Definitivamente tenho que ler Dostoiévski. Acabei de ouvir, no que seria em outro tempo o rádio, que ele descontruiu a ideia de que o tal mercado tenha uma mão invisível. Pensar que as relações humanas se autorregulam, disse ele, desconsidera no fato de que somos capazes de, seja por ignorância ou incompetência, fazer algo simplesmente estúpido.
Para não apontar dedos vou vestir os sapatos. Basta alguém achar
que toca violão para pescar a cifra de uma música em francês e sair cantando do
jeito que der. A solução para isso deveria ser fácil, ainda mais tendo
poliglotas e tradutores na família. E nem se trata de aprender a língua,
bastaria saber que alouette significa cotovia e tentar dissimular uma pronúncia
passável. Só que, por hábito, tenho o mau gosto de arriscar soluções criativas.
Assim lá vou eu fazer uma versão. Enfim, se todo tradutor é um traidor me sinto
à vontade de dizer que tenho aversão a versões.
Ser diagnosticado com altas habilidades não me exime de
fazer algo impensável ao menos uma vez por hora, e sair praguejando o quanto
sou burro. Imagino que não sou dono exclusivo de um coração cheio dessas
contradições. Que atire a primeira caneta quem se achar isento. Ou seja, ser
uma anta com alto QI é sequer um paradoxo, é no máximo uma antítese.
Como posso concordar que exagerei ao citar Dostoiévski (até
porque só conheço esse cara por terceiros), vou tocar de lado para convidar Gilberto
Gil. Aqui peço para que você ponha para tocar A novidade antes de continuar
a ler. Ainda mais. Baixe a letra e leia com cuidado. Até mesmo para trazer uma
luz diferente ao que digo: Só há uma solução para entender o baiano - o poeta e
o esfomeado são a mesma pessoa. Fossem dois personagens seria uma antítese (bem
daquelas que o Jesuíta trazia em sua boca de inferno). Pois paradoxal é o Caetano
devorar Leonardo DiCaprio.
Aqui chega o momento em que tenho que justificar o primeiro
parágrafo. Pois até agora não disse nada que tornasse minha estupidez realmente
destrutiva para além de minha reputação. Então digo que basta ser bombeiro para
entender que em um escapamento de gás alguém que nem é da guarnição faça algo que
possa se arrepender, comissário de bordo para saber que passageiros são imprevisíveis,
da área médica para saber que realmente há pessoas antivacina, professor de
física para ter que explicar que a Terra é geoide, analista político... bem, acho que você já me entendeu.
Enfim o que digo é uma metáfora, que pode muito bem ser também
uma antítese ou um paradoxo. Assim somos. Simplesmente humanos.
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