terça-feira, 6 de novembro de 2018


SOBRE OVOS, CUCOS E SERPENTES

Em meu último texto me referi aos ovos de cucos e dei o assunto por encerrado. Quisera tudo na vida fosse assim em capítulos e fácil de entender. Porém, logo na manhã de segunda-feira, fui surpreendido pela postagem de um aluno esperneando contra tema da redação do ENEM, na qual ele disse ser um absurdo “cair” algo para qual ele não estudou o ano inteiro (!!!???), apesar de todos os seus esforços.
Então cá estou eu, quase que forçado a voltar a tocar novamente um samba de uma nota só.
Ok, mas assim como Jack, vamos por partes.
Pode ser que o seu avô tenha feito um exame de admissão meramente acadêmico, mas eu mesmo que poderia ser avô de alguém tinha que ler revistas e jornais, por saber que temas atuais podem desfilar nos vestibulares.
Dito e feito. O tema do ENEM teve um texto E-N-O-R-M-E, que podemos resumir assim: fala aí sobre fake news. Após resistir a ideia de entregar a redação com uma só frase que seria: “no news is good news”, qualquer aluno teria muito o que dizer, pois não se fala de outra coisa.
Ainda sobre o tema do ENEM observei que há um certo exagero no uso do vocabulário. Algo como a tendência de alguns autores gastar o latim e falar deste jeitão: “cristais dissolvidos pelas papilas gustativas deste derivado da cana de açúcar, têm condições organolépticas agradáveis, apesar do alto grau de dureza”, ao invés de simplesmente “rapadura é doce, mas não é mole”.
Ora bolas! Como se trata de um exame acadêmico, que vai justamente qualificar alunos para galgar o curso superior, não há o que reclamar, daquilo que em condições normais de pressão e temperatura poderia dificultar a vida de alguém. Como exemplo vejo que as atuais bulas de remédios passaram a evitam palavras como “posologia” ou “deambular”, afinal neste caso, todos devem entender minimamente o que estão fazendo. A mesma lógica não se aplica a textos voltados para a formação de uma elite pensante (mesmo assim estou até com medo das famosas postagens com os erros absurdos dos alunos neste ano!).
Quanto ao mal-uso da internet, vou dizer apenas que temos esta ferramenta há muito pouco tempo. Então, pelo menos para mim é natural que muitos ainda não saibam lidar com esta tecnologia. E como tudo que se apresenta em nossa vida, só o tempo vai dizer o quanto vamos ainda amadurecer (ou apodrecer).
Cabe ainda uma reflexão: o avanço tecnológico quase nunca está atrelado a avanços éticos. A combinação destes ritmos nos põe na perigosa posição de uma criança que mal sabe andar, mas por um descuido tem uma faca afiada na mão.
Finalmente, quanto aos ovos de cuco, chegou a hora da explicação. Apesar de qualquer metáfora (ou piada) assim que explicada acaba perdendo grande parte de seu poder (de fazer rir ou pensar).
Cucos não fazem ninhos. Eles entram naqueles construídos por outras aves e substituem seus ovos pelos delas. A consequência pode ser achada em diversas fotos onde pássaros pequenos, coloridos, ágeis ou belos alimentam os desengonçados filhotes de cucos.
Quantas ideias por aí você sai espalhando com a certeza de serem suas, ou serem verdadeiras, ou serem carimbadas por uma agência séria, ou por que pagariam a suposta cura de uma criança que sofre, ou por de virem de alguém como Albert Einstein?
Bem é isso. Entretanto, como deixei uma metáfora quase destruída por uma explicação tão pobre, quero deixar uma outra de presente para vocês. Não é algo original, pois já foi alertado por Exupéry e suas mudas de baobá. Então, meus pequenos príncipes, estejam sempre alertas ao chocar ovos que não lhe pertencem, se for de um cuco o estrago pode ser grande o suficiente, imagina de for de uma serpente!

quarta-feira, 31 de outubro de 2018


O SENTIDO DO OLHAR

“Setas indicando caminhos errados
chegar só é possível de olhos vendados”
         
          Viajar em um carro pequeno com cinco pessoas (muito amadas) passando por três países foi um dos momentos inesquecíveis de minha vida. Há muito o que se dizer dessa viagem. Só que agora vou bater uma bolinha bem rasteira e dar passes curtos. Desses que cabeças de área sem muita criatividade dão praticamente o tempo todo, pois só quero falar sobre setas ultrapassagens e sinais na estrada.
          Para começo de conversa, ainda no sul do Brasil, me vi aprisionado em uma ponte estreita sendo forçado a dirigir de marcha ré por mais de 500m. O que pode ser algo fácil para você que sabe muito bem o que faz com um volante na mão. Para mim, foi um tremendo desafio. Suor frio escorrendo no rosto, o temor de um acidente, o olhar grudado no retrovisor, a impaciência dos outros motoristas que vinham em sentido contrário. Enfim, um show de horrores que só poderia ser explicado pelo Capital Inicial. Tudo isso causado por um par de bonitões cujo único dever era levantar alternadamente placas de pare ou siga.
          Já em solo portenho passamos a sofrer com setas voltadas para esquerda por diversos caminhoneiros justo quando a ultrapassagem parecia ser segura. Quando eu e o Francisco comentamos sobre isso com o Miguel ele nos explicou que passou pela mesma situação quando dirigiu no Brasil, até entender que os caminhoneiros brasileiros e argentinos usam sinalizações inversas para dizer se você pode ultrapassar ou não.
          Se isso tudo lhe traz ensinamentos metafóricos, imagina o drama de um brasileiro que tem que dirigir em Londres?
          Eu bem que poderia estar preparado para tudo isso se ouvisse o meu pai.
Em um desses momentos raros em que ele era capaz de combinar uma faceta de sua personalidade, a de Dr. Jekyll, com uma bela pitada de bom humor o cara tinha tiradas sensacionais. Pena que o humor dele era muito mais comum quando ele tomava umas pingas e virava Mr. Hyde.
Eu estava brincando do outro lado da rua quando ele me chamou, olhei para a direita e para esquerda antes de atravessar e receber um abraço. Logo após ele me disse: Remo, não basta olhar para os dois lados para saber se algum carro está vindo, olhe para baixo à procura de submarinos, para trás para não ser apunhalado, mas principalmente mantenha seus olhos nos aviões do céu e para frente para planejar o futuro.
Aqui chega a hora de discordar da bela música que serve de alerta. Não se trata de fechar os olhos, mas saber em que confiar. Se algo buzina alto em seu bom senso a despeito do que lhe dizem é a hora certa de entender se você deve parar, virar para um lado ou para ou outro ou mesmo acelerar, diante de uma decisão consciente. Mas isso depende da sua capacidade de não chocar ovos de cuco e realmente veja o que está fazendo.
          Mesmo assim fui atropelado por um fusca alguns meses depois.  Pelo que me parece não sou o único que poderia ter aprendido um pouco mais com lições tão óbvias.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Minha vida de YouTuber


Cara, as vezes é difícil, como dizem por aí, não está mole para ninguém. O que tem de gente por ai latindo no quintal para economizar cachorro não está no gibi. Então meu novíssimo trabalho é dar aula de graça. Assim vou tentando me inserir na tal da modernidade. E acho que estou ajudando a educar a galera da geração... sei lá qual letra estão usando hoje em dia. Resultado, estou perambulando e fazendo a propaganda de YouTuber.

Achei que iria ser divertido, pois sempre admirei os caras que conseguem vender coisas nas ruas. E no caso específico nos coletivos. Então, tomei coragem e subi no ônibus da faculdade para fazer propaganda do meu recente trabalho como professor intergaláctico, o que ficou mais ou menos assim:
- Bom dia a todos, eu poderia estar matando, eu poderia estar roubando, eu poderia estar abduzindo vocês para o meu planeta (ai faço o símbolo de prosperidade Vulcano); e por falar nisso live long and prosper. Mas, só quero dar umas aulinhas de física e matemática.

Chego em casa umas duas horas depois, ansioso para ver o número de novos inscritos e é aquele que começa com z, e não é “zoito”. Estufo o peito, tento disfarçar a depressão e volto para a rua. E a nova estratégia até faz algumas pessoas rirem:
- Tai o meu canal: é de graça. E de graça até injeção na testa, ônibus errado e convite para festa que já passou.

Outras tantas horas e até vejo o ponteirinho do canal se mexer um pouco.

Vou apelar:
- E aí galera, olha a aula, olha lá. Esse canal não cura erisipela, nem espinhela caída, não traz o seu amor em três dias! Mal olhado e quebranto também não é comigo! Mas as aulas...
Tento disfarçar um certo desânimo com bom humor. Sei que sou novo no pedaço, não no quesito lecionar, mas sim neste lance frenético. E com a ajuda de alguns amigos, até já tenho uma meia dúzia de alunos.

O fato é que para cada três minutos de aula rolam pelo menos duas horas de pesquisa e preparação e como erro para cacete e não quero aquela coisa robótica da edição, tenho que fazer cada aula duas, três, quatro ou até o recorde de doze vezes, até eu achar que os erros não vão prejudicar ninguém. Porque perfeito mesmo, sei que nunca vai ficar.

A parada dura é que como minha única atividade de trabalho depois que me despedi do Corpo de Bombeiros são as aulas particulares, nem sempre estou trabalhando. O fato é que sempre rola aquela época do ano em que os alunos somem e eu corro o sério risco em me viciar nos jogos de celular.
Estou vivo. E o que aprendi pode ainda ser útil para um montão de gente, mesmo que o meu jeito seja assim anacrônico (só velho usa esta palavra!). O resultado é que estou batendo perna, parando as pessoas na rua para tentar convencer a comprar algo que é de graça. E por falar nisso, dá uma olhadela lá no meu canal. O nome dele foi mal escolhido pacas e é REMO NORONHA, e assim ficou por falta de ideia melhor. Bem, já que você chegou até aqui acho também posso pedir sua nova inscrição, mesmo que não seja na boemia, depois de se inscrever compartilha lá, para os amigos se gostar ou para os inimigos se ficou ruim mesmo.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

quarta-feira, 22 de agosto de 2018


SOBRE HÁBITOS E MONGES

               Passei boa parte de minha vida sem saber que a batatinha quando nasce espalha a rama sobre o chão, ao invés de espalhar a si própria. Deste mesmo modo pensava que o ditado sobre monges falava sobre o seu despertar na matina (junto com o frade Jaques), rezar de montão e se recolher em uma cela, perdido no silêncio da noite.
               Não conto mais que duas primaveras a partir do momento em que entendi que hábito é a roupa que o monge habita.
               Seja como for, se não é nem a rotina e nem a batina, do que é feito um monge?
               Sei que ontem após uma sofrida partida de futebol, decidi tomar não mais que três copos de cerveja e como minha camisa de goleiro (sim sofro disso apesar do meu corpo mais que semicentenário e o peso de quase mil Newtons), fedia a grama, suor e lama; ocupei meu lugar no Bar do Peixe desnudo da cintura para cima. Neste momento o sonho recorrente desde que fui para a reserva do meu querido Corpo de Bombeiros veio mais uma vez à tona.
               Estava chegando atrasado em uma formatura de gala no Quartel Central, algo como a entrega do espadim ou espada. Quando passo no Corpo da Guarda percebo que estou apenas com um short vermelho, suado e descalço. Tenho que correr às escondidas até os fundos do Casarão Vermelho onde está minha farda.
               Aqui cabe uma explicação, para superar minha mágoa com o insucesso do final de minha carreira, ao ir para a reserva leiloei por um valor simbólico TODAS MINHAS FARDAS e doei o que foi arrecadado para a Associação de Proteção aos Animais. Pensava que esta atitude iria drenar totalmente o meu coração ferido.
               O tempo, que tudo cura, faz hoje que não haja taquicardia com a passagem do trem de socorro completo, com suas luzes espaciais e o ecoar das sirenes, que para mim soam como uma doce canção.
               Entendo que a vida nos força a fechar as portas às nossas costas para abrir outras logo ali na frente. Mesmo que parte de nós fique assim sendo como que arrastada pelo chão.
               Imagino o quanto devem sofrer calados os amigos realmente vocacionados, como o Lira, Alex e Loureiro, só para não sair da vigésima nona.
               O sonho finalmente abandonou minhas noites, após ressaltar o óbvio: continuo vivo e ainda posso fazer coisas muito legais, apesar de treinamento de rapel e o banho de adrenalina que acompanha o entrar em um prédio em chamas, não fazerem mais parte desta lista.
               Mesmo assim se você me ver reagindo de um modo abrupto ao passar de um carro vermelho, saiba que apenas estou abrindo alas para os heróis de uma nova geração que vão passar nesta avenida.

terça-feira, 7 de agosto de 2018


MEDO DE AVIÃO

Você está lá. Você é o tipo de cara que sabe o que Bernoulli disse sobre velocidade, arrasto e sustentação. Não fosse o suficiente, também o que é ângulo de ataque. Sabe ainda, estatisticamente falando, que avião é um bocado seguro. Mas lá vem a aeromoça, fazendo uma mímica acompanhando uma voz gravada. O ritual vai se repetir em inglês e espanhol. As pessoas ao redor estão entediadas, a própria comissária de bordo age mecanicamente.
Não que você seja aquele tipo de cara que vai ter calafrios sem fim, mas uma pequena oração não faz mal a ninguém, não é?
Saiba que eu uso os seus sapatos nesta hora, então vou te dizer o que faço: monitoro os meus pensamentos e percebo o quanto eles estão em descompasso com o que é dito. Pode não ser a melhor distração do mundo, mas quebra um galho.
“Há duas saídas sobre as asas” ... beleza estou no lugar certo, aqui é o lugar mais estável e não precisa sacar muita física para entender isso. Basta ter curtido uma barca Viking de qualquer parque de diversões para saber que o meio da nave é a parte menos excitante.
“Retire os bancos se for necessário flutuar” ... se essa bosta cair no meio do oceano, não haverá muito o que fazer, este tipo de lance vira filme justamente por que é putaqueopariumente improvável de ter um resultado bacana.
“Mantenha o banco na posição vertical”... Ah! Se o Dener soubesse isso, a família dele, o Vasco da Gama e a Seleção Brasileira não teriam tamanha perda. A importância deste tipo de conhecimento sempre me fez discutir com meus filhos e meus alunos coisas como primeiros socorros e o fato de que um cabeçalho dizendo: Habeas Corpus, mesmo que não seja escrito por um advogado, pode evitar que um inocente permaneça preso. O que convenhamos é muito mais importante do que saber de cor qualquer fórmula, breviário ou tabela.
“Durante o pouso e a decolagem” ... se a patacada acontecer durante o pouso o piloto ainda pode tentar arremeter. Perigoso mesmo, apesar do que o senso comum possa fazer parecer, é a decolagem. Se der uma zebra, aí o resultado pode ser uma visita do Zé Maria (para quem não sabe, aquele cara que é só pele e osso, portando uma foice) e Zé Fini.
“Caso a cabine for despressurizada” ... as janelas são arredondadas justamente para evitar o estresse na estrutura, especialmente na despressurização. Não foi um estudo especial que levou a esta conclusão e sim a repetição do chamado erro e tentativa. O que jamais deveria ser desprezado, pois na minha opinião, é o que deveria nos fazer evoluir como espécie. Neste ponto a aviação é uma joia da engenharia, mas o tal do Homo sapiens é horroroso, já que amamos cometer os mesmos erros. A outra conclusão tem a ver com PV=nRT, o que com certeza iria entediar mais que noventa por cento dos meus leitores.
“Coloque as máscaras em você mesmo antes de ajudar a quem necessita” ... é aí que chego à conclusão mais dramática: fui treinado para salvar outras pessoas, mesmo com o sacrifício da própria vida. Nesta lógica, eu prenderia a respiração para por a máscara em uma criança ao lado. O que de nada adiantaria, se eu desmaiasse antes.
Sei que esta lógica de a vítima ser prioritária sempre me ofereceu uma força psicológica e porque não dizer espiritual, um cem número de vezes. Destas, destaco o dia em que, já na reserva do Corpo de Bombeiros, me encontrei preso em um engarrafamento na Linha Vermelha encurralado em um tiroteio. Meus medos estavam à beira de destruir minha racionalidade quando vi três mulheres e uma criança desesperadas. Então lhes disse: deitem atrás do motor do meu carro que é o local mais seguro. Se por um acaso eu não saísse vivo dessa história, pelo menos teria dado um sentido àquela loucura.
O mesmo não vale para situações cotidianas. Emprestar suas ultimas economias para um colega incauto que jogou todas as dele no lixo não resolve a parada de um modo definitivo. Não podemos perder de vista a metáfora do abraço de afogado. Além disso as pessoas procuram os problemas para aprender com eles, então não podemos privá-los das lições que os farão crescer.
Ser solidário não pode rimar com ser otário, assim como dar grana para alguém comprar cachaça não ajuda a ninguém.
Não proponho, de modo algum, desprezo ou falta de empatia, o mundo já está cheio disso, mas da próxima vez que a nave despressurizar, coloque a máscara em você mesmo antes.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Lendas

Dentre mulas sem cabeça, caiporas, curupiras, Saci Pererê, duendes,  boto tesudo, loura do banheiro,  lobisomem, chupa cabra, caboclo que traz o seu amor em três dias e outras lendas, no que acredito mesmo é em vampiros.

Há pessoas que não querem nada menos do que seu sangue.