terça-feira, 7 de outubro de 2025

Quando São Januário é Santo Antônio

 Mariana e Thalles foram comigo a São Januário, mas antes de contar a história deles vou contar como cheguei em casa naquela noite. Arrasado, para resumir em uma palavra.

Se você não torce para o Vasco talvez não entenda. Caso queira assista o vídeo do Porchat falando sobre a relação bipolar que temos com o nosso técnico o amado/odiado Diniz.

Pode ser que você prefira nos entender a partir dos músicos que nos abraçam, não com a calma do Paulinho da Viola, e sim o Martinho da Vila pedindo ao seu amor para lhe curar de um porre, ou mesmo Roberto cantando que se chorei ou se sorri...

Chega de tanto fugir do tema. Vamos ao ponto. Se você quer ver um jogo nosso time faça-o com a devida antecedência, ou simplesmente não dá (a não ser que esteja disposto a ser esfolado por algum cambista na Rua Roberto Dinamite 10).

Píramo compra o ingresso para o setor vip, Tisbe para a arquibancada. Oooooops, na verdade Thalles a sua linda esposa, Mariana. (sei que nessa altura do campeonato você deve estar me xingando pela referência – nada feliz – da mitologia grega). Então o lindo casal está de mãos dadas e coração atado, porem s e p a r a d o s por um alambrado.

O segurança informa: “Não posso fazer nada.” Digo para ele: “cara tenha pena dele, ela é linda, mas é braba. Ele vai apanhar quando chegar em casa!”. Mas não adiantou. Chega o Guilherme, perdido lá de Carmo e me distraio; “Q c tá fazendo aqui maluco?”. Pois assim é São Januário.

Desistimos e vamos para nosso setor.

Mas não fique triste. Logo chega o Thalles, tasca um beijo cinematográfico na Mariana. E o final feliz chega junto com o gol do GB aos 51 do segundo tempo.

sábado, 27 de setembro de 2025

Psicografado

 Tenho exercitado um bocado minha espiritualidade agnóstica. Não sou ateu, o que é explicado pela origem da palavra gnose, ou seja, não saber. Pois é, cada vez sei menos, ou pelo menos tenho uma noção mais clara de minha ignorância, sem me orgulhar dela.  Mesmo assim vez ou outra me pego trazendo palavras daqueles que já partiram.

Tudo começou com a vontade de ter uma máquina de caraoquê, só que pela sugestão de meu amor, se transformou em um violão. Para simplificar digo que minha vontade de cantar (e tocar) música é quase sempre datada, não vou cair na falácia de que o velho é que é bom. Se faz coisa boa o tempo todo. Contudo, se algo resiste ao tempo, essa força implacável, deve ser no mínimo relevante, com enorme chance de ser extraordinário. 

Como voltei as salas de aula fica cada vez mais claro que minhas referências não são mais as mesmas da maioria dos alunos. O fato é que ouço vozes dos que e foram quase o tempo todo, daí para psicografar é um passo bem curto.

Além do mais tenho, apesar de não ser a melhor do mundo, uma memória doida e ela teima em levar ao meu lóbulo pré-frontal quase irremediavelmente  tido que vivi  quando se trata de música. Olha que nem precisa uma linha melódica sequer palatável. Outro dia, por exemplo, tentei convencer a filha de uma amiga a se proteger ao usar pantins cantando... “Lá, lé, li, Lu Patinadora”. Ou seja, há um risco enorme de que qualquer coisa que digo seja de alguma forma uma referência musical e se isso não fizer muito sentido para você let it be.

A compreensão de que minha busca pelo nirvana passa pela psicografia ocorreu mesmo quando mandei uma canção para um cara (que toca violão de verdade) e ele elogiou: “Remo, que evolução, essa aí é autoral?”. Claro que não era, não sou tão criativo assim, se tratava “Ouça”, cuja interpretação de minha mãe era absurdamente marcante. Se você também é boomer pode ter ouvido na voz de Maysa.

Enfim, virei pontífice, não entre o Céu e a Terra, isso eu deixo para o Papa. E sim entre os que foram e os que estão aqui, na esperança de emocionar os que virão.

domingo, 7 de setembro de 2025

Lábaro estrelado

 Dizem que o tal imperador estava com dor de barriga e parou na beira de um rio, sabe o posto onde tiram dúvidas? Pois é. Desde então essa data virou feriado por aqui.

Hoje, fazendo parte da Associação de Vagabundos Aposentados faz pouca diferença para mim, é apenas dia de tirar mato no jardim. Como está chovendo consegui tirar um grandão com raiz e tudo. Lembro bem que molequinho a gente usava dois desses para brincar de pique, num tipo que times adversários tentavam pegar uma espécie de troféu do outro. Gostava muito dessa brincadeira, problema é que quase sempre terminava em briga.

Agora o texto dá um salto quântico. O ano era 1987, eu havia acabado de passar pelo trauma de ser aluno do primeiro ano de uma academia militar. Quem resume bem essa experiencia é Paulo Freire, em uma fala que vai fazer algumas pessoas que nunca o leram de verdade o odiar, ela diz que: “se a educação não é libertadora o sonho do oprimido é virar opressor”. Eu tinha visto isso ao vivo e a cores. É difícil não odiar a quem agiu assim por um ano, pior ainda é lidar com aqueles que reproduziram esse comportamento a carreira toda. São leões ao lidar com subordinados e gazelas ao olhar para cima.

Havia ainda um ritual de passagem para ser vencido: passar fome e frio perdido no mato, o que pode fazer parte de outra conversa, mas posso adiantar que não foi tão ruim. Antes veio outro ritual inesperado, ter 1,86m foi o motivo: fui selecionado para ser guarda bandeira. Desde então a tal da ordem unida deixou de ser tão chata e cansativa, além de um injustificado motivo de orgulho, logo eu que sempre dava um jeito de estragar as formaturas deixando cair o estranho chapéu de sodado de chumbo ou terminado a marcha descalço sem saber como tinha perdido o sapato no caminho.

Como aprendi os movimentos segui essa sina por uns 10 anos. Na época eu não sabia o quanto era bonito (e magro). O sentimento que me invadia era uma estranha noção que mesmo sendo uma gota estaria por um breve momento representando um oceano.

Mais tarde duras lições me fizeram entender que ela não representa matas e riquezas de um povo e sim as cores de casas reais que o explorou impiedosamente. Momentos ainda piores roubaram o estandarte que tão orgulhosamente carreguei meu ombro.

Mesmo assim volto a cuidar de meu quintal. Hei de correr como quando era mais forte e veloz que qualquer mocinho de caubói. Um cantinho dessa terra ainda me pertence e vou cuidar dele com muita atenção. Faço um gesto incompreensível para quem passa na rua. Grito UUHHHAA e levanto um tufo de mato, do mesmo jeito que fazia o moleque magricelo na beira da favela quando brincava de pique bandeira.

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

O pronome neutro

“Senhor Reno”, chama a atendente, “pois não”, respondo sem corrigir. Entro no consultório, sem nenhum propósito de vendeta erro o nome da médica, que me fuzila com olhos verdes e S O L E T R A, a forma correta com a qual devo tratá-la. Se fosse alguém de meu círculo ela já saberia minha resposta padrão.

Quem tem nome estranho deveria estar acostumado. Já fui Rômulo, Ramos, Renê, Breno, Romo e até Rambo. Aprendi a não ligar para isso. Na verdade, chegou a ser uma vantagem quando eu era moleque e nenhum apelido pegava. Já tentaram Terremoto, o que seria muito adequado ao meu jeitinho polido e sereno. Mr Oar, em um Cursinho. Isso tudo sem contar pau d’água, só que na época eu não bebia.

Já falei sobre isso aqui mesmo, mas é estranho ter nome de príncipe sendo um vira lata, basta ter visto qualquer novela da década de 80 para saber que Albuquerque é nome de rico. O bom é que isso tudo deixa uma piada pronta para começar qualquer palestra. Se, por outro lado, uma pessoa realmente se interessa pelo assunto acaba virando uma boa forma de quebrar o gelo, pois ai vou lembrar da lenda da qual veio meu nome e na versão longa desfilar o nome de meus outros irmãos e irmãs o que vai do óbvio Rômulo a inesperada Cleópatra.  Ou seja, está de boa. Mesmo assim pensar nisso tudo justo em uma segunda vai virar tema para a terapia logo mais.

Sei que há pessoas que chegam a entrar na justiça para mudar de nome, afinal ninguém merece ser chamado de Um dois três de Oliveira Quatro, Eustógio ou Riroca. Sobre essas pessoas tenho a vantagem de ter um nome apenas incomum. Então, se você errar tudo bem. E aqui chega o momento de dizer a tal resposta padrão: só a Aninha que não pode errar meu nome.  

Esse assunto todo está mais que batido, só voltou aos meus neurônios depois do jogo de ontem. Sempre chamei o estádio de Morumbi, mas depois do chocolate que demos ontem decidi por um S no final, pois assim é que it (desculpem não sei mais como traduzir esse pronome) quer ser chamado. Uma multinacional pagou uma baba para que assim seja. Não é como uma minoria que paga muitas vezes com a própria vida por se auto referir fora da regra culta da língua de Camões.

Remo Noronha de Albuquerque

PS. Tive que voltar no consultório, pois o farmacêutico não deixou pegar o remédio, ele é um desses raros seres humanos que sabe que vale o que está escrito. Até mesmo desconfio que já foi apontador de jogo.

quinta-feira, 17 de julho de 2025

A pedra e o pássaro

Como sobrevivi a vida de concurseiro, muitos que hoje ainda o são me perguntam como consegui lidar com as matérias para as quais não tenho talento nenhum. Conto que desenvolvi duas formas de escrever: a que faço agora como os bêbados que não têm compromisso nenhum de serem entendidos; e outra para redações e correspondências profissionais. Para esta uso o pouco que aprendi sobre coesão e coerência e um bocado sobre lógica (faz aí o sinal de prosperidade Vulcano), para aquela duas taças de vinho resolvem bem.

Então fiz essa proposta ao meu amigo Baruc, que sabe de verdade fazer e ensinar como funcionam as redações nota 1000 do ENEM, e logicamente a proposta foi gentilmente recusada. Pois o que é para a matemática nem sempre vai funcionar para a língua de Camões. Veja esses dois conectivos OU e E: se eu for explicar basta desenhar o diagrama de Venn e lembrar a teoria dos conjuntos. Se a mesma missão for dada ao Baruc... bem boa sorte para ele.

Isso ficou mais claro para mim justo ontem quando conversei com a caixa do supermercado que relatou que ela cria sua filha para se lançar no mundo, enquanto a mãe dela reclama a constante falta da neta. Ao me perguntar qual das duas estava certa respondi: as duas, e nenhuma ao mesmo tempo. Sei que sem explicar muito chego a uma encruzilhada inescapável que nenhum diagrama pode conter no conjunto dos números reais.

O mesmo pode ser dito da frase “Exu joga hoje a pedra que mata um pássaro ontem”, ou ainda “O paradoxo estendido na areia”. Essas premissas só fazem sentido se o tempo fizer curvas e se o poeta e o esfomeado forem a mesma pessoa. No primeiro caso nem Einstein pode resolver, mesmo que esteja a 300.000 Km/s, no segundo se forem duas pessoas a situação seria rebaixada a uma antítese.

Voltemos aos filhos e suas autonomias.

Se criar fosse uma ciência exata tudo seria mais fácil. Assim poderíamos determinar a medida certa entre a camisa engomada ou repleta de lama. Mas não temos nem de perto o poder de Exu, nosso tempo é linear (pelo menos quando não estamos em alguma fila de espera). Assim ter as crianças perto ou independentes têm um resultado tão preciso quanto saber se a luz vai se comportar como partícula ou se ela vai tirar onda.

Talvez a única resposta seja a construção de uma relação amorosa e honesta. Digo isso mesmo sem acreditar na história de metade da laranja, apesar de ter encontrado a minha.

Nos resta apenas rezar para que tudo dê certo no final. Ou seja, desejo para você o que aconteceu comigo. Meu filho está a um oceano de distância, mas não poderia estar mais perto de meu coração. Minha filha poderia se chamar Adeline, como a linda canção que estou aprendendo a tocar para ela que é Clara como a luz do Sol, só que essa pedra eu não posso jogar em 1998.

terça-feira, 1 de julho de 2025

TEMP(L)O

O tempo que contemplo

É a medida entre o ínfimo e o infinito

A curva que se faz espaço

O Deus Olímpico que devora

A menina que se assenhora

O futuro que que se constrói com escolha do agora

O espelho que requebra na entropia

O que não pode voltar, sequer um dia

É aquele que nos prega as peças

Peças revividas com papéis diferentes

A mãe, o pai, o avô... em início fim e meio

Até mesmo para o filho que não veio

A areia que desconta

A estrela que desponta

E enfim, a (in)certeza do fim.