Dentre um monte de coisas que estão acontecendo estou em compasso de espera para receber a prévia da publicação de meu terceiro livro. No mês passado havia comentado isso para uma aluna do PREVEST e ela perguntou como faço para escrever tanto. Resisti a resposta óbvia, primeiro para não parecer com uma lacrada (que eu odeio), também para evitar gerúndios desnecessários. Resultado: ao invés de dizer “escrevendo”, decido pela resposta longa: “eu preciso encontrar a ligação entre, pelo menos, três ideias diferentes” assim a tal da coesão e da coerência (que nem sempre me acompanha) vão me indicando a próxima linha”.
Hoje, entretanto, não estou muito a fim de fazer isso,
apesar de afim ser na matemática justamente a função de uma reta. Então vou
escrever trigonometricamente, deste modo irei me permitir a ir do zero ao infinito
com ondas, curvas e rupturas. Quando o texto chegar ao máximo poderei indicar como
prossegue uma nau à deriva, onde o controle do leme chega a zero, ou melhor
ainda tangenciando as tais coesões e coerências.
Tudo começa quando iria sair de casa para dar aula, de
repente quase pulo com noticiário e seus tam, tam, tans indicando a gravidade
(quem sabe de Jupiter – 9,8 m/s2 não explicariam o salto que minha
mente deu). “Um carro de policiais disfarçados foi alvejado por traficantes na
favela do Muquiço”. Nisso um misto quentíssimo de memórias invade meu estômago.
Esse era o lugar que no qual tantas vezes repeti o bom e velho “tô na área” e
alguém sempre respondia “se derrubar é pênalti”, então pensava “que nada é
falta de ataque, pois sou goleiro do Palmeirinhas e essa área é minha.
Já estive por aqui para contar como meu irmão me
salvou do destino pré-traçado para mim, sendo moleque de beira de favela. Ele
simplesmente apresentou a um dos amores de minha vida ao colocar um livro nas
minhas mãos. Se há algo que as mentes em geral são capazes de fazer é prever o
futuro. O problema é que somos desenhados para a preguiça mental, pois essa
máquina incrível chamada cérebro foi concebida inicialmente para nos
possibilitar a sobrevivência, o problema é que suas células são aquelas que
mais gastam energia em todo o corpo. Tudo isso faz com que estudar seja um ato antinatural
biologicamente falando. Ou seja, se você senta a bunda em uma cadeira por horas
para resolver questões de análise combinatória ou lê Machado de Assis sua parte
primata logo reclama de dores nas costas ou algo parecido. Todavia, quando você decide
ser um humano capaz de interferir na realidade ao redor a tal da capacidade de
previsão se estende para as relações com os outros humanos que vai encontrar no
caminho.
O exemplo que quero deixar aqui poderia ser muito bem georreferenciado
pelo tiroteio que chacoalhou minha cabeça e me faz escrever. A diferença é que ocorreu
nos idos de 1971, provavelmente em um inverno pois estávamos a beira de uma
fogueira assando batatas doces, sem a atual sofisticação de usar papel alumínio.
Enquanto as colocávamos em uma lata cheia de água, um dos tantos moleques descalços
diz: “Fogueira é bom para batatas” outro responde “também é bom para ter pregos,
quando elas apagam os pregos nascem”. Não sou muito de ficar calado, mas sabia
que aquela frase era uma armadilha. No nosso grupo quem falasse besteira sempre
corria o risco de tomar cascudo de todo mundo.
Quase não dormi naquela noite. Sonhei que algumas
bruxas malvadas se transformavam em pregos e queriam me prender em uma cruz. Os
tais pregos que nasceram na fogueira. Mal acordei e corri para a rua que era o
meu domínio. Nada combina mais com uma rua de terra batida do que um pé de moleque.
O problema é que ao mexer nas brasas mortas logo vi alguns pregos. Estava pronto
para entra em pânico quando percebi algo que explicava tudo: vi algumas caixas
da CEASA prontas para se transformar nas fogueiras dos dias seguintes.
De volta ao futuro. Ligo o carro que vai me levar para
dar aula. Decido não continuar com o noticiário onde política e polícia se misturam
no lugar que tanto amei, a despeito das valas negras de esgoto a céu aberto
anunciarem há tanto tempo que nada iria dar certo. Se é para usar minha cabeça,
que não seja para prever um futuro distópico onde todos serão crucificados por
pregos nascidos em fogueiras. E sim para ajudar a formar gente capaz de
entender que as nuvens não são feitas de algodão.
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