Toda semana recebo mensagens de um amigo que lê. Assumo não conhecer todos os autores que ele cita, não me orgulho disso. Se eu pudesse, tivesse mais tempo e menos preguiça adoraria ter o superpoder de ler tudo que já foi escrito. O lado bom disso tudo é ver opiniões diferentes de quem já leu o que não li.
Hoje vou tentar fazer o contrário e trazer a ele algo
fresco como um morango recém-colhido, algo trazido a luz pelo meu segundo psicólogo predileto (prefiro meu terapeuta) um cara que trouxe a luz o conceito de
sombra.
Somos o que de claridade trazemos ao mundo e lá dentro
algo criativo, que muitas vezes negamos ser nós mesmos. Não é mero maniqueísmo.
Entre interno e externo, alto e baixo, masculino e feminino, saudável e doente;
ora observo, ora nego que meu duplo pode me dizer.
Comecei ontem mesmo criticando o conteudismo inócuo trazido
as nossas pobres crianças do primeiro segmento do ensino fundamental, amordaçadas
por uma estrutura que os obriga simplesmente memorizar. De que serve saber que progenitora
Francisca ficou estupefata com a onomatopeia emitida pelo felino ao invés de
cantar atirei o pau no gato? Logo meu duplo reclama que sequer os pais
valorizam o que é ensinado para os pimpolhos. Tento firmar o pé dizendo que não
é possível aprender o que não se compreende. Ele retruca mostrando sua nota maravilhosa
do IDEB. Como sou velho ele é novo, provavelmente ainda não sabe que o primeiro
passo de uma avaliação é saber a intenção do avaliador.
Do nada, do nada mesmo. Tem a pachorra de dizer que não
tem empatia e decide mudar de assunto trazendo sua opinião sobre a escala 6x1. Ele
é professor se esforçou para chegar até ali, porque deveria se incomodar com os
motoboys que passam o dia sentados no chão aguardando sua próxima entrega
precarizada. Nisso temos um ponto em comum, hoje tenho o conforto que é espólio
de tantas batalhas que veio com a medalha que o moleque conquistou: a lama no
sapato. O que penso, no entanto, é que mais valia a riqueza que construí para
outros.
Ele insiste que acompanha um coach e vai ser bilionário.
Até vi um estudante de classe média passar por esse processo, mesmo assim tento
lhe dizer que é apenas uma exceção que confirma a regra de que para chegar lá é
necessário ser da linhagem de quem recebeu capitanias hereditárias.
Bem sei que ele esperou que eu saísse para falar mal
de mim. Nem posso reclamar, pois nisso somos iguais. No fim ficamos como a
Eleanor Rigby e ninguém é salvo. Entre competição e colaboração, direito individual
e coletivo, espalhar ou concentrar riqueza continuamos eu e minha sombra vivendo
sob a bandeira de um país que é mais que dividido, é paranoico.
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