sábado, 22 de agosto de 2026

UNI, DUNI, TÊ

Começo com uma pergunta de criança: “para que devemos colocar um pula, pula no polo?”, perguntas de crianças são verdadeiros tratados filosóficos, o problema é que não paramos muito para pensar, em especial se tivermos uma resposta pronta, do tipo: “para o urso polar”. Outro entrave é que pensamos estar terrivelmente bipolares, onde particularmente percebo não haver simetria.

O pensamento me atravessa a alma, ou pelo menos o cérebro, enquanto ainda não estou lobotomizado. Essa incrível máquina biológica pode ser vista como duas: a direita que controla a esquerda e a esquerda que controla a direita, ou ainda três se considerarmos um tal de corpo caloso que junta as duas. Se a enxergarmos através do tempo elas são várias que foram se sobrepondo em um balé performado pelo crescimento embrionário, que por sua vez conta a história da evolução.

Outra pergunta infantil acaba de me ocorrer: “porque a mamãe jacaré ficou triste com o jacarezinho?”, antes de responder que ele “réptil de ano”, lembre que toda a violência que nos moldou tem um espaço bem-marcado em uma estrutura parecida com uma amêndoa que é responsável por nossas respostas de fuga ou luta. Ou seja, os malucos que dizem por aí existir reptilianos não estão de todo errados, pois isso tudo faz parte de nós apesar de nos definirmos como primatas. Ou seja, a violência e a covardia se retroalimentam se não nos firmarmos como humanos.

Então a grande questão não é perguntar o que veio antes, a resposta certa é o ovo, pois as aves só foram construídas evolutivamente falando muito depois desse tipo de reprodução. E sim perguntar o porquê de estarmos repetindo comportamentos improdutivos, mesmo sabendo que os resultados não são bons.

Estamos cada vez mais sendo forjados para ostentar o ego e buscar respostas individuais, fugindo da percepção que a própria palavra nos põe na condição de sermos indivisíveis da dualidade. Não existe resposta razoável para curar a loucura de um. Se Freire enunciou que ninguém educa ninguém sozinho e que as pessoas se educam em comunhão, ouso dizer que o mesmo ocorre com a loucura.

Fico certo disso quando chego em casa e sou recebido por uma labralata, labradoida saltitante. Ela me oferece a resposta à pergunta quase infantil “você acredita mesmo que o homem veio do macaco?”. Ao latir ela meio que me responde que todos nós temos um ancestral em comum. E assim como ensinou Gonzaguinha eu fico com a pureza da resposta das crianças: “uni, duni, tê, meu preferido é você.

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