segunda-feira, 13 de abril de 2026

A BANDA

 Em outras condições de pressão e temperatura sua mãe estaria junto, mas ela está tão ao norte que seria bem difícil combinar. Sua madrinha também não estava disponível, ela teve a chance de ver Carmina Burana. Eu mesmo já cheguei de costas, o que chamamos de visita de médico. Nada mais adequado. Até porque estamos um tantinho longe das tais CNTP. Nada no mundo está.

Fui pra sua casa pensado na cacofonia de vozes uma ópera pode ter, aí a metáfora associada ao dizer Opera Mundi é tão óbvia que chega a ser ridícula. Como sempre levei o violão velho de guerra. Logo lhe encontro munido de um cavaquinho.

Ultimamente temos aprendido essa tal de música de modos bem diferentes. Como ela está na sua vida desde cedo chegou a hora de abandonar as partituras e colocar os pés no chão de fábrica. Enquanto isso sigo o caminho oposto recheando meus cadernos com tablaturas. No fim das contas buscamos o mesmo. Uma certa intuição musical que as vezes corre pelos dedos e outras escorre pelas mãos.

Tocamos juntos. Tim Maia, Djavan, Marisa Monte e Noel Rosa. Quem sabe Cartola e Chico aparecem no próximo encontro? Porém o que ficou marcado foi o longo tempo necessário para ajustar os instrumentos. Quem pensa que o cavaquinho é apenas um violão pequeno não poderia estar mais errado. Esse menino nasceu com personalidade própria, e ver ele encostado em sua barriga abraçado em suas mãos comparativamente gigantes me lembrou dessa maravilhosa noção de que cada instrumento tem algo diferente a dizer sobre a mesma música.

Você comenta que leu meu livro todo e sorri quando aponto que roubei descaradamente sua frase que compara cigarros a pregos do caixão, simultaneamente me desculpo de ter errado seu nome ao lhe mencionar em uma de minhas crônicas. Isso é mais um fato que nos aproxima: ter nomes diferentes leva muitas pessoas a, no mínimo, gaguejar na tentativa de pronúncia. Concordamos que só nossas lindas esposas estão proibidas de errar nossos nomes.

Volto para casa com a missão de aprender novas músicas para tocarmos juntos, quem sabe teremos a chance de chamar seu irmão? Não sei muita coisa, porém fica claro que tudo só funciona quando estamos dispostos a nos afinar.

2 comentários:

  1. Perdi meu grande amigo Rômulo K. R. e com ele foi uma parte de mim que o tempo, até hoje, não conseguiu e nem vai recompor.

    Amizades como a nossa não cicatrizam… e nem devem, pois ao menos para mim, lembra-lo era como se ele estivesse comigo.

    Mas, diferente do mito fundador, aqui foi Remo, meu amigo e eterno professor que permaneceu, escolhendo um trono muito mais perene: a cátedra.

    E .... permaneceu grande ao me incentivar à retornar aos
    braços de um amor antigo... que por tempos talvez adormecido, tenha-me faltado a FÉ (encontrada em ti) para trazer-me de volta vida por meio das minhas palavras e em consequência, me direcionou a tão almejada PAZ de espírito.

    Ambos foram agraciados por uma inteligência rara, ambos esquerdistas, um Tricolor o outro Vascaino; um engenheiro que apesar de Doutor não se limitava aos escritórios, tinha um raro prazer em acompanhar seus projetos in loco, de tantas rodovias que projetou Brasil a fora, não porque estava no contrato apenas por amor à sua vocação.

    E, Remo, Militar por farda, professor por essência ou talvez o contrário.

    Rômulo se foi. Remo ficou. E, ao contrário da lenda, não houve tragédia entre irmãos ... houve sim a vida, com suas escolhas e seus desígnios, levando um e deixando o outro como testemunha do tempo.
    Hoje, é Remo quem observa. Quem entende. Quem aparece no próximo encontro. Quem segue contando a história. Até porque porque, no fim, são os contadores de histórias que transformam homens em algo maior do que foram em vida. Sem eles, até os grandes se perderiam na poeira dos dias.

    E talvez seja isso: entre quem parte e quem permanece, há sempre alguém responsável por manter acesa a chama.

    Porque, ao menos para mim, a narrativa é ainda maior do que o próprio herói.

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