quarta-feira, 28 de outubro de 2020

A volta da idade média

 

Recebi um contato de um grande amigo de meu filho que disse estar vindo de Minas para nos visitar. Depois do bate papo protocolar, aproveitei para falar com ele sobre a tristeza com a qual observo os profundos movimentos que teimam em nos devolver a idade média. Então ele me respondeu que já não diz mais que a Terra é geoide, em consonância com sua formação em geologia. Depois de uma meia dúzia de sorrisos ele constatou, desanimado, que se seu interlocutor afirma que a Terra é esférica ele já se dá por satisfeito.

Me despedi dele e pensei onde tudo isso começou?

E foi assim:

“Tem mesmo que fazer essa conta sem calculadora?” Ou “Física é chato”. Tem também: “Logaritmos servem para quê?”. Põe na lista também:” para que que vou estudar isso se não vou virar cientista?”

E continua assim: “Basta ter espírito crítico”.

E redunda em: “Essa é minha opinião e pronto”.

Então está armado o cenário.

E lá vou eu tentando explicar que a Terra não é plana, o que seria inconsciente com...

- Fuso horário.

- As estações do ano serem diferentes nos hemisférios.

- A existência de satélites estacionários.

- A força de Coriolis ter diferentes sentidos em cada um dos hemisférios.

- A ocorrência de eclipses.

- E tantas outras coisas que me cansam só de pensar.

Só que nada disso é relevante.

Bom mesmo é desprezar as ciências e todos aqueles que as propagam.

Tomei a única decisão possível para manter a minha sanidade. Não discuto com a raiz quadrada de dois ou com qualquer outra coisa ou pessoa que seja irracional.

Remo Noronha.

Bombeiro por profissão, professor por paixão.

sábado, 3 de outubro de 2020

Solidário ao solitário

 

Vão ter que reescrever aquilo que sabíamos dos planetas, depois de toda a confusão de Plutão descobriram um deles andando solto por aí.

Um planeta que não vive nas barras da saia de uma estrela.

Deve ser bacana e o passaporte desse cara deve ter mais carimbo do que cartório de cidade grande. Só que não! Qual é a nacionalidade dele?

Porém, o choque mesmo veio quando me disseram que é um planeta órfão.

Então, toda minha solidariedade a este incrível viajante. Sei que ele tem alguns milhões de anos, mesmo assim deve ser difícil não ter a mãe por perto. A minha partiu há uma eternidade, mas ainda sinto uma tremenda falta dela.

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Pessoas difíceis


Ela chega meio assim: “Sou sanguínea”. “Sou Complicada”. Ou... “Sou difícil mesmo”.

A expectativa criada é que o mundo se mova, preferencialmente modificando sua trajetória elíptica, para que não haja qualquer colisão.

Pode ser na fila do caixa. Há sempre alguém com uma pressa incomum e com necessidades mais especiais do que quem realmente as têm.

Pode ser no trânsito... e tome fechada.

Pode ser no trabalho. O que vai um pouco além do óbvio “dê poder para conhecer”, na verdade basta entrar em alguma bola dividida. Bolas divididas são reveladoras.

Não sei se ser de uma cidade imperial aguçou minha percepção. Estes tipos de figuras acham que têm um rei na barriga. Agem como quem pisa nos astros distraídas, mas não têm o charme que imaginam. São insuportáveis mesmo.

Já tive que lidar com muita gente assim. Hoje, não mais.

Há quem me pergunte se o melhor da aposentadoria é não ter que trabalhar. O que está longe de ser verdade, principalmente no meu caso, pois os dois trabalhos que tive na vida foram muito mais fonte de realização do que de frustação.

O melhor mesmo é não ter que lidar com malas.

Meus cabelos brancos fazem questão de se cercar de pessoas que me amam, que me enchem de felicidade, que me ensinam, que me estimulam. Um luxo, que não se encontra facilmente no mercado de trabalho.

Então, se você quer ser alguém difícil para mim saiba que não vou fazer questão de bater de frente. Entretanto, vou dar uns passos firmes, pois vetores têm direção, sentido e intensidade definidos. E eles vão me levar onde nenhum homem jamais esteve.

Afinal há algumas pessoas que quero bem... Bem longe.

terça-feira, 15 de setembro de 2020

paisagem

Vejo o céu desbotar em diversos azuis. 
A linha do horizonte, curva de raio imenso separa outros tons de verde do azul que mergulha com o cheiro das gaivotas.
Ouço o vento soprando o alvo de seu cabelo.
Saboreio a luz do dia.
Toco a alma do infinito.
Nada me pertence 
Mar, céu, vento, gaivota...
Sequer a menina.
Mesmo assim o mundo é meu.
Ou pelo menos, neste pedacinho de instante se projeta em minha retina.

quinta-feira, 30 de julho de 2020

sábado, 25 de julho de 2020


LIGAÇÕES
Spoiler Alert (não chega a estragar
 a trama, mas falo da terceira temporada de DARK)
Tenho uma qualidade em comum com algum dos meus amigos: só consigo ser engraçado quando não tento ser. Porém, se conto uma piada o fracasso é quase certo. Acabam fazendo o tipo ‘vou rir para não perder o amigo” ou “vou rir de raiva ou de pena”. Mesmo assim vamos lá:
-         Você sabe o que o Carbono disse ao delegado Benzeno?
-        
-         …..
-         ……
-         Eu tenho direito a quatro ligações!
Cai o pano (bem rápido, já começaram a jogar tomates!)
Esta aí me voltou a cabeça ao ver DARK. A série redefiniu a expressão filha da mãe, pois uma das personagens é filha da filha em toda aquela confusão de viagens ao passado e “paradoxos de fluxos temporais” (acho que é a primeira vez na vida que uso esta expressão em um contexto adequado – quando eu era moleque falava isto ai para acabar com qualquer discussão.)
A cena da mãe-filha-mãe... entendendo a profundidade da ligação delas é no mínimo pungente. Não consigo imaginar nenhuma ligação humana ser mais profunda que o binômio mãe-filha, imagina quando esta relação se amplia.
Assim como o carbono temos direito a várias ligações, inclusive com a mesma pessoa. De fato, as relações começam a enriquecer quando você é amigo de seu pai, professor de seu filho, sócio de seu primo, amigo do padeiro ou confidente do motorista de taxi.
É por isso que a maior dificuldade que o luto traz é entender a perda de alguém que significa tantas coisas para você.
Assim como personagens de um bom livro, as pessoas ao seu redor, passam a ser interessantes quando as relações começam a ganhar complexidades que ultrapassam o óbvio, o maniqueísmo e o estereótipo.
Se você acha que tais relações só aparecem na ficção observe bem em sua própria família como os mais velhos vão paulatinamente mudando de lugar no palco da vida. E quando a sua mãe se transformar em sua filha não esqueça de contar uma boa história para dormir.


quinta-feira, 11 de junho de 2020


Nike foi retratada em um dos livros de Percy Jackson como um ser inquieto. Antes de ser conhecida como uma marca desportiva ela era aquela deusa alada nas mãos de Athenas. Se eu disser o nome romano dela tudo passa a fazer sentido: Vitória.
Neste momento que estamos tendo que lidar com tantas perdas é necessário entender como levantar a cabeça, mesmo quando não chegamos no topo do podium.
Por tremenda coincidência ou por profunda sensibilidade de um DJ ouvi duas belas canções consecutivamente: “Marvin” e “Alone again”. Ambas têm uma batida desconexa com o texto. São histórias profundamente tristes com um compasso desconcertantemente dançante.
Um estranho pensamento me veio naquele momento. O que mais lembro do Pelé são justamente três gols perdidos. A visão de chutar do meio do campo. A defesa do goleiro inglês, prevendo o futuro e pulando para o lado certo, um gato esticado. Ou (muito) melhor ainda foi ver o goleiro uruguaio ficar totalmente perdido naquilo que não foi (nem de longe) um lance de futebol, mas um passo de balé.
Você pode ter todas críticas do mundo ao Edson que ele era antes do nascimento de Pelé, como pode ter a qualquer outro ser humano. Já falar mal do craque naqueles lances é complicado. Nós podemos até saber perder gols, mas não com toda aquela arte.
A competição exacerbada pela deusa alada e suas promessas de louros e medalhas no final não podem deixar que venhamos a perder aquilo que nos faz humanos.
Incontáveis vezes perdemos. Você pode preferir ser exonerado a aceitar uma sacanagem qualquer. Um piloto pode perder um campeonato mundial por ter um adversário batendo nele propositalmente. Cassandra perdeu a sanidade tentando avisar que a cidade estava perdida. Marvin pode estar sozinho novamente, sem os carinhos dos pais e sem colheita para se sustentar. Podemos perder um emprego. Um amor. Até mesmo pai e mãe.
Acredito que há momentos nos quais devemos deixar a Nike de lado e compreender o quanto (e como) perder nos define. Se você não acredita, veja novamente aqueles três gols perdidos volte a conversar comigo.
Mesmo assim não perca a esperança.