terça-feira, 14 de julho de 2026

CLANDESTINA

Isso é uma metáfora, como todo texto. É o que minha versão de 61 anos diria para outra com apenas 9. Naquela época meu irmão estava preso e eu tinha acabado de ver um desses enlatados made in USA na sessão da tarde. Nele Robin Hood também estava na cadeia por combater as injustiças daqueles que estavam usurpando o poder. Logo chega o frei Tuck dizendo que iria libertá-lo só que a cena não tem nada de espetacular, pois quando o saltimbanco pergunta como o religioso iria fazer isso, a resposta foi longe de cinematográfica. Mostrou uma moeda de ouro, chamou o guarda e disse: eis aqui a chave.

O menino que eu era não conseguia entender o porquê de não levar uma moeda para libertar o Rômulo do mesmo jeito.

Ainda nessa semana saiu de outra cadeia uma informação, dessa vez de uma mansão no capital (desculpem o ato falho – na capital) do país. Nela o preso pôde enviar um bilhete e esse diz para onde as moedas devem ir. Isso é possível por fazer parte de um clã. Dona Maria Augusta só tinha coragem para traçar o seu destino.

Ela acompanhou o filho como quem vai em uma procissão em busca de um milagre. A Fortaleza de Santa Cruz, Ilha Grande, Frei Caneca estavam em seu roteiro. Não tenho ideia de quantas humilhações ela passou somente nas revistas onde quase a viravam do avesso. Só muito mais tarde vim a saber que ela fora responsável por fugas espetaculares e o contato entre quem estava dentro e fora do catre. Como ela não tinha moedas suficientes para libertar ninguém ela usava.... cigarros. A palha era retirada cuidadosamente e substituída por bilhetes minúsculos enrolados e finalmente encimados por parte da palha que voltava.

Olhando agora parece algo pequeno. Contudo, cabe lembrar que teve gente torturada até a morte por muito menos. A segunda parte da missão era mais agitada. Ela teria que chegar aos aparelhos sem ser seguida pelos agentes. Só que ao invés de tentar disfarçar ela simplesmente os cumprimentava nos ônibus que pegava e agradecia a segurança estatal.

Um dia quase tudo deu errado. Ela tinha em suas mãos algo profundamente perigoso naqueles anos de chumbo. Uma arma temida pela repressão. Um livro. Sua ousada tática de esconder usando a luz do dia como disfarce foi finalmente descoberta. Entretanto, ainda tinha duas vantagens: sua habilidade como atriz de circo e o conhecimento do bairro em que foi encurralada. Quando os homi chegaram ela jogou o pacote por cima de uma cerca e fez sinal de silêncio para os moradores. Ao mostrar suas mãos vazias um batimento cardíaco infinito lhe cortou a garganta, mas uma certeza a salvou, lá as pessoas confiavam mais nos fugitivos do que na polícia.

Quanto ao livro, até hoje não sei qual é. Livros libertam mais que moedas.

Um comentário:

  1. Que maravilha essa narrativa da vida real, que lendo aqui nessa crônica me parece roteiro de filme de ação.

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