sexta-feira, 14 de agosto de 2026

SOBRE TRENS, PEQUISA E CINTOS

 

Chego no prédio e aguardo o elevador, logo vejo uma senhora que diz: "ainda bem meu filho, tenho medo de entrar nesse trem sozinha", respondo que ele é mais seguro que a maioria dos outros trens. Por sua vez ela replica: "em BH um já parou entre dois andares".

No mesmo instante reflito: sabe aquela conversa de que números não mentem, mas é possível mentir usando números? O nome disso é estatística. O que, todavia, nos oferece uma chance de compreender tendências.

O oposto é tomar toda a realidade a partir de uma experiência pessoal, o que chamamos de evidência anedótica. Apesar desse nome nem sempre é um fato engraçado, como o que ocorreu com um dos meus melhores amigos. Ele estava dirigindo sem cinto de segurança e, atento percebeu que o carro à sua frente acabara de colidir em um poste que começou a cair. Ao invés de frear ele teve uma incrível presença de espírito e se jogou para baixo do banco. Assim ele viveu para contar a história de como seu carro teve o topo arrancado. Porém esse caso peculiar não deve ser usado para condenar o uso de cintos de segurança.

Penso nisso tudo cada vez que vou explicar o que é probabilidade, média, mediana, moda ou desvio padrão. Digo aos alunos que não dá para quem quer que seja tentar fugir da realidade com o discurso de ser de humanas.

Por exemplo, se você quer fazer ciência política há que entender que a margem de erro em uma pesquisa eleitoral existe devido a ser inviável perguntar a opinião de toda população. isso vai redundar no conceito de amostra. A mesma consideração deve ser feita por um médico que não pode retirar todo o sangue todo de um paciente parta saber qual mal o aflige. Se é farmacêutico tem que entender que todos os efeitos colaterais devem ser listados na bula, entretanto a tal da prevalência vai te dar uma noção da chance deles acontecerem.

Por outro lado, observo que em geral professores vivem defendendo exageradamente a importância do que ensinam. Então devo reconhecer que sendo de exatas meus cuidados com a língua portuguesa não ultrapassam muito o que aprendi no curso de lógica, do ciclo de Krebs pouca coisa ficou em meus neurônios além de fato de ser um processo de troca ou acumulação de energia e ainda que não sei quais são os afluentes da margem direita de qualquer rio.

Em contraponto, passei a entender um pouco de história depois de ler um livro que dizia que as relações de poder podem ser explicadas pela economia. Assim lá vamos nós tentando diminuir a distância entre as pessoas que passam nas ruas e as que frequentam a academia.

Entre discursos antivacina, terraplanistas e advogados de drogas milagrosas finalmente compreendo que educar não pode entrar em qualquer planilha apenas como somente um custo. Afinal não passamos de primatas desconfiados, cuja vocação para ignorância pode custar a existência de nossa própria espécie.

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