segunda-feira, 2 de março de 2026

Dois meninos que roubavam livros

Como tenho escrito bastante corro o risco de ser repetitivo, mas lá vai: só vou acreditar na tal meritocracia quando todos tiverem acesso a pão e livros. Como cheguei a essa conclusão? Fácil responder, em minha casa havia um menino sempre tinha um livro ou dois a disposição. Ele também sabia ser repetitivo quando necessário, entre suas frases prediletas vou pinçar duas: “livro quem empresa é bobo, quem devolve é otário”, “a gente tem que ler de tudo desde panfleto até bula de remédio”.

Nesse momento você pode pensar que o Maninho era uma espécie de vilão, mas é justo o contrário, em minha infância ele era o meu herói improvável. O menino que se queimou todo para fazer café enquanto o resto da família ainda nem havia acordado. O rapaz que incentivava todos a ler. O homem que faz da luta pela justiça social sua bússola ética.

Tentando seguir o exemplo até hoje leio temas que não me agradam o que passa por tarot, autoajuda e horoscopo. Afinal como discordar de algo que você nunca leu. E foi assim que um livro que analisava os contos infantis caiu em minhas mãos, e como estamos falando de improbabilidades isto se revelou em uma chave incrível para a interpretação de textos literários.

Em resumo a ideia é a seguinte: pegue um arquétipo qualquer, por exemplo a figura paterna, e o dividida entre o lobo e o lenhador. Assim podemos criar uma trama onde luz e sombra estejam em movimento e tenham a chance de dialogar. A partir desse ponto passei a ler de um modo totalmente diferente, o que por sinal também serve para interpretar sonhos.

Um bom exemplo disso é a série sobre um médico genial e irônico; cuja personalidade marcante lembra demais meu irmão. Quem vê logo de cara, entende logo que o nome do médico é referência ao Homes. Até aí é elementar, meu caro Wilson, desculpe, Watson. O problema está em como mostrar para o público como uma mente analítica funciona por dentro. Chega aqui a hora de pegar uma espada literária para dividir o personagem em detetive e auxiliar, ou oncologista e o clínico. Assim o que se passaria só na mente vira diálogo.

Aqui chegamos no capítulo final de House , quando algo incrível acontece. Por um motivo que não lembro, lá se vão os dois melhores amigos em uma road trip. É isso pensei. Assim eles deixam de ser indivisíveis do duo. É para isso que serve a literatura. Finalmente entendi que quando essa luz se acende percebemos que nossos textos são coletivos.

Compreendo isso justo quando meu melhor amigo cumpre a parte dele, pega o carro vai para o sul do mundo, algo que combinamos fazer juntos. Então esse texto foi roubado diretamente da mente de um cara que vai encarrar essa jornada individualmente.