandão teve um ataque de ciúmes.

Nisso ligo para o meu filho para contar o corrido na presença do Rollem, que sem cerimónia nenhuma me rouba o celular e começa a se divertir na linguagem cifrada própria dos engenheiros. Coloco meus óculos escuros para esconder os raios laser verdes espero um pouquinho para conversar com ambos em separado para dizer o que um deveria ser o padrinho do outro. Eles respondem em uníssono: Será uma honra!

É assim que a história se resolve, no laço de meus dois melhores amigos. Afinal a amizade é (ou deveria ser) o amor sem ciúmes.