terça-feira, 21 de abril de 2026

UTOPIA

Dentre todas minhas qualidades inúteis há uma que se destaca. Se eu ouvisse uma música umas três vezes quando era moleque ela grudava em minha memória. Minha namorada ainda se espanta quando tiro uma canção vinda de mil novecentos e guaraná de rolha do baú e a canto bem certinha. Como se na minha caixola ela estivesse gravada em alguma fita cassete.

Canso de dizer que só conseguimos aprender algo se esse algo faz sentido. Então isso de saber canções de cor pode até parecer estranho. Talvez a resposta seja o fato de que a música faz sentido por si só.

Para mim a coisa só fica complicada se a letra fica diferente para a mesma música. Um bom exemplo disso é Construção do Chico. Para essa realmente preciso da letra para não embolar o meio de campo. Outra bem complicada era, não menos que, nosso hino (desculpa ai, qualquer um pode cometer alguma cacofonia). Entretanto nesse caso apreendi um macete: primeiro a gente sonha, depois a gente ama.

O fato é que estamos em momentos tão extremados que nos acostumamos a já chegar na conversa buscando um meio termo. Aqui a música velha que quica na cabeça deixando um galo diz sem a menor vergonha “bicho sai do lixo, baratas mostrem suas patas...” Se tornou tão comum ter que lidar com opiniões escrotas ninguém se espanta se a proposta que vem de lá aponta que a escravidão não foi tão ruim assim, que mulher tem que ganhar menos mesmo e ser submissa, prefiro ter um filho morto do que gay ou aceita que mundo é assim mesmo.

Desculpe, não ser nada pragmático. Meu ponto de partida ainda é a utopia. Meu coração ainda sabe de cor, então ainda posso andar pelas ruas cantando um novo tempo apesar dos castigos. Do jeito que a coisa vai corremos o risco de que nem isso poderei fazer em breve. Se assim o for quando eu não puder pisar mais na avenida... o meu anel de bamba entrego a quem mereça usar.

 

 

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