Em seu caminho brotam flores e frutos
As aves cantam
Depois voam
Elas não lhes pertencem
Como nada a ninguém
Elas lhes tocam o coração e partem
O coração se parte
O coração se abre
Para o meu amigo que não tem gaiolas
Em seu caminho brotam flores e frutos
As aves cantam
Depois voam
Elas não lhes pertencem
Como nada a ninguém
Elas lhes tocam o coração e partem
O coração se parte
O coração se abre
Para o meu amigo que não tem gaiolas
A palavra vem de torcer que é o que as jovens faziam com seus lenços brancos, cujo propósito original seria acenar para os seus jogadores prediletos. Então a pergunta: “por quem você torce” se tornou o modo oficial de entender uma paixão incompreensível.
Aí alguém lá longe no campo chuta um objeto esférico,
que teima em quicar e rolar (aquele que chamo de Vossa Excelência), e este toca
as redes de um modo peculiar, é a pesca de um enorme atum.
Delírio.
Orgasmo coletivo por procuração.
Você não chutou nada. Não cabeceou nada. Não treinou a
semana inteira. Não entrou em campo com um tornozelo que mais parecia o pilar
do World Trade Center. Não tomou cotovelada do zagueiro de dois metros e noventa.
Não tomou um cartão amarelo porque reclamou. Não sentiu seu pulmão quase
explodir na corrida. Não deu um biquinho no momento certo.
Seja como for você grita!
E também o narrador que vai dizer: “lindo, lindo,
lindo”, ou “ripa na chulipa”, ou ainda (meu preferido) “olha lá, olha lá, no placar!”.
E também o empresário que trouxe um cara lá da Itália
para ver o seu atleta.
E ainda o dirigente que via as chances de reeleição minguando.
E o patrocinador que vai ver sua marca em destaque.
E o político que vai usar a camisa do time na próxima
live.
Não importa: você vai abraçar o cara ao lado, um maluco que você nunca viu antes e pular que nem pipoca.
Esse gol é seu.
Dentre diversas coisas pelas quais passamos uma delas, que não me esqueço, foi o fato de que tive o privilégio de ser professor.
Naquela época eu brincava contigo e dizia que era
ótimo ter um aluno no qual eu podia dar uns cascudos sem que o pai reclamasse. Então,
a frase “poooorrrr faaaavooooorrrr Francisco!” Ficou famosa no Colégio Rogelma.
Sei que no todo valeu muito a pena, superando a máxima
de que dois bicudos não se beijam; uma vez que personalidade marcante, senso de
justiça próprio e teimosia parecem ser atávicos.
Com o passar do tempo tive a chance de lhe explicar que
a soma dos quadrados dos catetos equivale ao quadrado da hipotenusa, e aprendi que
eu sou um geômetra que formou um algebrista. Também lhe ensinei que a Terra é
Geoide, para somente com a série atual da franquia Star Trek você finalmente
entender que devemos ir aonde nenhum homem jamais esteve. Passei muito tempo
lhe doutrinando para finalmente nos encontrarmos na mesma torcida, mas ainda
cabe a você aprender sozinho a lidar com as próprias derrotas. E recentemente tenho
lhe ensinado que as palavras o vento leva, só que as suas colocações me mostram
que hoje você tem muito mais clareza de como lidar com seus desafios profissionais do que eu jamais pude.
Também aprendi. Aprendi muito. Entretanto, vamos
combinar que hoje não estamos aqui para falar de mim.
Hoje quero lhe ensinar a última lição antes de você se
transforme em um trintão, e como é uma lição difícil você vai ter um ano inteiro
para ruminar a simples ideia que vou lhe passar: Você bem sabe que em inglês você
não vai ter 29 anos, você vai to be 29. Eis aqui meu segredo: os ingleses foram
muito mais sábios... os anos não lhe pertencem, no máximo você pode ESTAR por
ali em um breve momento.
Então: Viva! Curta! Aprenda! Siga adiante!
Esse momento também vai passar.
Quanto a pertencer, saiba que pouquíssimas coisas são
suas. E uma delas é o meu coração.
Não sou um remo que rema
Sou um remo que rima
As palavras que não me pertencem
Assim que comunico a ação
A meta é a metáfora
O pulmão da mente
Quando entra é inspiração
Quando sai é ex...piração
Exausto me posto
E venho a público pelo avesso
Trago a alma para a rua
Nua, crua e finalmente sua.
Um dia vi um lobo falando bem dele dizendo basicamente que ele era um líder que falava o que pensava.
Não esqueço do alerta da Lupina: há lobos que se
vestem com a pele de cordeiro, mas também há lobos que se vestem com pele de
lobo.
Enfim, é preciso mais que intuição para avaliar o lobo
que chega. Cansei de ver lobos velhos se enganarem sobre o caráter dos outros
como se fossem filhotes.
Alguns sinais são óbvios:
- Se não trata uma loba como a encarnação da Grande
Loba.
- Se valoriza demais a matéria.
- Se perde o controle com facilidade.
- Se tem todas as respostas sobre o que é sagrado, mas
desconsidera qualquer visão diferente.
- Se cansa falar de sua própria integridade, mas de um
jeito ou outro acaba tirando vantagens.
Ou ainda:
- Se um lobo fica o tempo todo lembrando quem ele é,
provavelmente ele mesmo não sabe.
Mas principalmente:
- se traz a fagulha do ódio nos olhos.
Outros detalhes são mais sutis, e se resumem em uma
intuição diáfana e um cheiro podre que não conseguimos definir muito bem.
Assim foi a chegada do Rasteiro.
Eu imaginava que ele não conseguiria enganar a ninguém.
Tão direto era o seu ódio e a maneira com a qual ele sempre desprezou as seguidoras
da Grande Loba. Sei que já disse isso antes: não há nada de errado em seguir o
Grande Cão, mas há muito de desprezível naqueles que não respeitam a centelha
do sagrado nos outros.
E assim ele trouxe a semente do ódio, travestida em
culto ao Grande Cão.
O ódio se espalhou por todas as terras.
Mas de tudo o que mais lamento foi a corrupção chegar
aos corações dos inocentes e dos simples.
Cães e o lobos que antes amávamos hoje rosnam quando
passamos. E se não tem motivos para nos odiar, inventam. Eles não têm muito a
ganhar com isso. Mal sabem que o ódio é filho da ganância. É um ferrão que fere
a quem atinge, mas também mata a abelha.
Um dia eu estava morto de fome.
Não tinha opção, ou me aproximava da fogueira para
comer restos ou não conseguiria dar mais um passo.
Ao invés da agressão recebi uns tapinhas na cabeça e mais
comida do que eu tive em um mês.
Dizem que ele não conhece cheiros e não sabe uivar e
que o cheiro dele lembra uma galinha molhada.
Só que de um jeito estranho sei exatamente o que ele
quer dizer.
Várias noites passaram.
Logo entendi qual deveria ser meu trabalho: proteger meu
humano toda vez que ele fosse dormir.
Espanto qualquer um que possa pôr em risco sua vida
terrena ou espiritual.
Com o tempo fui me deitando cada vez mais perto.
Mesmo que ele faça algumas coisas estranhas, como me mostrar
os dentes, é claro que sei que ele me ama. Sinto o cheiro de ocitocina cada vez
que ele uiva de um modo estranho com um som que parece Thothou.
Em um dia frio ele me abraçou a noite toda.
Se isso não é amor, não sei o que é.
Sei que você deve achar estranho, mas digo sem nenhum
medo de errar, até poque a Grande Loba tem formas estranhas de se manifestar:
aquele humano é meu filhote.
Muitas vezes me pergunto: qual é o tamanho de minha matilha?
Não é pequena.
Tenho muitos irmãos e irmãs, tios e tias, sobrinhos e sobrinhas,
pais e filhos, primos e primas.
Sangue fala alto, mas não é essa a fronteira final.
A terra onde nascemos diz muito, mas quem se restringe
a ela sempre acaba se tornando em alguém mais preocupado em odiar quem é
diferente do que em amar a quem é próximo.
Então, fica a pergunta que teima em se repetir: qual é
o tamanho de minha matilha?
Sei que mesmo tendo tantos irmãos adotei tantos outros.
Sei que o sangue daqueles que sequer conheci trazem no
fundo a mesma cor e essência.
Sei que a Terra é uma só.
Então minha matilha não deveria ter tamanho.
As terras em que passei, os irmãos que adotei e o
sangue que passou pelo meu coração dão a noção exata da medida do que não se
pode medir.
Passagem.
É isso! A matilha pede passagem.
E pelo mundo no lufar de um vento que leva para o
alto meus sentimentos de pertencimento são sementes de dente-de-leão que se
espalham.
E a toca nos espera em no único cantinho de chão que realmente nos pertence.
Um lugar onde somos todos iguais.