Um dos lances de aprender inglês é, finalmente, saber o que dizem as letras das músicas que você curtia antes dessa confusão começar. Quem nunca cantou Ai faida bi dai, ao invés de I started to joke, atire a primeira pedra. Seja como for além da vergonha (própria ou alheia) sempre fica o aprendizado. Um deles é depois de ter trabalhado no curso de inglês, aquele na qual a publicidade orgulhosamente ostenta que “você vai falar inglês igual a americano”, finalmente entender que já sou (latino) americano, que minha obrigação é me fazer entender na minha própria língua, e que tenho que me orgulhar do sotaque de um brasileiro que penou para dominar a língua do dominador.
Voltando as letras das músicas tem de tudo:
1. Algumas
delas são decepcionantes. Letrinhas mequetrefes escondidas em belas canções.
2. Outras
que usávamos para dançar lentinho, definitivamente não foram compostas para
isso, como a melô do papel que versa sobre construção de casas.
3. Há
aquelas cuja história surpreende, como uma das mais lindas dos Beatles cuja
musa inspiradora foi, depois, roubada pelo melhor amigo (que por sinal fez
outros dois verdadeiros hinos a mesma garota.
4. Há
aquelas cuja versão que você ouve não tem qualquer relação com a letra
original, com destaque para Hey Jude na qual Sulivan e Massadas traduziram remember
como esqueça.
5. Há
aquelas que chamam atenção por simplesmente fazer história.
É nesse espírito que
quero dividir contigo os dois sentimentos opostos que uma linda canção do
Vangelis trouxe para minha vida. Quando ouvi Deborah pela primeira vez ela só
me trouxe tristeza. Estava em um baile e tomei uns três tocos antes de me
retrair em um cantinho de minha insignificância. Qual menina ia querer dançar
com um moleque magricelo, pobre e desengonçado?
Uns trinta anos depois
lembrei da canção e decidi que que seu ritmo lento poderia servir para alguma
de minhas aulas, confirmando a vocação de trazer velhas canções para novos
alunos.
Qual foi a minha surpresa
ao entender que ela falava sobre uma carta recebida por pai orgulhoso de sua
filha. Em um trecho ela diz: you're sending your love Thru' the air today, com
referência ao fato de que as tais cartas viajavam de avião, muito antes de
serem ondas de luz através de alguma fibra ótica.
Sei bem que minha
interpretação é muito pessoal e bem forçada, mas como já disse antes todo
tradutor é um traidor, então caso você queira saber o que o autor quis dizer:
pesquise. O que a letra diz para mim é do orgulho da menina que não tirei para
dançar, mas aquela que criamos com amor. É bem provável que minha comissária de
bordo preferida esteja no ar agora em algum avião da LATAM.
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