quinta-feira, 21 de junho de 2018

IRMÃO SOL, IRMÃ LUA

Onde quer que seus passos,
Seus compassos,
Seus espaços lhe levarem,
Me leva contigo
Mesmo quando eu tiver partido.

No momento em que lhe disser não,
Seja o mundo ou a razão.
Não esqueça de quem muito lhe ama
E sempre será de seu coração a chama.

Assim como tenho uma estrela guia
Que seja eu, seu brilho, no raiar do dia.
Se mesmo assim lhe for pesada a labuta
Lembre que em seu sangue borbulha a luta.



terça-feira, 12 de junho de 2018



MEU AMIGO VAI CASAR

Conheci Filipe na academia. Um dia, ele estava usando uma camiseta que tinha estampado EDUCAÇÃO FÍSICA. Fiz uma selfie nossa e com a outra mão tapei a palavra educação e escrevi na postagem: minha física não tem educação.
O que só era para ser engraçado, acabou nos definindo um bocado. O Filipe parece ser da minha família, só que é bem mais educado do que eu. Canso de dar broncas nele dizendo que ele devia bater de frente aqui, falar uma besteira ali ou arrumar uma confusão acolá.
Paciente e gentil, somente decide me avacalhar quando está no papel de meu personal trainer. Só assim o ouço gritando, mas são coisas como: Vai, vai, vai! Mais uma! Respira. Vamos nessa! E quando faço uma defesa legal, a minha preferida: valeu garoto!
Então, não é difícil entender o porquê de a Jéssica o ter escolhido. Cabe a elas essa escolha, pois são mais sábias. Sim Filipe, essa é minha primeira dica, trate ela como uma joia rara e lembre sempre que essa história de submissão ou de sexo frágil é tudo papo furado de quem não tem o que dizer. Elas são melhores do que nós. E se fomos feitos primeiro como é dito no Livro, é porque o protótipo sempre vem antes do produto final e melhor acabado.
O tempo passou e assim nossa amizade foi crescendo entre defesas e frangos, aulas de inglês e discussões filosóficas, até o ponto de você me escolher para padrinho nesta festa que será, certamente, inesquecível para nós. Como cereja de um bolo de casamento, a data coincide com a do primeiro beijo que a Aninha me deu. Como você bem sabe, vivo todo arranhado, mas não largo minha gata. Assim como espero que você nunca vá se cansar dos arranhões da sua.
Diferente dos padrinhos de batizado, conhecidos como godfathers, os padrinhos de casamento são nomeados como best men (fala sério – melhor homem para quem, cara pálida?). Uma distinção que não ocorre em português. Mas isto é muito significativo, posto que enquanto aqueles têm o dever sagrado de substituir os pais em casos extremos, cabe a estes beber que nem peixes e falar um monte de besteiras no dia do casamento. Porém, como não sei se vou estar sóbrio o suficiente, decidi escrever isto aqui para evitar de falar na hora H. Fica sempre o temor de tropeçar no véu de sua linda noiva, por fogo no bolo ou qualquer outro desastre que sou bem capaz de causar.
Sei que no final me caberia falar algo edificante e doce, para fechar com uma conclusão retumbante. Aqui entraria em cena mais uma vez o velho professor de inglês. Neste momento iria lhes lembrar mais uma vez que a palavra casamento pode ser traduzida de duas formas diferentes, como wedding ou marriage. Mais uma vez uma distinção que não ocorre na língua de Camões.
Wedding se refere a festa, que tenho certeza vai ser linda a despeito de todas as suas preocupações, das quais não cansei de ouvir nos últimos dias e ainda das ausências e dos contratempos. Mas lembre que muitas pessoas amadas estarão aqui para abençoar uma união feliz e duradoura. Será um dia de brilho e gala. Será uma festa, mas não esqueça que basta ter amigos como vocês por perto que já é uma festa.
Marriage se refere ao dia a dia. Se você fosse um cara de exatas e sua física não tivesse educação como a minha, eu poderia lhe dizer que relacionamentos são como senoides ou movimentos ondulatórios. Então, surfe nas cristas e torne os vales curtos e rápidos.
Finalmente é aquela hora que eu devo lhe dar um conselho muito importante: dê sempre razão à Jéssica, nunca esqueça quem é que manda e faça o seu papel de fingir ser mais o forte, caso um dia a barra pesar. Nunca deixe ela ter dúvidas de que ela é a pessoa mais importante de sua vida, construa uma família e jamais deixe que ela sequer pense que um mero cabelo branco vai diminuir o seu amor.
Nos 45 do segundo tempo, apesar do wedding ser super legal o que conta mesmo é o marriage.
Para a Jéssica fica apenas uma lembrança, de que foi o Filipe que me escolheu para dizer estas besteiras, mas que foi ela que escolheu o melhor homem.

Remo Noronha

segunda-feira, 11 de junho de 2018


Sexto GI
Somos bombeiros. Bravos Guardiões
de Nova Friburgo, em meu coração
Com um brado heroico vou o fogo exterminar
Vidas alheias e riquezas a salvar.

Minha relação com o quartel de bombeiros de Nova Friburgo começou com um desses acasos incompreensíveis. O fato é que eu havia sido o terceiro colocado de minha turma e isto me oferecia um amplo direito à escolha. Sabia que os dois primeiros queriam ir respectivamente para o Meier e Copa. Então, passei o ano inteiro me preparando para servir na Barra, onde estava o Grupamento de Busca e Salvamento.
Na semana seguinte à formatura recebemos uma folha na qual deveríamos escolher três quartéis e a minha segunda opção foi Jacarepaguá. Mas... o que mais iria escolher? Ora, eu acabara de vir de um fim de semana INCRÍVEL em Lumiar, com direito a música de Beto Guedes e tudo. Então, perguntei a um amigo qual era o quartel mais próximo. Neste momento em que você está lendo, fica claro que nenhuma das unidades da zona oeste abriram vaga.
Hoje, todavia, não quero contar as histórias do que fiz lá. Como canso de dizer, minhas derrotas falam de mim muito mais do que as minhas vitórias.
Este filme foi remasterizado por um zap-zap do Grandini. Lembramos que um dia eu lhe redigi um baita elogio que não deixaram publicar no boletim. Fiquei puto naquela época, mas hoje lembro da história com doçura. Afinal, foi mais um motivo para comemorar o fato de que bombeiros como ele devem ser elogiados sempre.
Também não pude ser campeão das provas profissionais com a minha tropa no ano em que eu era aspirante e, portanto, responsável pela instrução. E pé frio que sou... resumindo, voltamos com a taça de prata. Naquele dia, eu falei para o meu comandante que voltaria para buscar a de campeão no ano seguinte. Só que, por uma dessas voltas do destino, fui transferido para outra seção, mas pelo menos tive o prazer de ver meu time dar a volta por cima.
Também não podia modificar o salário deles ou o meu mesmo, éramos pobres, pobres, pobres de marré, marré, marré. Só para ter um parâmetro meu salário bruto seria comparável preço de uma geladeira compacta.
Também não podia lhes dar fardas novas, o almoxarifado guardava apenas duas mudas para uma emergência e mal caberiam em um anão.
Também não podia lhes oferecer equipamentos no estado da arte. Só que o cuidado que eles tinham com o que tinham era comovente. A Auto Escada Mecânica com décadas e décadas era testemunha desse amor.
Também não podia lhes dar cortesias para eventos que varias outras instituições conseguiam. Quando a tropa me questionava, eu costumava dizer que outras pessoas tinham o que não temos, porque faziam o que não fazemos. Mais uma dessas frases tiradas da sabedoria popular que minha mãe sempre insistiu em me ensinar.
Havia, felizmente, outras coisas que eu podia fazer. Por exemplo, toda vez que as escolas vinham para visitar o quartel, eu chamava o pessoal que ralava e pedia para as crianças para aplaudir os bombeiros. E quando o socorro voltava, eu dizia ao motorista do Auto Rápido que passasse devagar na praça Getúlio Vargas, como se fosse um desfile fora de época, o que também os fazia estufar o peito.
Havia algo mais que eu podia fazer, não estava listado nos valores óbvios como encher alguém de presentes ou dinheiro. Aquele episódio do Grandini me ensinou algo valioso. Desde então, toda vez que um cara fazia algo extraordinário, eu fazia questão de pôr todo o quartel em forma para elogiar na frente de todos. Isso eu podia fazer.
Neste momento, um simples aperto de mão era tudo que eu precisava para fazer homens de valor inestimável chegar às lágrimas.

Remo Noronha

sábado, 19 de maio de 2018


A CIDADE E AS ESTRELAS 

Quem é você ...
Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira,
Oswaldo Cruz e Matriz
Que sempre souberam muito bem
Que a Vila Não quer abafar ninguém,
Só quer mostrar que faz samba também

Estou quase certo de que a referência que vou citar vem de um livro de Arthur C. Clarke (sim, aquele autor que você xingou à beça quando viu n kapa pi minutos de efeitos especiais incompreensíveis de 2001 uma Odisseia no espaço), cujo título encabeça a presente crônica.
O trecho que quero contar é um no qual o personagem principal encontra um cara que é telepata. Logo chega um momento em que ambos se saem de uma cidade. Depois de um silêncio incômodo, o tal do telepata explica que estava se despedindo da namorada.
Quando li isso, pensei: “Caraca! Se alguém soubesse o que penso jamais iria querer ser meu amigo, quanto mais me namorar”. Meu coração nerd quase pulou de desespero ao lidar com a perspectiva. Já me bastavam os decorridos dezessete anos de solidão. E eu não queria de forma alguma quebrar o recorde de Gabriel Garcia Marquez.
Um pouco depois vi algo que não sei se era ciência, bruxaria ou alquimia. Tratava-se de um documentário no qual estavam pesquisando a possibilidade de transmitir o pensamento associado a fala com o seguinte processo:
- Analisa-se a fala de uma palavra comparando com o mapeamento cerebral naquele exato momento.
- Compara-se a intenção da fala da mesma palavra sem que esta seja pronunciada em novo mapeamento.
- A exaustiva comparação de padrões levaria a compreensão de quais ondas eletromagnéticas correspondem a cada palavra, e bingo (só um cara velho pra cacete usa isso neste contexto!), podemos transmitir isso a outra pessoa.
Minha duvida do fato disto ser real ciência não deve causar espanto a ninguém. Não podemos esquecer que há pouco se dizia que fumar não fazia mal à saúde, que pessoas com percepção extra-sensorial poderiam influenciar ações de líderes mundiais, que uma determinada raça era superior ou ainda que a Terra era plana (bem, isso tem gente que acredita nisso até hoje!). E tudo isso assinado, carimbado e selado no pluft, plaft, zum de documentos científicos.
Ao revisitar a ideia de telepatia, a cena agora me passa de um modo metafórico, pois estamos bem próximos disto nas redes sociais. Falta uma tonelada de cera para os sinceros de ocasião.
Lembro muito bem quando discuti com um acadêmico que criticava os excessos da escola tradicional, pois se debruçar em tanto conteúdo era perda de tempo, afinal bastaria ter senso crítico.
É isso que a tal da telepatia nos traz. Hoje podemos criticar qualquer coisa, de preferência xingando todos que pensam diferente no final, mesmo que não tenhamos qualquer conhecimento sobre o assunto.
A resposta a tudo isso poderia ser o dito de que o silêncio vale ouro. Ou aquela velha história das peneiras: a da verdade, a da utilidade e a da bondade antes de falar. Ou ainda das penas largadas ao vento do alto da montanha. Ou simplesmente a anedota de que em boca calada não entra mosquito. Enfim, os exemplos da sabedoria popular são infinitos.
Abraham Lincoln um dia disse que "Às vezes é melhor ficar calado deixando que os outros pensem que você é um idiota, do que abrir a boca e não deixar nenhuma dúvida."  O que me parece muito adequado, pois nunca me arrependi de ter me calado (isso quando consigo superar meu instinto selvagem – sinceridade e raciocínio rápido sempre foram a minha ruína!).
Mesmo assim, se o bichinho carpinteiro me coçar sempre tenho a alternativa de escrever sobre o assunto. E tal atitude me poupa de atribuir a frase citada, aqui mesmo no parágrafo anterior a Bernard Shaw, ou qualquer outro cara. Pois quando escrevemos sempre podemos pesquisar com calma e no meu caso particular perguntar ao Marcos Duílio ou ao Francisco se não estou dando uma tremenda mancada antes de publicar (o que nem sempre faço por pura ansiedade, portanto não atribuam a eles os meus erros – mea culpa, mea máxima culpa).
Outra vantagem de ficar calado é ter um ar de mistério que aumenta muito suas chances de ser bem-sucedido em suas empreitadas amorosas. (Ah! seu eu soubesse disso em 1981).
Este texto mesmo está com mais buracos do que queijo suíço, tem um monte de coisas que eu queria dizer, mas como fazê-lo sem ofender um monte de gente? Quando chega neste ponto o que nos cabe é o silêncio.
E para ninguém achar que não posso falar esta palavra sem o mínimo de doçura aqui vai o trecho de minha canção de ninar predileta: “Silêncio. Ele está dormindo. Vejam como é lindo. Sua majestade o neném”.

segunda-feira, 7 de maio de 2018


SAGRADO

“Sim, todo amor é sagrado”

Recebo de meu irmão, Alexander Noronha, reflexões sobre a espiritualidade dos índios. De minha Prima, Raquel Noronha, o informe de qual é o santo do dia. De minha irmã, Cleópatra Noronha, uma pequena oração emoldurada pela praia de Piratininga. De minha irmã, Mary Albuquerque, as orações de Chico Xavier. De meu irmão, Rômulo Noronha, as graças de um ateu. Recebo de meus amigos; Jorge Basílio, Cenízio, Pires Ferreira e Gilson; lindos textos bíblicos. De minha prima, Adriana Noronha, lindos desenhos de seu filho, que me parecem vir da cultura Iorubá. De minha irmã, Paulinha e seu marido, artista de mão cheia, ensinamentos da mitologia grega. De meu pai a correta forma de rezar o Pai Nosso. De minha mãe uma poderosa oração chamada chagas abertas que sempre me protegeu. Da minha querida tia Nívea, ensinamentos com Perfeita Liberdade. De minha irmã,  Lídia Rivero, uma linda oração em espanhol, que proteje os viajantes. Dos Homens Batistas do Texas e de meu sobrinho Dudu a compreensão de que basta falar com Deus, pois ele é meu amigo. Do Marcos Duílio tantas orações de tantas culturas diferentes que já nem sei qual é a religião dele. De minha amada esposa a admiração pela mulher que se ajoelha diante do sagrado. Dos índios que acolhi no quartel de Nova Friburgo a compreensão de que a espiritualidade vem da natureza.
Então, toda vez que vejo vandalismo nos tapetes de sal. Ou agressões às religiões afro-brasileiras. Ou igrejas católicas roubadas. Ou Igrejas evangélicas pichadas. Ou alguém quebrando uma santa na tv. Ou alguém usar a religião dos outros para os explorar. Ou ainda, alguém justificar uma guerra por ser “santa”. Enfim, qualquer ato como esse se propagar. Meu coração agnóstico se contorce de dor.
Digo que sou agnóstico, pois meu conhecimento é ridículo diante de tanta grandiosidade. Digo por que sou poeira ao vento e minha opinião não é assim tão importante a ponto de justificar qualquer das minhas agressões as suas crenças.
Se é sagrado para você é sagrado para mim.
Remo Noronha

quarta-feira, 2 de maio de 2018


VILÕES

Quando vejo uma trama o que logo observo é o porte do vilão. Caso ele seja linear, simplório ou algo que podemos definir nada mais do que “do mal”, me bate a certeza de que a história não vai ser grande coisa.
Por outro lado, Mr. Smith de Matrix é simplesmente invencível, multiplicável, ágil e articulado. Então, o desfecho lógico é dito pelo oráculo: Neo pode até ser bonitinho e legal, mas vai ter que esperar por outra vida.
Abrindo um par de parênteses do tamanho do mundo, cabe lembrar que o oráculo está longe de ser um vilão, assim como o telefone do filme Atração fatal, trata-se apenas de um mensageiro. Neutro e impiedoso como a verdade, inescapável como a gravidade para quem é defenestrado, inexorável como o destino (favor não confundir com o inimigo do quarteto fantástico).
Smith além de carregar o nome de outro vilão já citado, brilha na nova série da Netflix anunciando precocemente que Perdidos no Espaço (juro que não haverá nenhum spoiler significativo – portanto pode continuar lendo – não sou tão “do mal” assim) se posicionará anos-luz (posicionará mesmo – ano-luz é medida de distância e não de tempo!) à frente da série homônima, clássica e insossa. 
Boas tramas, em geral, trazem personagens complexos, capazes de grandes erros mesclados com atitudes magníficas. Mas a vilã se posiciona muito além das linhas vermelhas que determinam uma espécie de doença mental oriunda de total falta de empatia.
Bem que eu poderia dizer a ela: “você é uma pessoa horrível, com pitadas de psicopatia”, mas há algo que não consegui definir muito bem, aquele velho tempero que nos faz amar odiar uma personagem egoísta e ardilosa.
Sua atuação remete à Éris, a deusa da discórdia, capaz de deixar uma maçã perdida (não no espaço, mas no Olimpo) com a seguinte inscrição: “Pertence à mais bela das deusas”. As consequências foram devastadoras, refletidas em uma guerra quase interminável. Isso só porque esqueceram de convidar a tal da mexeriqueira para a festa.
Qual seria a alternativa? Bem, esta fica para depois. Outras metáforas dizem claramente que certas coisas não têm jeito, basta lembrar a história do sapo que aceitou levar um dependente escorpião nas costas para atravessar um rio. Uma picada e os dois morrem, pois é difícil fugir de sua própria natureza.
Quanto a mim, me despeço dizendo que tenho estado bem mais tranquilo, evitando confusão a todo custo até a hora que um baba... estaciona em fila dupla prendendo meu carro, por se achar dono da rua. Mas assim como a senhora Smith devo declarar: “eu não sou o vilão desta história”.  

segunda-feira, 9 de abril de 2018


RÓTULOS

“Mostrando minha identidade
Eu posso falar a verdade pra essa gente
Como sou da Mocidade Independente”

          Tomei coragem para fazer algo novo: terça-feira começo uma dieta controlada por uma competente profissional. Escolhi este dia da semana por dois motivos:

1.    Segunda seria clichê para cacete:

2.   Preciso fazer compras para suprir o que falta aqui em casa, o que adia o sonho de um abdome trincado (espera aí que fui me escangalhar de rir).

Dentre os fatos que preciso aprender, tenho agora a necessidade de ler os rótulos para saber o que estou comprando.
Devo assumir que já tive muitos.
Minha certidão de nascimento traz um nome incomum que sempre me faz explicar um pouco da mitologia romana, mas poderia ser pior, não fosse o cuidado do escrivão que corrigiu o RORONHA.
Imagino que tive uma carteirinha de vacinação. O que chama a atenção para o fato de que, no caso dos meus cachorros (que nem sabem o que é pedigree), é a única prova oficial de que eles têm nomes.
A carteirinha de estudante quase dizia com perfeição quem eu era, pois nunca tive coragem de mudar minha data de nascimento para poder ver filmes de sacanagem. O cabelo desgrenhado mostrava meu orgulho de um pé na senzala. Outro motivo de alegria era carregar o nome meus pais, minha única herança. Só faltava dizer que eu era nerd.
A carteira da Universidade Federal Fluminense, que já me livrou de virar estatística no dia em que quatro policiais me pararam em um beco apontando armas na minha cabeça, mostrava um eu alternativo na busca da compreensão da ciência que nos ensina a linguagem de Deus.
Mas, de todas as carteiras, a que mais me acompanhou foi a “casquinha de siri”, aquela vermelha que diz qual é minha patente no querido Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro. Hoje esta anda escondida em uma gaveta, por temor de que algum bandido decida que assassinato seja pouco para um cara que já subiu tanto em favelas para atender pessoas que sofreram com tanta chuva e descaso.
Então, posso dizer que me dói ver ser preso (mesmo que merecidamente), por suposta corrupção, um “ex-coronel”, se é que isso existe. Até então, conhecia apenas a reserva remunerada e a reforma. A tradição jornalística era quando um cara como eu errava, ele logo se transformava na imprensa em oficial de alta patente.

No todo, esta identidade aumenta enormemente minha responsabilidade cidadã. Por mais que eu não queira, sei que ainda represento minha corporação. Por este motivo não tenho, pelo menos na prática, alguns direitos que a maioria das outras pessoas dão como certo. Mas isto é justo, mesmo que essa carteira tenha me custado uma boa parcela da minha juventude e muito esforço. Pois no final das contas, o que fica dela é um ego tremendamente inchado.
Mesmo assim ela não me define, da mesma forma que não o faz a minha composição química, massa, estatura, tamanho da minha barriga (que eu juro que vai diminuir), data de nascimento, cor da minha pele ou o que mais você queira. Tudo isso são apenas visões estáticas do que podemos ser.
 Ainda bem que quando se trata de alimentos, me parece que o rótulo pode ter alguma precisão. Nele podemos saber a quantidade das (malditas) calorias, assim como a presença de acidulantes, aromatizantes, corantes, glúten e todas aquelas coisas que exigem ao menos uma pós-graduação para serem entendidas.
Confesso que será algo quase novo, pois sempre li o que está no produto que mais gosto de comprar: água, lúpulo e malte. 
Remo Noronha