Os livros chegaram, um verdadeiro parto. A diferença é que não demorou nove meses, está mais para em torno de quarenta anos, ou seja, a metáfora mais adequada em se tratando de tempo (o ser que tudo devora) seria uma travessia no deserto. Resisto. Até porque esse filho não foi exatamente fácil de criar.
O “Verso e o reverso” será apresentado para o mundo em um
lugar que parece ser um salão de baile, só que para mim e para os meus é uma
sala de aula, portanto um local sagrado. Sagrado é por ser um espaço onde
perguntas podem ser feitas sem medo de retaliação. Só que sempre há o risco da
resposta ser: “eu não sei”. Mesmo assim vou tentar dizer o que há de técnica
para conseguir escrever. Com a coragem de quem já navegou contra a maré.
O primeiro ato para escrever é ler. Ler de tudo. Ler muito.
Ler o que nos agrada. Ler o que é importante. Ler o que ninguém mais lê. Não ler
só um livro, por mais sagrado que este seja. Ler bulas de remédio. Ler quando não
houver outro remédio. Ler o mundo enfim.
Dentre os livros que li há um de um tal de Huxley que diz
que devemos construir mais pontes do que muros. Assim lá vou escrevendo por ai,
contudo só o faço quando encontro conexões. Hoje por exemplo vou tentar juntar
um astro pop, uma linda pet, um felino, o campo de meu time e um admirado jornalista.
Essa história começa com o estresse de ter perdido, mas
saibam antes que minhas derrotas falam mais de mim que minhas vitórias. Perdi
meus pais, um monte de oportunidades de promoção, perdi a presença de meus
filhos em minha casa, inúmeras chances de me dar bem por simplesmente não conseguir
ficar calado. Assim uma partida de futebol é só um resultado esportivo. Para
dourar a pílula é fácil. Basta ouvir o Garone ou o Pedrosa. Eles sempre embalam
meu coração cruzmaltino. Só que naquele dia este precisava mais de mim que eu
dele, pois havia sido humilhado ao ser comparado a um cão. Mais especificamente
um dálmata.
Porém antes precisamos lembrar o que é Vitiligo. Ninguém pede
para ter manchas na pele. Hoje em dia quem as têm quem traz lá dentro de si um mapa
que o torna diferente e colorido em preto e branco. Ontem tais marcas eram
comuns nos tigres, os escravos responsáveis pelo serviço de descarte de esgoto
com a pele marcada de tanto se banhar pelo que os seus senhores queriam longe de
suas casas.
Tais marcas não pouparam nem mesmo o astro pop mais famoso
de sua geração. Por isso mesmo ele nos brindou com uma bela canção que diz que não
importa se você é preto ou branco.
Naquele dia o campo de meu time também estava marcado por
diferentes cores em seu gramado, o que logo iriam corrigir. Se fosse por mim
deveriam ter deixado assim. Nosso maior campeonato não foi no campo futebolístico
e sim no político. Aqui desfilaram seus talentos negros e operários enquanto a
elite fazia de tudo para proibi-los de pisar neste solo não menos sagrado.
Então Pedrosa, se orgulhe de ser um dálmata. Aquela que
viveu e morreu em minha história foi fundamental para educar minha prole (que é
a única verdadeira riqueza de quem trabalha). Seu nome há de ser lembrado:
Lady. Pois era a encarnação de uma polidez rara até entre humanos, algo que
você tantas vezes demonstrou ter. Saiba também que a única tristeza que ela nos
trouxe foi a sua partida. E você, meu caro. Ainda está aqui.
Crônica primorosa, tantos comentários e todos muito bem expostos, pra variar achei perfeita.
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