A música sempre fez parte de minha vida muito antes de sequer pensar em pegar um violão. Amo muitas canções. Boa parte delas passa pela memória afetiva de minha mãe cantado enquanto fazia o que quer que fosse.
Dessas tantas, pelo menos três pérolas do passado vão
povoar esse texto.
Começo o dia e aprendo (ou pelo menos acho que sim)
uma coisa linda. Ficou tão bonitinha que resolvo mandar para alguns amigos. Do
outro lado do mundo vem a mensagem de um deles que (por acaso toca violão de
verdade – e não tem idade para conhecer meu repertório): “que isso meu caro, é
autoral?”. Humilde respondo: “quisera, é da Maysa”.
Já pensou se eu fosse capaz de realmente escrever algo
como... Ouça, vá viver a sua vida com outro bem, pois já cansei de pra você
não ser ninguém?
Chego a outras duas músicas que juntas e misturadas me
empurram para a visão de que tudo que é dito é profundamente contaminado por um
ponto de vista. Vem aqui comigo nessa jornada que atravessa os versos do Noel:
Se alguma pessoa amiga
Pedir que você lhe diga
Se você me quer ou não
Diga que você me adora
Que você lamenta e chora
A nossa separação
E às pessoas que eu detesto
Diga sempre que eu não presto
Que meu lar é o botequim
Que eu arruinei tua vida
Que eu não mereço a comida
Que você pagou pra mim
Onde ele demanda duas versões conflitantes para o fim
do relacionamento que devem ser proferidas em conformidade com o caráter interlocutor.
Por outro lado, a voz do Nelson Gonçalves traz apenas
uma versão para o mesmo tema, contada para os amigos de copo:
Acontece que a mulher que floriu meu
caminho
De ternura, meiguice e carinho
Sendo a vida do meu coração
Compreendeu e abraçou-me dizendo a sorrir
Meu amor, você pode partir
Não esqueça o seu violão
Então, espero que você me permita contar a versão da suposta
amada para sua melhor amiga, texto que não recomendo caso tenha ouvidos muito
sensíveis a um palavreado nada ortodoxo: C acredita que o filho de uma vaca
teve a pachorra de me dizer que preferia voltar para esbornia do que continuar
casado comigo? Aaaahhhmiga! Empurrei o safado escada abaixo e taquei aquele
maldito violão na cabeça do cretino. Daí ele já foi rastejando pro bar do Beto
e eu fui atrás gritando pra ele casar de uma vez com a turma do bilhar.
Por essas e outras é que essas preciosidades, que
tanto tem passado entre os meus dedos, têm me ensinado absurdamente um monte de
coisas além de cifras e campos harmônicos. Nunca parei para pensar em qualquer
texto com tanto cuidado, nem mesmo tendo lido o Fernão Capelo Gaivota um
porrilhão de vezes.
Dedilhar torna até mesmo repetições incontáveis
agradáveis, diferente de uma piada cujo efeito dificilmente ultrapassa a reprise,
mesmo que se aumente um ponto. Quem quer tocar acaba revisando a letra muito
além do óbvio, o que faz entender que Every breath you take não é sobre
amor, mas sobre obsessão. Detalhes do Roberto torna o eu lírico em um
fantasma que vai assombrar a ex nos momentos mais improváveis, o que é
simplesmente desagradável, estragando uma linda música.
Seja como for não acredite em mim. Vá lá você mesmo e
ouça o Ouça da Maysa, confira o Último desejo do Noel ou se perca
na Boemia. Melhor ainda escolha sua própria trilha sonora e viaje para
onde quiser.
Nenhum comentário:
Postar um comentário