sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Conexões em preto e branco

Os livros chegaram, um verdadeiro parto. A diferença é que não demorou nove meses, está mais para em torno de quarenta anos, ou seja, a metáfora mais adequada em se tratando de tempo (o ser que tudo devora) seria uma travessia no deserto. Resisto. Até porque esse filho não foi exatamente fácil de criar.

O “Verso e o reverso” será apresentado para o mundo em um lugar que parece ser um salão de baile, só que para mim e para os meus é uma sala de aula, portanto um local sagrado. Sagrado é por ser um espaço onde perguntas podem ser feitas sem medo de retaliação. Só que sempre há o risco da resposta ser: “eu não sei”. Mesmo assim vou tentar dizer o que há de técnica para conseguir escrever. Com a coragem de quem já navegou contra a maré.

O primeiro ato para escrever é ler. Ler de tudo. Ler muito. Ler o que nos agrada. Ler o que é importante. Ler o que ninguém mais lê. Não ler só um livro, por mais sagrado que este seja. Ler bulas de remédio. Ler quando não houver outro remédio. Ler o mundo enfim.

Dentre os livros que li há um de um tal de Huxley que diz que devemos construir mais pontes do que muros. Assim lá vou escrevendo por ai, contudo só o faço quando encontro conexões. Hoje por exemplo vou tentar juntar um astro pop, uma linda pet, um felino, o campo de meu time e um admirado jornalista.

Essa história começa com o estresse de ter perdido, mas saibam antes que minhas derrotas falam mais de mim que minhas vitórias. Perdi meus pais, um monte de oportunidades de promoção, perdi a presença de meus filhos em minha casa, inúmeras chances de me dar bem por simplesmente não conseguir ficar calado. Assim uma partida de futebol é só um resultado esportivo. Para dourar a pílula é fácil. Basta ouvir o Garone ou o Pedrosa. Eles sempre embalam meu coração cruzmaltino. Só que naquele dia este precisava mais de mim que eu dele, pois havia sido humilhado ao ser comparado a um cão. Mais especificamente um dálmata.

Porém antes precisamos lembrar o que é Vitiligo. Ninguém pede para ter manchas na pele. Hoje em dia quem as têm quem traz lá dentro de si um mapa que o torna diferente e colorido em preto e branco. Ontem tais marcas eram comuns nos tigres, os escravos responsáveis pelo serviço de descarte de esgoto com a pele marcada de tanto se banhar pelo que os seus senhores queriam longe de suas casas.

Tais marcas não pouparam nem mesmo o astro pop mais famoso de sua geração. Por isso mesmo ele nos brindou com uma bela canção que diz que não importa se você é preto ou branco.

Naquele dia o campo de meu time também estava marcado por diferentes cores em seu gramado, o que logo iriam corrigir. Se fosse por mim deveriam ter deixado assim. Nosso maior campeonato não foi no campo futebolístico e sim no político. Aqui desfilaram seus talentos negros e operários enquanto a elite fazia de tudo para proibi-los de pisar neste solo não menos sagrado.

Então Pedrosa, se orgulhe de ser um dálmata. Aquela que viveu e morreu em minha história foi fundamental para educar minha prole (que é a única verdadeira riqueza de quem trabalha). Seu nome há de ser lembrado: Lady. Pois era a encarnação de uma polidez rara até entre humanos, algo que você tantas vezes demonstrou ter. Saiba também que a única tristeza que ela nos trouxe foi a sua partida. E você, meu caro. Ainda está aqui.

Um comentário:

  1. Crônica primorosa, tantos comentários e todos muito bem expostos, pra variar achei perfeita.

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