terça-feira, 29 de setembro de 2026

MÃE PRETINHA





Começo com uma anedota infeliz, a professora pede para o Joãozinho fazer uma redação com a frase “mãe só tem uma”, então ele escreve que um dia a sua pediu para pegar duas Brahmas na geladeira, bem o resto vocês podem intuir.

Se voltarmos ao tempo das mães pretas em uma sociedade em que as brancas estavam muito ocupadas em fazer... sei lá o que elas faziam. Só as mães pretas conseguiam acalmar o bebê para que fosse feito o tal do daguerreotipo, a fotografia da época, cuja a execução exigia uma eternidade em uma pose qualquer. Assim quando reproduzimos a frase proposta na redação negamos o nosso sangue mestiço de genética, cultura e religiosidade.

Sobre minha mãe já falei três coisas em um texto anterior. Hoje direi a quarta. Essa só vim saber um pouco depois de entrar na igreja Nossa Senhora do Carmo, tirar os sapatos e encontrar as lágrimas que me faltaram em seu velório.

Ainda estava bem para baixo quando encontrei a dona Eni, que recebeu meu abraço triste e respondeu: Deus te abençoe, meu filho, antes mesmo de lhe pedir: minha benção, mãe pretinha. Então ela me conta, um segredo compartilhado entre duas mães: Remo, antes de sua mãe partir ela pediu para que eu cuidasse de você. Gustinha era tão generosa que agiu como a mãe pressionada diante do rei Salomão. Ela jamais deixaria de ser minha mesmo que me desse para dona Eni. Nem preciso dizer que chorei novamente.

No epílogo de Brumas de Avalon Morgana entra em um templo para, finalmente, entender que a Deusa de seus ancestrais apenas mudara de forma e vestido um manto azul.

Infeliz da espiritualidade que nega o feminino, pois nos dias em que pensei estar partindo o trecho da oração que me veio fala sobre a grande advogada, ou simplesmente mãe.

Diante de tempos que podem se apresentar distópicos é contemplando ela que nos ajoelhamos: Mãe Pretinha orai por nós!

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

THOSE SHADOWS MAKE ME CRY

 Toda semana recebo mensagens de um amigo que lê. Assumo não conhecer todos os autores que ele cita, não me orgulho disso. Se eu pudesse, tivesse mais tempo e menos preguiça adoraria ter o superpoder de ler tudo que já foi escrito. O lado bom disso tudo é ver opiniões diferentes de quem já leu o que não li.

Hoje vou tentar fazer o contrário e trazer a ele algo fresco como um morango recém-colhido, algo apontado pelo meu segundo psicólogo predileto (prefiro meu terapeuta) um cara que trouxe a luz o conceito de sombra.

Somos o que de claridade trazemos ao mundo e lá dentro algo criativo, que muitas vezes negamos ser nós mesmos. Não é mero maniqueísmo. Entre interno e externo, alto e baixo, masculino e feminino, saudável e doente; ora observo, ora nego que meu duplo pode me dizer.

Comecei ontem mesmo criticando o conteudismo inócuo trazido as nossas pobres crianças do primeiro segmento do ensino fundamental, amordaçadas por uma estrutura que os obriga a simplesmente memorizar. De que serve saber que progenitora Francisca ficou estupefata com a onomatopeia emitida pelo felino ao invés de cantar atirei o pau no gato? Logo meu duplo reclama que sequer os pais valorizam o que é ensinado para os pimpolhos. Tento firmar o pé dizendo que não é possível aprender o que não se compreende. Ele retruca mostrando sua nota maravilhosa do IDEB. Como sou velho, ele novo, compreendi que ainda não percebeu que o primeiro passo de uma avaliação é saber a intenção do avaliador.

Do nada, do nada mesmo. Tem a pachorra de dizer que não tem empatia e decide mudar de assunto trazendo sua opinião sobre a escala 6x1. Ele é professor se esforçou para chegar até ali, porque deveria se incomodar com os motoboys que passam o dia sentados no chão, aguardando sua próxima entrega precarizada? Apesar de discordar profundamente com o que diz, reconheço que temos ponto em comum: o conforto. Este é o espólio de tantas batalhas e ainda a medalha que o moleque conquistou: a lama no sapato. O que penso, no entanto, é que mais valia a riqueza que construí para outros.

Ele insiste que acompanha um coach e vai ser bilionário. Até vi um estudante de classe média passar por esse processo, mesmo assim tento lhe dizer que é apenas uma exceção que confirma a regra de que para chegar lá é necessário ser da linhagem de quem recebeu capitanias hereditárias.

Bem sei que ele esperou que eu saísse para falar mal de mim. Nem posso reclamar, pois nisso somos iguais. No fim ficamos como a Eleanor Rigby e ninguém é salvo. Entre competição e colaboração, direito individual e coletivo, espalhar ou concentrar riqueza continuamos eu e minha sombra vivendo sob a bandeira de um país que é mais que dividido, é paranoico.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

RESPEITA (SÃO) JANUÁRIO

O maior sanfoneiro de todos os tempos desse país não esqueceu. Também não esqueça: não importa o quanto ele fosse capaz de fazer mágica ao invés de simples música.. Então fez questão de registrar que o que tantas vezes ouviu nos bailes de sua juventude: Luiz, respeita Januário.

Os oito baixos dele ainda não se comparavam os de quem veio antes. Anos se passam e lá veio Gonzaguinha, dono de uma poesia engajada com a cara de um Brasil capaz de vencer os anos de chumbo.

Sei que você é todo amor, mas lembre de que a base do caráter é a mesma do caratê. Pés sólidos no chão antes de qualquer defesa. Ao chegar no tatame nós cumprimentamos a tudo e a todos, desde os mestres até o adversário.

Sobre amor e respeito vou rememorar de duas histórias.

Um dia, adolescente, você fingiu prestar continência ironizando meu jeito nada delicado; então lhe disse que você não tinha obrigação de fazê-lo. Afinal você não era militar, mas se o fizesse que olhasse em meus olhos, estufasse o peito e lembrasse que verdadeiros heróis já me prestaram continência.

Outro dia estivemos diante de daqules que poderiam facilitar seu caminho. Recusei, pois tinha certeza de que juntos superaríamos isso tudo. E você cumpriu sua parte com tamanho heroísmo que hoje eu que lhe presto continência.

No fim tudo vai dar certo, o espelho não se quebrou.

Um dia espero que conte tudo isso a seu filho, e se ele tiver alguma grande alegria para te contar, que o faça em São Januário.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

ANDAR COM FÉ

 

Há muitos dias de minha vida que eu não queria ser tão cético. Assim ajo como se não o fosse. Posso até usar a frase de gente humilde do Chico, pois eu que não creio peço a Deus por minha gente. Deixa-me me explicar um pouco melhor: quando digo ser agnóstico não se trata simplesmente de tentar ser morno e não assumir ateísmo. Sou radical neste ponto, pois minha posição vai na raiz da palavra: o A de negação precedendo a gnose, ou seja, o conhecimento.

Enfim, se há um princípio inteligente criador dessa loucura toda assumo não ter a mínima ideia de como Ele fez isso tudo, nem como a parada toda funciona. Perceba aí, que é uma posição muito incômoda, pois não tenho o mesmo consolo que o Dorival Caymmi ao se referir a mãe que lhe disse: “meu filho ande direito, que é para Deus lhe ajudar”. Digo isso por observar muitas vezes que justo o contrário ocorre.

Tendo visto tantas crises ao longo da vida é fácil perceber o quanto os bombeiros portugueses estão certos em seu lema “nada do que é humano nos é estranho”. Mesmo sabendo a intencionalidade da frase no sentido de que tudo que é humano os move adiante; assumo outra interpretação bem mais seca. Já vi atos magnânimos e heroicos, mas também vi “gente” vendendo garrafa de água a preços estratosféricos em cada uma das emergências em que participei.

Então pergunto como dar a outra face seja essa de meu rosto, ou de minha mão diante de um mundo que vive dando na nossa cara. Nessa semana mesmo colecionei mais um “ex-colega”, uma pessoa capaz de se aproveitar de um amigo que está atravessando um verdadeiro deserto. Obviamente essa figura nefasta vai ter uma justificativa qualquer para seus atos. Nisso a vida imita arte da Família Soprano espelhada na tela de minha sala.

Cansado de ver o sangue se espalhar na TV mudamos de canal para um pouquinho de Jornada nas estrelas, em um episódio que se desenvolveu com enorme tensão. Só que aqui não me desespero, diferente de admirável mundo novo, a jornada sempre acaba bem, com uma mensagem de que o futuro reserva o melhor de nós. O que é meu valor mais parecido com o que chamam de religião.

Sei que meu caminho é pouco trilhado, admito que é necessária grande força moral para andar pelo mundo só respondendo a minha própria consciência. O que tenho de fé são alguns amigos, isso canalha nenhum tem de verdade, a esses só restam puxa sacos e capangas.