Chego no prédio e aguardo o elevador, logo vejo uma
senhora que diz: "ainda bem meu filho, tenho medo de entrar nesse trem
sozinha", respondo que ele é mais seguro que a maioria dos outros trens.
Por sua vez ela replica: "em BH um já parou entre dois andares".
No mesmo instante reflito: sabe aquela conversa de que
números não mentem, mas é possível mentir usando números? O nome disso é
estatística. O que, todavia, nos oferece uma chance de compreender tendências.
O oposto é tomar toda a realidade a partir de uma
experiência pessoal, o que chamamos de evidência anedótica. Apesar desse nome
nem sempre é um fato engraçado, como o que ocorreu com um dos meus melhores
amigos. Ele estava dirigindo sem cinto de segurança e, atento percebeu que o
carro à sua frente acabara de colidir em um poste que começou a cair. Ao invés
de frear ele teve uma incrível presença de espírito e se jogou para baixo do
banco. Assim ele viveu para contar a história de como seu carro teve o topo
arrancado. Porém esse caso peculiar não deve ser usado para condenar o uso de
cintos de segurança.
Penso nisso tudo cada vez que vou explicar o que é
probabilidade, média, mediana, moda ou desvio padrão. Digo aos alunos que não
dá para quem quer que seja tentar fugir da realidade com o discurso de ser de
humanas.
Por exemplo, se você quer fazer ciência política há que
entender que a margem de erro em uma pesquisa eleitoral existe devido a ser inviável
perguntar a opinião de toda população. isso vai redundar no conceito de
amostra. A mesma consideração deve ser feita por um médico que não pode retirar
todo o sangue todo de um paciente parta saber qual mal o aflige. Se é
farmacêutico tem que entender que todos os efeitos colaterais devem ser
listados na bula, entretanto a tal da prevalência vai te dar uma noção da
chance deles acontecerem.
Por outro lado, observo que em geral professores vivem
defendendo exageradamente a importância do que ensinam. Então devo reconhecer
que sendo de exatas meus cuidados com a língua portuguesa não ultrapassam muito
o que aprendi no curso de lógica, do ciclo de Krebs pouca coisa ficou em meus
neurônios além de fato de ser um processo de troca ou acumulação de energia e
ainda que não sei quais são os afluentes da margem direita de qualquer rio.
Em contraponto, passei a entender um pouco de história
depois de ler um livro que dizia que as relações de poder podem ser explicadas
pela economia. Assim lá vamos nós tentando diminuir a distância entre as
pessoas que passam nas ruas e as que frequentam a academia.
Entre discursos antivacina, terraplanistas e advogados
de drogas milagrosas finalmente compreendo que educar não pode entrar em
qualquer planilha apenas como somente um custo. Afinal não passamos de primatas
desconfiados, cuja vocação para ignorância pode custar a existência de nossa
própria espécie.
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