segunda-feira, 9 de setembro de 2019


Nas Ruas de Tiradentes

No tacho requentado
Amendoim torrado, com açúcar mascavo

O cheiro se espalha da janela
Sem tranca ou tramela
Da dona Manoela

O moleque pula
Tão alto e pega
“Não rouba moleque. Pede!”
Ainda ouve ao correr.

As pedras do chão
Prosaico mosaico
Tão duras que cortam
As solas que passam.

O pé-de-moleque é doce
Cortado o pé do moleque
É duro o pé-de-moleque


Há um tal de Deus ex machina, um recurso literário comum, por exemplo no teatro grego, e saber disso teria me poupado um montão de lágrimas quando eu era moleque. A coisa funciona assim: o herói é posto em uma situação impossível para na ultimíssima volta do ponteiro ser salvo por algo que nada tem em comum com toda a trama.
Não é, pelo menos para mim, o melhor tipo de literatura. Sou mais adepto de caras como o Jorge Amado que põe as personagens em um tabuleiro qualquer e a partir de uma dinâmica (histórica, social), vão se comportar de um modo coerente com sua estrutura interna, aí teremos algo chamado verossimilhança.
Então você me pergunta, se eu não estou confundindo com o mundo real.
Não! Não! E não!
O mundo real é louco!
Só a arte pode ser coerente passo a passo, isto se não for a história de um super-herói japonês que passa a série toda apanhando e só vai vencer depois de uma luz vermelha se acender. O problema é que nessa altura do campeonato eu já teria ido embora chorando copiosamente, sem saber do final (impossível e) feliz.
 Perdoem-me o clichê, mas se não está legal é porque a história não acabou.
Mesmo assim não tem nada errado em sair chorando no meio do filme. Que as lágrimas façam o seu papel de expurgar o veneno, mas milagres acontecem.
Se você tem dúvida disto jogue uma semente no chão que algo inacreditável pode acontecer.
Mesmo que a gente demore a crer, o fato é que todo o baobá, já foi um dia, uma pequenina semente.


quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Mais uma da Maria Augusta

Só quem viu sabe os caminhos da guerreira.
Uma destas pessoas ao ver tanta luta perguntou:
- Como você mantém a fé diante de tanta dificuldade?
Com um sorriso gaiato ela respondeu:
- Isto foi só uma demonstração do amor de Deus por mim.
Ele tem mó cuidado, então põe o dedo mindinho na minha cabeça. Não é culpa Dele ter a mão tão pesada.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019


Na mesma bat-hora no mesmo Bat-canal

Para que ninguém ache que sou mais realista do que o rei, admito que já fiz trabalhos escolares colocando o nome de quem nem sequer apareceu na reunião planejamento.
Volto ao velho tema da cola, que pelo jeito está cada vez mais elaborada, aceita, consolidada e até mesmo comercializada.
O fato é que recentemente algumas pessoas têm me procurado para fazer os tais trabalhos acadêmicos.
Fico espantado com isso, o que me põe na posição de um Batman barrigudo.
“Perai” que já, já lhe digo o que isso significa.
Na década de 60 fizeram uma versão televisiva do Cavalheiro das Trevas que tinha tudo para dar errado. O que ouvi falar sobre a série (jamais deixe a verdade atrapalhar uma boa estória!) é de que o diretor ficou puto com o projeto e fez tudo à moda vamos que vamos para se livrar daquela bosta, pois ele tinha coisas melhores para fazer. Os roteiros e as personagens eram tão ridículos que acabaram sendo engraçados. Resultado: um tremendo sucesso. E - Ai de mim - com o direito a falas como: “Benditos dentes escovados três vezes ao dia”.
Bem. Não sou tão anjinho assim e sei que no mundo real as coisas são como são.
Só que não tem jeito, ainda me espanto quando alguém me manda um zap pedindo para fazer “apenas um trabalhinho, que não é nada demais”.
Outro dia uma senhora quase me bateu devido a minha recusa (Ou nem tanto – ainda é um pouquinho difícil me encarar- afinal ela não era nem o Coringa e nem o Pinguim). E tive que explicar umas dez vezes que eu não me incomodaria de fazer o trabalho junto com o filho dela, explicando passo a passo como deve ser feito, só que eu não aceito ser pago para fazer o trabalho escolar de quem quer que seja, sob qualquer pretexto.
Então, meu queixo cai no chão quando vejo alguém postar sem nenhuma cerimônia em uma rede social aberta: “Faço trabalhos acadêmicos”.
Sei que é mais fácil ser ético com a barriga cheia, mesmo assim isso me causa calafrios.
E se quiser chamar alguém de Batman barrigudo aproveita e faz uma fila. Não sou o único que suou frio quando vimos na tv pela primeira vez um Presidente da República afirmar que para ficar no Governo um partido não pode debater e sim votar junto. E isso faz tempo, imagina com o que dizem hoje, estabelecendo que o famoso Centrão conglomera tudo de pior que existe na política, tornando qualquer sacanagem ser coisa normal.
Considerar a possibilidade de ter um olhar inocente para qualquer situação que seja não deveria simplesmente ser um caso para a internação em um hospital psiquiátrico. Cada vez mais percebo que todos os sistemas políticos e estruturas sociais estão à beira da ruína e somente uma reviravolta em nossa noção de valores poderia mudar algo. O problema é que os ponteiros dos relógios não param e não podemos mais justificar os meios pelos fins, o que nos põe em uma sinuca de bico.
Tudo isso me leva de volta a um momento em que um amigo pediu que eu escrevesse uma lauda sobre o Pequeno Príncipe, que ele nem teve tempo de tocar. Como já disse não sou tão anjinho assim e a vontade de expressar (mais uma vez) o que eu gostaria de dizer sobre o amante da Rosa e da Raposa foi maior.
Em minha defesa a outra parte do trabalho foi sobre outro príncipe, o de Maquiavel. Então, eu obviamente não quis, não pude, e não teria como escrever qualquer palavra. Tentei ler este cara umas três vezes, porém mesmo depois de todas as explicações históricas e contextuais minhas ânsias de vômito foram maiores nunca permitindo que passasse da décima página.
Entenda que não tenho estomago fraco para textos sobre luta ou sangue. O Sun Tzu, por exemplo, já me acompanhou por um bom tempo. Até porque, não é difícil respeitar, mesmo que você discorde, um cara que te explica como decidir diante de dilemas e guerras, sejam elas reais ou metafóricas. Afinal derrotar um inimigo em campo de batalha faz parte do show, mas arrastar seu corpo por três dias e três noites diante do reino derrotado nem pensar. Alguém deveria explicar ao Aquiles que atos de guerra podem ser perdoados, atos de tortura jamais.
Há ainda outro fato para ser dito aqui neste texto, mesmo sob o risco de torná-lo uma tremenda colcha de retalhos.
O que vejo em resposta a questões definitivamente sérias não podem mais passar de simples jogadas de marketing ou vistas como oportunidades para lucrar. Toda vez que alguém disser que plantou um bilhão de árvores em um campo de futebol desconfie: o que há de ecobobo, ecobabaca, ecochato, ecoidiota e ecoaproveitador não está no gibi. Mas pode acreditar em todas aquelas pessoas que catam latinhas para sustentar a família.
O que nos resta então?
Se poderia pedir algo para aqueles que virão é que não se perca a perspectiva quixotesca de colocar uma roupa que mal esconde a barriga, uma capa e uma máscara em forma de morcego. Batmans barrigudos estão em falta e o mundo definitivamente carece de pessoas que não tenham superpoderes dispostas a mudar o jogo.



segunda-feira, 12 de agosto de 2019


MÃO DE PAU

Para quem não sabe sou um tipo que tem um carma tão pesado ao ponto de não nascer grama onde piso. Talvez você também seja assim. Primeiro você tentou ser atacante, mas é um cara grandão e meio desajeitado, então é deslocado para lateral, mas é muito lento. Finalmente tenta a zaga, mas é defenestrado depois da segunda pixotada. Esqueci algo? Que tal o meio de campo? Pensando bem, deixa para lá. Ali é um lugar para desfilar categoria, não é para quem chama a bola de Vossa Excelência.
O que nos resta? Algo, mais ou menos assim: “Bicho pega no gol só esse jogo, o João quebrou o dedão e não temos outro para pôr no lugar”.
Você não sabe nem o que está fazendo, só que tem aquele tipo de coragem própria dos loucos. Além do mais para jogar uma partidinha de futebol você não se incomoda de chegar em casa todo ralado.
Assim está feito.
Mais um arqueiro, guarda-metas, goalkeeper, mão-de-alface, mão-de-quiabo, maluco-do-time, vai-que-é-tua, frangueiro, mão-de-pau, enfim... goleiro.
Esta é a posição mais original e solitária do futebol. Nela lhe dão o superpoder de usar as mãos, mas vão lhe cobrar por cada erro.
Dizem que médicos, pilotos de avião e goleiros não podem errar. Só que todo mundo erra.
No meu caso particular o erro é uma das minhas maiores características. Se faço conta somo um e um para encontrar onze. Se falo a língua pátria nunca sei se uma palavra tem um ou dois erres ou esses. Falo inglês fluente, porém meu spelling é uma desgraça, e não vou ficar espantado se escrevi spelling errado!
Assim toquei a vida, uma exibição de gala aqui, uns frangos ali. Até que finalmente encontrei a pelada que sempre quis: um time de tigres... de bengala, de muleta e até de bom futebol (pelo menos alguns de nós, já jogou bola de verdade). E lá vamos nós para mais um encontro na manhã de domingo.  Logo vai começar a pelada dos veteranos do Carmelo.
É maravilhoso nos divertir com um jogo de futebol com caras que pouco se importam com o resultado, em um jogo no qual dividir uma bola sob o risco de machucar um amigo é impensável.
Ontem foi ainda melhor, chegou um bando de moleques da vizinha cidade em seus brilhantes uniformes azul-escarlate. E não sei se por ironia ou se por amor decidiram torcer justo por mim.
A cada defesa ouvia: GOLEIRO, GOLEIRO, GOLEIRO!
Estava divertido à beça, até o momento em que tomei um frango, algo quase regulamentar da minha vida. Não uma falha qualquer: um gol contra. Levantei pensando em me irritar quando um menino gritou: FICA CHATEADO NÃO VOCÊ É BOM! Então, os outros me aplaudiram.
Quantas vezes você gostaria de ter uma plateia tão linda em sua vida? Há erros de vida e morte, momentos em que uma falha pode estragar algo precioso. Nos demais deveríamos rir e aprender uma lição qualquer.
Quando acabou o jogo fui até a arquibancada para dar boas vindas a minha cidade aos pais e mães que trouxeram aqueles meninos espetaculares. Agradeci profundamente a educação a eles oferecida. Há bens preciosos espalhados no mundo, mas nada se compara ao fato de que as crianças são o melhor do nós.

domingo, 4 de agosto de 2019

Inversões

Parabéns querida
Nesta data para você
Muitas felicidades
E muita vida.

Devo
Não pago
Nego quando tiver.

segunda-feira, 29 de julho de 2019


Coisas que se aprendem quando temos 10 irmãos

Aprendi que se dois irmãos brigam o melhor a fazer é não tomar partido.
Aprendi que ao se arrumar confusão na rua qualquer irmão vai correr para ajudar, mas se você estiver errado vai tomar cascudo do mesmo jeito assim que chega em casa.
Aprendi que quando você finge que está estudando os seus irmãos mais velhos não mexem contigo, mas o bom mesmo é quando você aprende que estudar é melhor do que fingir.
Aprendi a ser mimado, mas que as pessoas da rua não têm o mesmo cuidado ao lidar com crianças. E esta é uma lição bem difícil.
Aprendi a cantar “Daniel Boone quer café” para incentivar o Maninho a ir à padaria para trazer pão quentinho.
Aprendi a calcular frações bem rápido. Quando só há sete pães para onze irmãos, com forte senso de justiça, nenhum professor precisa lhe ensinar o que são sete onze avos.
Aprendi que quando só há uma TV com tantos irmãos, você nunca vai conseguir ver desenho bem na hora de um filme.
Aprendi que torcer por um time vai fazer você rir e chorar com seus irmãos.
Aprendi que se você jogar bola mal a sua única chance é ser goleiro.
Aprendi que fazer pipas dá mais dinheiro que soltar pipas.
Aprendi que catar latinhas, garrafas e cobre vai lhe dar o suficiente no fim do mês para ostentar e comprar uma coxinha no supermercado.
Aprendi a tratar com respeito as garotas na rua, porque é chato para cacete ter um monte de irmãs bonitas sendo perturbadas por caras sem a menor noção.
Aprendi que ser café-com-leite nas brincadeiras mais pesadas, pode não ser o mais divertido, mas é melhor que voltar para casa mancando.
Aprendi que as roupas dos irmãos logo, logo vão caber.
Aprendi que se você tem um caquinho de vidro no pé é melhor passar pela sua mãe fingindo andar normalmente, caso contrário logo ela vem com uma agulha.
Aprendi um montão de coisas sobre segurança, como por exemplo, passar debaixo de uma escada ou quebrar um espelho dá azar. Mesmo assim, aprendi o que é ter um braço quebrado, um pedaço do couro cabeludo raspado e um monte de cicatrizes.
Aprendi que não é uma boa ideia brincar com giletes.
Aprendi que não se deve escalar o móvel da cozinha para pegar um garfo. Neste mesmo momento também aprendi que óleo quente na cabeça dói para caraca.
Aprendi que quando os meninos fazem 10 anos, eles podem se orgulhar de dormir numa esteira no chão da sala, junto com os outros irmãos.
Aprendi que cama é coisa para crianças e meninas.
Aprendi que é mercúrio cromo e não “mercúrio corno”; mas só depois de uma irmã entender, com uma longa e cuidadosa conversa, que não havia ninguém preocupado em saber o que é infidelidade.
Aprendi que ao se sentar entre a uma irmã e o namorado dela, rapidinho se ganha um trocado para comprar picolé.
Aprendi a ter ciúmes.
Aprendi que família sai na porrada mesmo, mas aí de quem falar mal de um irmão.
Aprendi que quando se mora perto de uma favela não é boa ideia um irmão bater em um traficante no jogo de futebol.
Aprendi que só uma mãe, com a coragem do tamanho de um bonde, poderia fazer um cara que bateu em um traficante voltar para casa em um pedaço só.
Aprendi a falar a língua do P sem que ninguém me ensinasse.
Aprendi que quando você aprende um código secreto você não deve ficar entusiasmado quando alguém fala SO-por-VE-pê-TE-pe. E que basta um pequeno grito de alegria para todo mundo descobrir que você já sabia uma língua secreta que deveria ser exclusividade dos irmãos mais velhos.
Aprendi a amar.
Aprendi que a gente continua amando os irmãos, mesmo quando eles vão embora.
Aprendi que a vida nos oferece outros irmãos, mas nada pode se comparar a ser o mais novo de onze.