segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

Mestre Wladimir

Então lá estou, logo eu, participando de uma aula de yoga.

Muitas pessoas já me disseram que isso me faria muito bem, e que meu motor de Ferrari poderia encontrar, finalmente, algum equilíbrio.

Dentre essas pessoas está bem ao meu lado, com seus movimentos lentos, a que mais importa: minha gata, minha musa, minha tudo. Observo ela com o canto do olho e sei que está levando tudo muito a sério.

Não consigo.

O professor é um tanto barrigudo para parecer um faquir, e como o conheço muito bem espero que saia dali alguma piada no qual ele se aproveitaria da formalidade do momento em que nos ensina a respirar de verdade. Em minha imaginação ele quebraria o clima estendendo as mãos para um lado ao dizer: “João beija minha mão, José beija meu pé... não fuja Nicolau”.

Pois assim é o melhor amigo que tenho no mundo.

Simplesmente um cara capaz de rir e incapaz de me dar um presente decente: na lista estão livros dos quais só ele gosta, uma caixa de alfajor que demorou tanto a chegar nas minhas mãos a ponto de ser acompanhada por uma enorme colônia de fungos e o famoso jardim zen; que de vingança devolvi no aniversário dele.

Acredito que as formas de medir uma amizade passam por três eixos:

- a quantidade de piadas internas;

- a capacidade de concordar e discordar (sem esquecer que cor, neste caso vem de coração); e

- principalmente, a presença nos momentos difíceis.

Além disso não posso deixar de lembrar o que um dos famosos filósofos da modernidade diz: somente pessoas éticas têm amigos, bandidos só posuem capangas, o que torna impossível resistir ao terceiro e mais importante critério.

De vez em quando recebo uma ligação e do outro lado da linha ouço uma tonelada de xingamentos, respondo com tudo que aprendi nas ruas vicinais à favela do Muquiço, pois é assim que se responde a tal impropério. Então pergunto: “acalmou?” ele responde: “sim, estava precisando disso – abraço irmão”.

Antes de desligar o celular vejo a foto dele abraçado com um cachorro e o dizer: “descubra quem é o cachorro aqui”. Realmente não sei a resposta certa. Somente cães são capazes de tamanha lealdade, enquanto o mundo ganha um novo colorido quando penso que a amizade é o sal da Terra.

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Um amigo e seus passarinhos

Em seu caminho brotam flores e frutos

As aves cantam

Depois voam

Elas não lhes pertencem

Como nada a ninguém

 

Elas lhes tocam o coração e partem

O coração se parte

O coração se abre

Para o meu amigo que não tem gaiolas

domingo, 18 de julho de 2021

Torcedor

A palavra vem de torcer que é o que as jovens faziam com seus lenços brancos, cujo propósito original seria acenar para os seus jogadores prediletos. Então a pergunta: “por quem você torce” se tornou o modo oficial de entender uma paixão incompreensível.

Aí alguém lá longe no campo chuta um objeto esférico, que teima em quicar e rolar (aquele que chamo de Vossa Excelência), e este toca as redes de um modo peculiar, é a pesca de um enorme atum.

Delírio.

Orgasmo coletivo por procuração.

Você não chutou nada. Não cabeceou nada. Não treinou a semana inteira. Não entrou em campo com um tornozelo que mais parecia o pilar do World Trade Center. Não tomou cotovelada do zagueiro de dois metros e noventa. Não tomou um cartão amarelo porque reclamou. Não sentiu seu pulmão quase explodir na corrida. Não deu um biquinho no momento certo.

Seja como for você grita!

E também o narrador que vai dizer: “lindo, lindo, lindo”, ou “ripa na chulipa”, ou ainda (meu preferido) “olha lá, olha lá, no placar!”.

E também o empresário que trouxe um cara lá da Itália para ver o seu atleta.

E ainda o dirigente que via as chances de reeleição minguando.

E o patrocinador que vai ver sua marca em destaque.

E o político que vai usar a camisa do time na próxima live.

Não importa: você vai abraçar o  cara ao lado, um maluco que você nunca viu antes e pular que nem pipoca.

Esse gol é seu.

sábado, 17 de julho de 2021

Meu querido filho

Dentre diversas coisas pelas quais passamos uma delas, que não me esqueço, foi o fato de que tive o privilégio de ser professor.

Naquela época eu brincava contigo e dizia que era ótimo ter um aluno no qual eu podia dar uns cascudos sem que o pai reclamasse. Então, a frase “poooorrrr faaaavooooorrrr Francisco!” Ficou famosa no Colégio Rogelma.  

Sei que no todo valeu muito a pena, superando a máxima de que dois bicudos não se beijam; uma vez que personalidade marcante, senso de justiça próprio e teimosia parecem ser atávicos.

Com o passar do tempo tive a chance de lhe explicar que a soma dos quadrados dos catetos equivale ao quadrado da hipotenusa, e aprendi que eu sou um geômetra que formou um algebrista. Também lhe ensinei que a Terra é Geoide, para somente com a série atual da franquia Star Trek você finalmente entender que devemos ir aonde nenhum homem jamais esteve. Passei muito tempo lhe doutrinando para finalmente nos encontrarmos na mesma torcida, mas ainda cabe a você aprender sozinho a lidar com as próprias derrotas. E recentemente tenho lhe ensinado que as palavras o vento leva, só que as suas colocações me mostram que hoje você tem muito mais clareza de como lidar com seus desafios profissionais do que eu jamais pude.

Também aprendi. Aprendi muito. Entretanto, vamos combinar que hoje não estamos aqui para falar de mim.

Hoje quero lhe ensinar a última lição antes de você se transforme em um trintão, e como é uma lição difícil você vai ter um ano inteiro para ruminar a simples ideia que vou lhe passar: Você bem sabe que em inglês você não vai ter 29 anos, você vai to be 29. Eis aqui meu segredo: os ingleses foram muito mais sábios... os anos não lhe pertencem, no máximo você pode ESTAR por ali em um breve momento.

Então: Viva!  Curta! Aprenda! Siga adiante!

Esse momento também vai passar.

Quanto a pertencer, saiba que pouquíssimas coisas são suas. E uma delas é o meu coração.

domingo, 27 de junho de 2021

Navegando

 Não sou um remo que rema

Sou um remo que rima

As palavras que não me pertencem

Assim que comunico a ação


A meta é a metáfora

O pulmão da mente

Quando entra é inspiração

Quando sai é ex...piração


Exausto me posto

E venho a público pelo avesso

Trago a alma para a rua

Nua, crua e finalmente sua.

Ódio

Um dia vi um lobo falando bem dele dizendo basicamente que ele era um líder que falava o que pensava.

Não esqueço do alerta da Lupina: há lobos que se vestem com a pele de cordeiro, mas também há lobos que se vestem com pele de lobo.

Enfim, é preciso mais que intuição para avaliar o lobo que chega. Cansei de ver lobos velhos se enganarem sobre o caráter dos outros como se fossem filhotes.

Alguns sinais são óbvios:

- Se não trata uma loba como a encarnação da Grande Loba.

- Se valoriza demais a matéria.

- Se perde o controle com facilidade.

- Se tem todas as respostas sobre o que é sagrado, mas desconsidera qualquer visão diferente.

- Se cansa falar de sua própria integridade, mas de um jeito ou outro acaba tirando vantagens.

Ou ainda:

- Se um lobo fica o tempo todo lembrando quem ele é, provavelmente ele mesmo não sabe.

Mas principalmente:

- se traz a fagulha do ódio nos olhos.

Outros detalhes são mais sutis, e se resumem em uma intuição diáfana e um cheiro podre que não conseguimos definir muito bem.

Assim foi a chegada do Rasteiro.

Eu imaginava que ele não conseguiria enganar a ninguém. Tão direto era o seu ódio e a maneira com a qual ele sempre desprezou as seguidoras da Grande Loba. Sei que já disse isso antes: não há nada de errado em seguir o Grande Cão, mas há muito de desprezível naqueles que não respeitam a centelha do sagrado nos outros.

E assim ele trouxe a semente do ódio, travestida em culto ao Grande Cão.

O ódio se espalhou por todas as terras.

Mas de tudo o que mais lamento foi a corrupção chegar aos corações dos inocentes e dos simples.

Cães e o lobos que antes amávamos hoje rosnam quando passamos. E se não tem motivos para nos odiar, inventam. Eles não têm muito a ganhar com isso. Mal sabem que o ódio é filho da ganância. É um ferrão que fere a quem atinge, mas também mata a abelha.

terça-feira, 22 de junho de 2021

Totó

Um dia eu estava morto de fome.

Não tinha opção, ou me aproximava da fogueira para comer restos ou não conseguiria dar mais um passo.

Ao invés da agressão recebi uns tapinhas na cabeça e mais comida do que eu tive em um mês.

Dizem que ele não conhece cheiros e não sabe uivar e que o cheiro dele lembra uma galinha molhada.

Só que de um jeito estranho sei exatamente o que ele quer dizer.

Várias noites passaram.

Logo entendi qual deveria ser meu trabalho: proteger meu humano toda vez que ele fosse dormir.

Espanto qualquer um que possa pôr em risco sua vida terrena ou espiritual.

Com o tempo fui me deitando cada vez mais perto.

Mesmo que ele faça algumas coisas estranhas, como me mostrar os dentes, é claro que sei que ele me ama. Sinto o cheiro de ocitocina cada vez que ele uiva de um modo estranho com um som que parece Thothou.

Em um dia frio ele me abraçou a noite toda.

Se isso não é amor, não sei o que é.

Sei que você deve achar estranho, mas digo sem nenhum medo de errar, até poque a Grande Loba tem formas estranhas de se manifestar: aquele humano é meu filhote.