sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Rei morto

O texto que fiz sobre nostalgia continua ecoando por aí. Sei que fico forçando a barra perturbando meus 12 leitores de sempre. Sou pra lá de chato mesmo, sempre em busca de conexões com as ideias que teimam em brotar no cortex pré-frontal. Além disso me sinto obrigado a lidar com pessoas e suas opinioes. Se a gente deixa essas relações para lá acaba preso em algum casulo. Então três fatos se somaram ao contexto:

1.     Um vídeo de IA mostrando os personagens dos desenhos animados, envelhecidos, se abraçando;

2.     O alcançar dos 60 anos de meu melhor amigo; e

3.     Outro vídeo elogiando as músicas dos anos 80.

Esse terceiro assunto gerou profundo debate com outro grande amigo, com o qual fiquei disputando quem iria mencionar a música mais antiga. Quando chegamos a Mozart demos o assunto por encerrado. Ou pelo menos, esse assunto, pois logo volto a outro que veio no trem do pensamento, ou melhor, emendado que nem cantiga de grilo, como diria minha mãe.

O interlúdio aqui vai ser estabelecido ao oferecer congratulações natalícias, pois é assim que velhos dizem feliz aniversário. Aqui o tema rodeou o cartão de estacionamento recém adquirido e a constatação de que como somos muitos sexagenários por aí com o nosso valor de mercado é depreciado. Pois assim funciona a lei da oferta e da procura.

Voltando a conversa, ao chegar no Amadeus e sua extremadamente bela canção chamada Lacrimosa, o amigo pontuou que ela se referia ao juízo final, e não a partida do pai do autor. Fato que ficou no meu inconsciente desde que vi o filme sobre o compositor.

Aqui fica o mote de minhas escritas: Jamais deixe a verdade atrapalhar uma boa história, pode até ser que ao ver o filme eu estivesse aprisionado pela relação entre o Simba e o Mufasa do Rei Lear, ato falho, Rei Leão. Cansei de ver os olhos de meu filho se desmancharem em lagrimas durante a cena tantas vezes repetida no vídeo cassete.

Agora se agarra aqui na minha mão. Penso que em algum dia da vida de um homem ele é quase obrigado a se despedir da figura paterna para que ele mesmo assuma a coroa, seja essa da Noruega, da música pop (Michael Jackson que o diga), do futebol ou mesmo dos tempos imemoriais representados pelas savanas africanas.

Isso tudo só para dizer que a tal nostalgia pode ser embalada em uma canção de ninar, cantada por um pai que simbolicamente já partiu. E pode até mesmo não ser uma dor se entendermos que, velhos que somos, mudamos de papel. Isso pelo menos enquanto outro rei não venha nos tomar aquilo que lhe é de direito.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

CERTAS CANÇÕES

 Ouço ela, linda, espalhada pelo mundo

Um tenor é tudo que se precisa

Se não há luz nos olhos ela sobra na voz.

O som se apresenta para a guerra ou para o amor

A expressar o que não posso definir.

Então um bemol desce, porém
logo se eleva sustenido.

Seu campo é elétrico, tem gravidade, magnético certamente

Atômico no micro, poderoso ou destrutivo no macro

É, enfim, harmônico.

Sozinho guardo nas mãos o que minha voz não sabe dizer.

Seis cordas não podem prender tal poder indefinidamente

Ele se espalha no ar em um raro momento de beleza

Mesmo sendo aprendiz, artífice

Repetindo o que já disseram criador e criatura.

Nada disso importa, apenas canto baixinho

Junto com o último e estrondoso acorde

Com ti(go).

sábado, 7 de fevereiro de 2026

HERÓIS

O narrador da minha penúltima passagem de Comando cometeu uma pequena gafe que acabou virando uma piada interna. Ao ler a lista de convidados anunciou o nome do Sargento Herói, quando deveria te lido Herdy. Costumo dizer que a única pessoa que não pode errar meu nome é minha linda esposa, filosofia compartilhada pelo amigo que apenas sorriu com o deslize.

Lembro disso quando acabo de perceber que no último texto disse que Perseu era o líder dos Argonautas, quando na verdade deveria ter citado Jasão. Então vamos pôr ordem nessa bagunça:

1.      Hercules fez uma porrada (palavra perfeita para quem bateu até em Marte) de trabalhos, mesmo assim costumamos dizer que foram 12;

2.      Teseu é o cara que fingiu ter tesão por Andrômeda para pegar o touro a unha;

3.      Perseu virou estátua em um montão de lugares, mas não diante da Medusa;

4.      Jasão juntou uma galera e colocou numa galera (desculpe num trirreme), mas quem resolveu a parada mesmo foi Medéia, que no fim das contas teve mais um dia para destruir o passado e o futuro do ingrato;

5.      Ulisses foi o cara que ralou para voltar pra casa;

6.      Aquiles era o do calcanhar de vidro;

7.      Homem Aranha é aquele que não viveria trepado em paredes se conhecesse a Mulher Maravilha; e (meu preferido)

8.      Heitor o cara que se manteve fiel aos seus valores mesmo derrotado.

A lista fica incompleta. Conheci alguns outros que o foram diante de meus olhos. Bombeiros que deram a vida. Professores que mudaram comunidades ao seu redor. Isso só para falar das profissões nas quais fui amador, amante e amado.

Heróis têm mil faces. Vivem no dia a dia. Recusam o chamado, pois não pedem para ser heróis. Atravessam a ponte entre o mundo e o sagrado. Enfrentam monstros que vivem em seus corações. Encontram a sabedoria pelo caminho. Se retiram nas cavernas do inconsciente. Sobrevivem. Voltam para mostrar o que aprenderam para o mundo. Ou seja, são pessoas como eu e você.

O problema está no fato de que não percebemos como nossas vidas são extraordinárias. Então, vivemos em busca de uma metáfora estrondosa e passeamos por aí sem notar que somos protagonistas de nossa própria jornada.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

MAIS PALAVRAS

Volto ao tema de “aí, palavras, aí, palavras que estranha potência a vossa”, verso que Cecília Meireles roubou de dentro de meu coração. Já estive aqui para diferenciar contemplar de considerar, o que aprendi com Junito de Souza Brandão espantosamente escrito quando o assunto era mitologia. Enfim, venho refletir (palavra que poderia ser protagonista aqui mesmo) sobre a diferença entre saudade e nostalgia. Prometo não me agarrar ao clichê de que saudade só existe em português, até porque nenhuma palavra consegue ser traduzida plenamente por traidores.

Se você não acredita em mim procure em sua língua duas palavras que dizem a mesma coisa, com o mesmo sabor e textura. Ou seja, estar exausto não é o mesmo que estar cansado. Se você tem sua dor ao lembrar, pense bem se é uma algia qualquer; ou se trata daquelas que lhe dão vontade de construir uma máquina do tempo.

Como experiência não pode ser transferida talvez eu esteja errado. Os anos passados não eram tão bons assim. Se você sente saudades do tempo em que formava fila para cantar algum hino antes de entrar na sala, provavelmente esqueceu há muito que achava aquilo um tremendo saco. Aqui fica o desafio de perguntar se você realmente sabe o hino. Não se trata apenas de cantar com as palavras corretas, o que já é difícil. Mas entender que a pintura de Pedro Américo que transforma em imagem o mesmo texto nunca existiu. Enfim, não quero acusar ninguém de ter faltado a aula de história, mas apontar que a história é contada por alguém que pode dizer o que deveria ou não virar livro texto.

Imagino que o futuro que se posta ali na esquina é assustador. A distopia deixou de ser um subgênero literário e passou a ser o prato do dia. Nos cabe, entretanto, entender que a volta ao passado é proposta justo por quem quer moldar o futuro.

Aqui a palavra é reboco. Em um desses vi a nave Argo pintada em um afresco (onde a tinta é misturada ao reboco). O problema é que ela tinha características de uma nau. Ou seja, quem falou de Jasão no século XVI sabia que uma nave construída para atravessar o Mediterrâneo não teria a mesma força simbólica de outra capaz de singrar o Atlântico. Assim a nostalgia do tempo dos heróis poderia se transformar na saudade do que nunca existiu.

Tudo isso quicou na minha cabeça quando vi um carro com o “reboco” caindo aos pedaços sendo rebocado. Assim fico imaginando para onde vão levar aquela Brasília.