terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

MAIS PALAVRAS

Volto ao tema de “aí, palavras, aí, palavras que estranha potência a vossa”, verso que Cecília Meireles roubou de dentro de meu coração. Já estive aqui para diferenciar contemplar de considerar, o que aprendi com Junito de Souza Brandão espantosamente escrito quando o assunto era mitologia. Enfim, venho refletir (palavra que poderia ser protagonista aqui mesmo) sobre a diferença entre saudade e nostalgia. Prometo não me agarrar ao clichê de que saudade só existe em português, até porque nenhuma palavra consegue ser traduzida plenamente por traidores.

Se você não acredita em mim procure em sua língua duas palavras que dizem a mesma coisa, com o mesmo sabor e textura. Ou seja, estar exausto não é o mesmo que estar cansado. Se você tem sua dor ao lembrar, pense bem se é uma algia qualquer; ou se trata daquelas que lhe dão vontade de construir uma máquina do tempo.

Como experiência não pode ser transferida talvez eu esteja errado. Os anos passados não eram tão bons assim. Se você sente saudades do tempo em que formava fila para cantar algum hino antes de entrar na sala, provavelmente esqueceu há muito que achava aquilo um tremendo saco. Aqui fica o desafio de perguntar se você realmente sabe o hino. Não se trata apenas de cantar com as palavras corretas, o que já é difícil. Mas entender que a pintura de Pedro Américo que transforma em imagem o mesmo texto nunca existiu. Enfim, não quero acusar ninguém de ter faltado a aula de história, mas apontar que a história é contada por alguém que pode dizer o que deveria ou não virar livro texto.

Imagino que o futuro que se posta ali na esquina é assustador. A distopia deixou de ser um subgênero literário e passou a ser o prato do dia. Nos cabe, entretanto, entender que a volta ao passado é proposta justo por quem quer moldar o futuro.

Aqui a palavra é reboco. Em um desses vi a nave Argo pintada em um afresco (onde a tinta é misturada ao reboco). O problema é que ela tinha características de uma nau. Ou seja, quem falou de Jasão no século XVI sabia que uma nave construída para atravessar o Mediterrâneo não teria a mesma força simbólica de outra capaz de singrar o Atlântico. Assim a nostalgia do tempo dos heróis poderia se transformar na saudade do que nunca existiu.

Tudo isso quicou na minha cabeça quando vi um carro com o “reboco” caindo aos pedaços sendo rebocado. Assim fico imaginando para onde vão levar aquela Brasília.

2 comentários:

  1. Palavras são palavras nada mais q palavras, mas elas tem força

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  2. I – DEFESA DA SAUDADE

    (Memorial em favor da Parte Autora, pessoa jurídica de direito imaterial, mas de existência incontestável)

    Excelentíssimo Juiz do Tempo,

    Comparece à presença deste Juízo a Saudade, instituto antigo, de raízes profundas na experiência humana, para repelir as acusações que lhe são injustamente lançadas por confusão conceitual com sua prima mais vistosa, a Nostalgia.

    A Saudade não falsifica fatos, não adultera provas, não reconstrói o passado com retoques indevidos. Seu método é rigoroso: trabalha com lembranças tal como foram vividas, ainda que imperfeitas, dolorosas ou mal resolvidas. Se dói, é porque é verdadeira. Se aperta, é porque existiu.

    Não promete retorno, não vende futuros pretéritos, não acena com máquinas do tempo. Limita-se a testemunhar. E testemunha com emoção, sim, mas sem dolo.

    A Saudade reconhece que o hino era desafinado, que a fila era longa, que o recreio acabava cedo. Ainda assim, insiste em lembrar. Não para absolver o passado, mas para humanizá-lo.

    Por tudo isso, requer seja reconhecida como instituto legítimo da memória, merecedora de respeito, ainda que cause incômodo, pois todo incômodo honesto é pedagógico.

    Termos em que,
    Pede deferimento, ainda que com olhos marejados.

    II – DEFESA DA NOSTALGIA

    (Contestação apresentada pela Parte Ré, com pedido subsidiário de compreensão histórica)

    Meritíssimo,

    A Nostalgia vem a Juízo não para negar suas inclinações estéticas, mas para contextualizá-las. Acusá-la de embelezar o passado é tão justo quanto acusar um advogado de escolher palavras melhores que os fatos.

    A Nostalgia não mente: interpreta. Atua no campo simbólico, onde a exatidão cede espaço à necessidade humana de sentido. Quando o futuro se mostra ameaçador, alguém precisa oferecer abrigo ainda que decorativo.

    Se pinta navios maiores do que eram, não o faz por fraude, mas por sobrevivência emocional. Não se trata de negar a história, mas de torná-la habitável. Onde a Saudade sangra, a Nostalgia anestesia. Onde uma lembra, a outra consola.

    Ademais, registre-se: muitos dos que hoje acusam a Nostalgia recorrem a ela em silêncio, nos domingos vazios, nos álbuns antigos e, outrossim, assim como vós, meu nobre Professor, com seu violão e suas músicas que “já não se fazem como antes”.

    A guisa de todo o exposto, Requer a parte Nostálgica que seja reconhecida não como falsária, mas como instituto terapêutico da memória coletiva, útil em doses moderadas e perigosíssima apenas quando convertida em política pública.

    Nesses termos,
    A mercê de sua compreensão entranhada pela ternura e alguma indulgência poética, concluo que:

    A Saudade tem razão nos fatos.
    A Nostalgia, na retórica.
    E o ser humano… segue condenado a eternamente necessitar das duas.

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