Dentre todas minhas qualidades inúteis há uma que se destaca. Se eu ouvisse uma música umas três vezes quando era moleque ela grudava em minha memória. Minha namorada ainda se espanta quando tiro uma canção vinda de mil novecentos e guaraná de rolha do baú e a canto bem certinha. Como se na minha caixola ela estivesse gravada em alguma fita cassete.
Canso de dizer que só conseguimos aprender algo se esse
algo faz sentido. Então isso de saber canções de cor pode até parecer estranho.
Talvez a resposta seja o fato de que a música faz sentido por si só.
Para mim a coisa só fica complicada se a letra fica
diferente para a mesma música. Um bom exemplo disso é Construção do Chico. Para
essa realmente preciso da letra para não embolar o meio de campo. Outra bem
complicada era, não menos que, nosso hino (desculpa ai, qualquer um pode
cometer alguma cacofonia). Entretanto nesse caso apreendi um macete: primeiro a
gente sonha, depois a gente ama.
O fato é que estamos em momentos tão extremados que
nos acostumamos a já chegar na conversa buscando um meio termo. Aqui a música velha
que quica na cabeça deixando um galo diz sem a menor vergonha “bicho sai do
lixo, baratas mostrem suas patas...” Se tornou tão comum ter que lidar com opiniões
escrotas ninguém se espanta se a proposta que vem de lá aponta que a escravidão
não foi tão ruim assim, que mulher tem que ganhar menos mesmo e ser submissa, prefiro
ter um filho morto do que gay ou aceita que mundo é assim mesmo.
Desculpe, não ser nada pragmático. Meu ponto de partida
ainda é a utopia. Meu coração ainda sabe de cor, então ainda posso andar pelas
ruas cantando um novo tempo apesar dos castigos. Do jeito que a coisa
vai corremos o risco de que nem isso poderei fazer em breve. Se assim o for quando
eu não puder pisar mais na avenida... o meu anel de bamba entrego a quem mereça
usar.
Uma utopia perfeita,
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